França e Alemanha desafinam em véspera de cimeira

21 de julho 2011 - 0:30

A situação do Euro e da Europa é precária mas, em véspera de uma cimeira da Zona Euro considerada essencial, Paris e Berlim não se entendem. Uma situação que a senhora Merkel resumiu numa frase diplomática antecipando a cimeira: “não haverá avanços espectaculares de repente”.

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em véspera de uma cimeira da Zona Euro considerada essencial, Paris e Berlim não se entendem

O relatório anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), que ameaça não meter mais dinheiro na Europa se a questão da Grécia não progredir dentro do caminho do resgate, diz mais ou menos a mesma coisa que a chanceler alemã: “Existe um vasto acordo sobre o que corre mal, mas nenhum plano de acção coerente para o que se segue”.

O documento do FMI regista a seguir uma facto conhecido mundialmente – “existem graves problemas na periferia da Zona Euro” – mas prevê “que se estendam ao centro baralhando o cenário de um modo imprevisível e com efeitos de contágio consideravelmente mais importantes”.

Constata ainda o FMI que a situação do sistema bancário na Europa continua a ser “muito frágil” – passando por cima dos anunciados resultados dos testes de resistência – e quando a crescimento económico, seguramente será “modesto” e, mesmo assim, para isso é preciso que se resolvam os problemas na periferia da Zona Euro.

A cimeira de quinta-feira da Zona Euro poderá produzir declarações optimistas e tranquilizadoras, como acontece quando os acordos não existem ou são mais uma vez protelados, mas a imprensa económica europeia salienta desde já que isso não servirá para “acalmar os mercados”.

A imprensa “de referência” francesa e alemã gastou as últimas horas antes da cimeira trocando recriminações, mais agudas da parte gaulesa que há semanas, com maior ou menor entusiasmo, vai apoiando Sarkozy versus a chanceler.  Quarta-feira foi o dia escolhido por jornais franceses para criticar Angela Merkel por ter insistido no seu combate com o Banco Central Europeu e impor a participação “voluntária” dos credores privados no resgate à Grécia, por ter anunciado o abandono da energia nuclear sem consultar os seus parceiros e até por não se ter juntado à agressão da NATO contra a Líbia.

Perante as grandes pressões do presidente do BCE, que ameaça os governos de pagarem pelo eventual incumprimento da Grécia, e do FMI, que ameaça cortar o crédito à Europa, a Alemanha começa a ser apresentada como uma campeã do provável “incumprimento” das dívidas devido à estratégia da senhora Merkel.

Éduard Tretau, professor de economia e criador do site etatsunisdeurope.com, escreve um artigo que surgirá na edição de quinta-feira de Le Monde sob o sugestivo título: “Que restará quando a Alemanha entrar em incumprimento”.

Sem entrar abertamente na defesa de Sarkozy, mas elogiando a postura de Trichet no Banco Central Europeu, o autor salienta que, perante a situação, “do lado dos mercados os especuladores fazem o seu trabalho: especulam. Ajudados por uma imprensa financeira e pelas agências de notação obnubiladas pelas dificuldades da Europa, e esquecidas das peripécias das finanças públicas britânicas e americanas, eles trabalham com aplicação e método o massacre do Euro e da Europa. Eles acreditam que a queda do primeiro e a destruição da segunda servirão os seus interesses financeiros e os dos países que os abrigam”.

Um simples parágrafo toca a fundo nas questões fulcrais de toda uma cimeira.

Artigo publicado no site do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu