Um grupo de estudantes de uma pós-graduação em Direitos Humanos no Ius Gentium Conimbrigae da Universidade de Coimbra apresentou um protesto junto da coordenação do curso após ter sido exibido sem contextualização ou contraditório o filme “Screams Before Silence”, produzido pela bilionária Sheryl Sandberg com o objetivo de mostrar a violência sexual cometida pelo Hamas nos ataques de 7 de outubro de 2023.
Na mensagem dirigida à coordenação do curso, os estudantes lamentam “a ausência de contextualização crítica e de enquadramento histórico que, na nossa perspetiva, seria indispensável para uma abordagem academicamente rigorosa de um tema desta complexidade e sensibilidade”. A aula foi dada a 27 de março por Helena Ferro de Gouveia, conhecida pelo apoio às posições do governo israelita em espaços de comentário televisivo durante a guerra de Gaza, e acabou por limitar-se à exibição do filme, por entre o desconforto dos estudantes presentes, que não responderam ao pedido de intervenções por parte da docente após a projeção.
“A exibição de material que incide exclusivamente sobre uma das partes do conflito, sem contraponto ou discussão orientada, coloca-nos perante uma dificuldade: a de distinguir entre o estudo crítico do tema e a veiculação acrítica de uma perspetiva particular. Esta distinção é, a nosso ver, central à integridade académica de qualquer programa que se proponha formar profissionais na área dos Direitos Humanos”, afirmaram os estudantes na sua carta.
A polémica gerada pelo filme de Sheryl Sandberg e pelo artigo do New York Times intitulado “Screams without words”, com testemunhos posteriormente desmentidos, gerou uma discussão sobre a dimensão dos abusos sexuais cometidos pelo Hamas a 7 de outubro de 2023. No ano seguinte, um relatório da ONU confirmou vários casos de abusos sexuais no dia dos ataques, mas não encontrou provas de que essa prática tenha sido sistemática e generalizada, como alega a propaganda israelita no seu relato dos acontecimentos.
O Esquerda.net teve acesso à resposta da coordenadora do curso, Teresa Pizarro Beleza, aos estudantes, em que lamenta a ausência de debate e a dificuldade de diálogo, atribuindo-o às “posições extremadas de muitos de nós no que respeita ao conflito entre Israel e o Hamas”, mas admitindo “que deveria ter havido outra preocupação de contextualização dos acontecimentos” por parte da docente, que no ano anterior apresentara na mesma aula - sobre a dimensão de género nas guerras - um vídeo que tinha por objeto o genocídio no Ruanda. Em declarações ao Esquerda.net, um dos subscritores da carta, que pediu anonimato, lamentou que a direção do curso “tenha, de certa forma, desvalorizado a mobilização dos estudantes e validado a presença de Helena Ferro de Gouveia, assim como a exibição de um documentário que diversas fontes já provaram tratar-se de um registo manipulado e de propaganda israelita".
Na segunda e última aula de Helena Ferro de Gouveia para este curso, realizada no final da semana passada, o tema era a dimensão de género na vida em campos de refugiados. Segundo o relato de um dos estudantes que assistiu à aula, novamente os pedidos de reações e comentários não tiveram reação dos alunos presentes no final da projeção de um vídeo. Helena Ferro de Gouveia lamentou essa falta de participação e criticou os estudantes por se terem dirigido à coordenação do curso sem que a tenham confrontado na aula anterior, algo que diz nunca lhe ter acontecido nos vários países onde deu aulas. E assim a aula voltou a terminar muito antes da hora prevista.