Função Pública

Forte adesão à greve “é a resposta dos trabalhadores à ausência de soluções”

24 de outubro 2025 - 11:31

As previsões da Frente Comum confirmaram-se e são muitos os serviços públicos encerrados ou com fortes perturbações no funcionamento esta sexta-feira. Trabalhadores exigem “a reversão deste caminho de empobrecimento”.

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Manifestantes durante a greve geral de trabalhadores da administração pública na sede da Segurança Social, em Lisboa
Manifestantes durante a greve geral de trabalhadores da administração pública na sede da Segurança Social, em Lisboa. Foto de Filipe Amorim/Lusa

A Frente Comum declarou ao início da tarde desta sexta-feira que “esta foi a maior greve dos trabalhadores da Administração Pública registada nos últimos anos, facto demonstrativo de que o Governo deve mudar de política relativamente àqueles que laboram no setor e aos serviços públicos que carecem de investimento para o cumprimento das suas funções”. A adesão à greve foi de 80% em termos gerais, tendo atingido os 90% nos setores da saúde, educação, Segurança Social, finanças e justiça, “com centenas de serviços encerrados e muitas centenas de outros a laborar só com serviços mínimos”.

A greve da administração pública convocada pela Frente Comum contou desde o início com forte adesão. Durante a madrugada registou-se 90% de adesão nos serviços de recolha do lixo. Ao início da manhã, o coordenador  desta frente de sindicatos dos vários setores da função pública disse aos jornalistas que “estamos perante uma grande greve da administração pública, como antevíamos, uma das maiores greves dos últimos anos”, com centenas de escolas fechadas de norte a sul do país, perturbações no atendimento ao público na Segurança Social e Finanças, adesão superior ao normal nos hospitais. Sebastião Santana acrescentou que os números então disponíveis davam conta de que na área da justiça se estimava uma adesão de 90% na Grande Lisboa, com tribunais criminais fortemente perturbados e secções encerradas no Palácio da Justiça.

“É a resposta dos trabalhadores à ausência de soluções e a este processo negocial inquinado em que o Governo remete para depois da votação na generalidade do Orçamento a próxima reunião negocial. Começou o processo negocial já depois de apresentar a proposta de Orçamento no Parlamento”, prosseguiu, contrapondo que o Orçamento do Estado “tem condições para dar uma resposta muito diferente aos trabalhadores, mas também aos serviços públicos”.

À RTP, Sebastião Santana afirmou que o objetivo da greve é “a reversão deste caminho de empobrecimento” que fez os trabalhadores da administração pública perderem mais de 20% do poder de compra nas últimas duas décadas. “Temos uma proposta de 15% de aumento, que não recupera totalmente a perda de poder de compra acumulada, com um mínimo de 150 euros por trabalhador”. O sindicalista diz que “há dinheiro no Orçamento para isto, está é nas rubricas erradas, nomeadamente nas rubricas que atribuem aos grandes grupos económicos benefícios fiscais da ordem de 1,7 mil milhões de euros”. E deu o exemplo do IRC, onde o Governo se propõe a  reduzir receita em cerca de 300 milhões de euros de impostos pagos por um pequeno grupo de grandes empresas, enquanto para a generalidade da população a poupança no IRS são 198 milhões.

“Uma Presidente da República saberá falar por estas pessoas que seguram o país todos os dias”

No mesmo piquete à porta do atendimento da Segurança Social esteve Catarina Martins. A candidata às eleições presidenciais saudou os funcionários públicos em greve e deixou palavras de apreço por estes trabalhadores que “quando estão em contacto com a população que precisa deles sentem a frustração dessa população porque eles não chegam para o trabalho que têm”.

“Uma Presidente da República saberá falar por estas pessoas que seguram o país todos os dias com enorme sacrifício e que tantas vezes são insultadas no debate político”, prometeu Catarina.

Médicos, enfermeiros e professores descrevem elevada adesão

Na ronda dos canais informativos pelos piquetes da greve, a presidente da FNAM falou à porta do Hospital de São João 
serviços da Segurança Social em Lisboa para dizer que a adesão dos médicos a esta paralisação se deve à defesa do SNS e à “falta de uma perspetiva de valorização da nossa carreira”. Joana Bordalo e Sá criticou também “a desestabilização dentro do Serviço Nacional de Saúde, que se agravará com a execução do plano da ministra Ana Paula Martins de criar os serviços regionais de urgência”.

“Um serviço de urgência regional é diferente de um serviço de urgência metropolitano. Nós estamos aqui no Porto e a urgência metropolitana é feita entre hospitais que distam poucos quilómetros uns dos outros. Uma urgência regional não é assim que funciona”, sustentou, acusando a ministra de querer “obrigar os médicos a serem mobilizados de uma forma forçada para fazer estes serviços de urgência, que é algo que nem sequer é possível para os médicos que estão ao abrigo dos acordos coletivos da Federação Nacional dos Médicos, porque não podem ser deslocalizados para fazer trabalho fora do concelho onde trabalham”.

O que o Governo “está a dizer à população, no que respeita à urgência regional da obstetrícia, é que vão ficar sem serviços de proximidade. Ou seja, as grávidas e os bebés vão ter de continuar a andar quilómetros e quilómetros e quilómetros para serem atendidas”, rematou.

À porta do mesmo hospital, Orlando Gonçalves, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte, disse à RTP que “os blocos operatórios estão todos encerrados, só funcionam os de urgência e só se realizou uma cirurgia de grau de oncologia 3 ou 4, que essas têm de ter serviços mínimos e têm de se realizar, obviamente”. Nas consultas externas a adesão dos administrativos foi de 100%, embora os quiosques que validam as consultas estejam a funcionar, realizando-se caso os médicos não tenham aderido à greve. O sindicalista acrescentou que no Hospital Padre Américo, em Penafiel, “que costuma ter uma adesão bastante inferior ao São João, esta é uma das maiores greves de sempre com 90% de adesão”. E fala de grande adesão também no Hospital de Braga, onde “os trabalhadores estavam muito determinados em fazer a greve também por causa do fantasma da PPP”, cujo regresso está a ser equacionado pelo Governo. “Os trabalhadores e os utentes não querem de novo uma PPP em Braga porque a anterior experiência que durou dez anos foi muito negativa”, concluiu.

Os enfermeiros também contribuíram para o sucesso desta greve nos hospitais, Em declarações à CNN Portugal a partir de um centro de saúde em Coimbra, Paulo Anacleto, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, eu conta de muitos serviços encerrados e a prestar serviços mínimos. “Há um grande descontentamento por parte dos enfermeiros e esta é uma demonstração clara e inequívoca disso mesmo”, congratulou-se. No mesmo registo, Alda Pereira, também do  SEP, falou à porta do hospital de Faro, onde a greve estava a rondar os 80%, mas com muitos serviços com 100% de adesão. “Mais do que satisfeitos, este é o reconhecimento de que os profissionais estão descontentes com as medidas que o Governo quer aprovar. Nós precisamos de estabilidade e o que estamos a viver é instabilidade”, afirmou.

A fazer o primeiro balanço da adesão dos professores, à porta da escola António Arroio, em Lisboa, esteve José Feliciano Costa, da Fenprof. Disse aos jornalistas que “há uma forte expressão desta greve com escolas fechadas em todo o país” e também uma grande participação dos professores, “que percebem o que está em cima da mesa, basta olhar para o Orçamento do Estado e ver os números alocados à Educação, que nos dizem que não há ali nenhum investimento, a Educação é vista como uma despesa”.

Por outro lado, os professores “veem a sua carreira cada vez mais desvalorizada, num processo que se vai degradando ao longo dos tempos”, prosseguiu o dirigente da Fenprof, não esquecendo também a proposta do Governo para criar uma  agência para a gestão do sistema educativo. “O que está a ser proposto é o desmantelar do Ministério da Educação. É uma agência que com as regras de uma empresa privada vai passar a gerir a carreira dos professores, a colocar professores, a tratar da mobilidade e contratação de professores. Isto é uma desresponsabilização do Ministério da Educação”, acusa José Feliciano Costa.


Notícia atualizada às 16h com o balanço geral da greve feito pela Frente Comum