Obituário

Faleceu Lieve Meersschaert, a “mãe” da Cova da Moura e fundadora do Moinho da Juventude

19 de fevereiro 2026 - 11:09

Antes de chegar à Cova da Moura e marcar a vida do bairro nas décadas seguintes, Lieve destacou-se na Cooperativa Operária do Serviço Doméstico (Cooperserdo), lutando pelos direitos laborais das empregadas domésticas.

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Lieve Meersschaert na exposição "Mulheres todos os dias", na Galeria Geraldes, no Porto, em 2022
Lieve Meersschaert na exposição "Mulheres todos os dias", na Galeria Geraldes, no Porto, em 2022. Foto de Ana Feijão

Lieve Meersschaert, figura central da luta pelos direitos humanos e fundadora da Associação Cultural Moinho da Juventude, na Cova da Moura, Amadora, faleceu esta quarta-feira, dia 18 de fevereiro de 2026, na sua terra natal, Geel, na Bélgica. Com 80 anos, Lieve partiu rodeada de amigos e familiares, incluindo Nuno e Tiago, as crianças que acolheu e viu crescer, após uma longa batalha contra um cancro.

Natural da Bélgica, onde nasceu a 29 de abril de 1945, Godelieve Meersschaert formou-se em Psicologia na Universidade de Louvain. Participou no movimento de solidariedade com a revolução portuguesa, em iniciativas como o apoio aos trabalhadores da Maconde em Braga, Segundo o Museu do Aljube, a sua ligação a Portugal começou em 1978, quando chegou num Mini com a intenção inicial de seguir para o Brasil. Contudo, o encontro com Eduardo Pontes, militante contra a ditadura e fundador do MES, e o envolvimento com as lutas sociais fixaram-na no país, onde se tornou "moradora da Cova da Moura", como orgulhosamente se apresentava.

Em 1984, na Amadora, Lieve foi uma das fundadoras do Moinho da Juventude. O seu trabalho começou com a mobilização pela água potável e saneamento básico no bairro, numa altura em que centenas de pessoas dependiam de apenas duas torneiras. Dedicou a sua vida a combater as desigualdades sociais, o racismo e a violência, promovendo a educação através da criação de bibliotecas e o apoio constante a jovens e famílias.

Antes da Cova da Moura, Lieve destacou-se na Cooperativa Operária do Serviço Doméstico (Cooperserdo), lutando pelos direitos laborais das empregadas domésticas. O seu percurso foi reconhecido com a Ordem de Mérito pelo Presidente Jorge Sampaio em 2005 e com o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República em 2007.

Em comunicado, a Direção do Moinho da Juventude manifestou profunda dor por esta "perda irreparável", destacando o seu "legado profundamente marcante na Cova da Moura e no mundo". A associação apelou ao respeito pela vontade de Lieve de evitar qualquer "culto da personalidade", honrando os seus princípios de "mulher combatente".

A redação do Esquerda.net e o Bloco de Esquerda expressam as suas mais sentidas condolências à família, aos amigos e a toda a comunidade da Cova da Moura. O exemplo de Lieve Meersschaert continuará vivo em todas as lutas pelos direitos humanos e a justiça social.