EUA: Extrema-direita fatura milhões com isenções fiscais e redes sociais

11 de março 2021 - 15:02

Os grupos de ódio estabeleceram vias de financiamento lucrativas que se apoiam nas falhas de fiscalização do fisco e dos gigantes da internet.

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Imagem da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump. Foto de TapTheForwardAssist/Wikimedia Commons.
Imagem da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump. Foto de TapTheForwardAssist/Wikimedia Commons.

O ódio é também um bom negócio. Dois estudos norte-americanos recentes mostram que a extrema-direita fatura milhões através de doações que passam pelas criptomoedas e pelas redes sociais. Calcula-se que, apenas em 2020, terão lucrado cerca de 1,5 milhões de dólares.

O Global Disinformation Index e o Southern Poverty Law Center entregaram os seus estudos a um comité da Câmara dos Representantes dos EUA no final de fevereiro. Neles se revelam alguns dos esquemas de financiamento de grupos como os Oath Keepers, os Proud Boys e vários outros “supremacistas brancos”, entre os quais se contam elementos que estiveram presentes no ataque ao Capitólio.

A plataforma de streaming DLive é um destes meios. Megan Squire, professora de ciências computacionais da Universidade de Elon e membro do SPLC, descobriu que, entre meados de abril e o início de fevereiro, 55 membros e grupos de extrema-direita utilizaram o DLive para conseguir 866.700 dólares em doações em criptomoeda. A especialista diz ao The Guardian que “a ideia de que múltiplos grupos de ódio possam angariar dezenas de milhares de dólares por mês através de tecnologia de ponta e com pequenos grupos de doadores devia ser aterrorizadora”.

Daniel Rogers, do GDI, indica uma outra via pela qual a extrema-direita lucra. Segundo o seu estudo, quase metade dos 73 grupos de ódio que analisou beneficiam de isenções fiscais ao declararem-se grupos de caridade ou de apoio social. Por exemplo o grupo Oath Keeper usa uma organização denominada Oath Keepers Educational Foundation para fazer com que o seu dinheiro não seja tributado. Para Rogers, tal tem sido possível porque “tem havido uma degradação da aplicação da lei” na autoridade fiscal do país.

Este estatuto, sublinha-se, abre-lhes as portas de outras plataformas. Sendo isentas de pagamento de impostos têm “acesso automático” a várias ferramentas de angariação de fundos das redes sociais, como as do Facebook e da Amazon.

O co-fundador do Global Disinformation Index aponta o dedo ao site de crowdfunding cristão GiveSendGo. Foi nele que pelo menos 24 dos acusados pelo ataque ao Capitólio angariaram cerca de 250.000 mil dólares para despesas de viagens, legais, entre outras.

Com as investigações a este ataque a aumentarem o escrutínio, Megan Squire nota que as estratégias da extrema-direita estão a mudar. Exemplo disso é a mudança do site neo-nazi Daily Stormer, que deixou de apostar nas doações em bitcoins para passar ao Monero que é muito mais difícil de rastrear.

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