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EUA: Duas mil crianças migrantes enjauladas e separadas dos seus pais

Desde que a administração Trump anunciou a sua política de “tolerância zero” contra a imigração, quase duas mil crianças foram separadas à força dos seus pais. ONU insta EUA a acabar com separação forçada de crianças migrantes.

No passado domingo, a Patrulha Fronteiriça dos Estados Unidos permitiu que um grupo de jornalistas visitassem as instalações onde estão detidas famílias de imigrantes que cruzaram a fronteira entre o México e os EUA. As autoridades norte-americanas respondiam desta forma às críticas e aos protestos contra a política de “tolerância zero” da administração Trump contra a imigração, e a consequente separação forçada de famílias imigrantes.

Os jornalistas, que não foram autorizados a entrevistar os imigrantes ou a tirar fotografias, encontraram mais de 1.100 pessoas nestas instalações, divididas em grupos: crianças não acompanhadas, adultos sozinhos e mães e pais com filhos. As jaulas de cada ala abrem-se para áreas comuns, onde estão instalações sanitárias portáteis. A iluminação fica acesa 24 horas por dia.

A Patrulha Fronteiriça informou que cerca de 200 pessoas eram menores não acompanhados e 500 pertenciam a “unidades familiares”. Estes menores são encaminhados para albergues ou centros de acolhimento enquanto os adultos enfrentam processos judiciais. Muitas famílias denunciam que o reagrupamento posterior é praticamente impossível, face à ausência de registos.

De acordo com dados divulgados pelo Departamento de Segurança Nacional, desde o anúncio formal da política de “tolerância zero” da administração Trump contra a imigração, há apenas seis semanas, o governo norte-americano separou à força quase 2.000 crianças migrantes dos seus pais.

Confrontado com um vídeo divulgado pelo governo norte-americano de um centro de detenção para crianças no Texas, Bernie Sanders escreveu no seu Twitter que “temos de derrotar esta ação desumana e antiamericana”.

Administração Trump não tem planos para reunir famílias imigrantes

Embora a política de “tolerância zero” tenha sido anunciada oficialmente no mês passado, ela está em vigor, de forma mais limitada, desde pelo menos o último verão.

Há vários meses atrás, quando os casos de separação familiar começaram a surgir em todo o país, grupos de direitos dos imigrantes exortaram o Departamento de Segurança Interna a criar procedimentos para rastrear as famílias. Contudo, não foi implementado qualquer protocolo para manter o controlo de pais e filhos ao mesmo tempo, para manter pais e filhos em contato enquanto estão separados, ou para eventualmente reuni-los.

A ausência de planos, por parte da Administração Trump, para reunir famílias imigrantes, bem como a total desarticulação total entre os serviços, foi confirmadas ao The New Yorker pelas responsáveis do grupo de direitos dos imigrantes Kids in Need of Defense, que tenta apoiar estas famílias no reagrupamento.

Uma das fotos que retrata a brutalidade da separação das crianças, e que rapidamente se tornou viral, nomeadamente devido à incerteza acerca do seu futuro, retrata uma criança hondurenha, retirada do colo da sua mãe, prestes a ser levada sob custódia após atravessar a fronteira com o México.

O fotógrafo John Moore relatou o momento em entrevista à NPR: “Todos nós ouvimos as notícias de que a administração [Trump] tinha planos para separar famílias e estas pessoas não faziam ideia dessas notícias. Foi muito difícil tirar estas fotografias, sabendo o que se seguia”.

“Como fotojornalista, o meu papel é continuar, mesmo quando é difícil. Mas como pai – e eu próprio tenho um recém-nascido – foi muito difícil ver o que estava a acontecer à frente da minha lente e pensar como seria se separassem os meus filhos de mim”, avançou.

ONU insta EUA a acabar imediatamente com separação forçada de crianças

O alto-comissário dos Nações Unidas para os Refugiados, Zeid Ra'ad al-Hussein, pediu, esta segunda-feira, aos EUA que "acabem imediatamente" com a separação de crianças migrantes dos seus pais.

"Estou profundamente preocupado pelas políticas recentemente adotadas nos Estados Unidos que castigam as crianças pelas ações dos seus pais", frisou Zeid, no discurso de abertura da 38.ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Zeid lembrou que a Associação de Pediatras norte-americana considerou esta "cruel prática" um "abuso contra crianças consentido pelo Governo" que pode causar "danos irreparáveis" com "consequências para toda a vida" para os menores.

"Pensar que um Estado pretende dissuadir os pais (de entrar ilegalmente no país) ao infligir tal abuso sobre as crianças é inadmissível", disse o responsável.

"Insto os Estados Unidos a acabarem imediatamente com a prática de separar à força estas crianças e apelo ao Governo para que ratifique finalmente a Convenção sobre os Direitos da Criança, a fim de assegurar que os direitos fundamentais de todos os menores, qualquer que seja o seu estatuto administrativo, estejam no centro de todas as leis e políticas nacionais", avançou o alto-comissário dos Nações Unidas para os Refugiados. 

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