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As estrelas de Stonewall: trans, negras, latinas, revolucionárias

O grupo STAR foi fundado em 1970 pelas ativistas Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera. Nos 50 anos de Stonewall, que se comemoram esta sexta, as suas histórias ajudam a entender por que razão as LGBTQI negras e latinas foram as mais agressivas durante a revolta. Por Jéssica Milaré.
Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera na Parada de 1973, desobedecendo à expulsão.
Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera na Parada de 1973, desobedecendo à expulsão.

Revolucionárias de Ação Transgénero de Rua: essa é a tradução do nome do grupo Street Transvestite Action Revolutionaries ou STAR (Estrela em português), fundado em 1970 pelas ativistas Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que participaram na Revolta de Stonewall. As suas histórias ajudam a entender por que razão as LGBTQI negras e latinas, particularmente as pessoas trans, drag queens e lésbicas “butch”, foram as mais agressivas durante a Revolta.

Ao contrário de Virginia Prince e de Magnus Hirschfeld, elas não tinham conhecimento científico, mas tinham instinto.

Um pouco de Marsha


Marsha P. Johnson, 1970.

Marsha e Sylvia identificavam-se como drag queens, mas essa identidade deve ser compreendida à luz da sua época. Elas não se arranjavam para realizar shows, pelo contrário, era sua identidade o tempo todo. O debate sobre identidade de género ainda era inacessível à maioria, em particular às negras sem-abrigo e trabalhadoras do sexo, como Marsha.

Quando um juiz questionou Marsha sobre o significado da letra P no seu nome, ela respondeu: "Pay it no mind" ("Não se importe com isso"). O magistrado riu e libertou-a. Quando perguntavam a sua identidade de género, também dizia: "Pay it no mind". Considerando a grande preocupação que Marsha tinha com os "irmãos e irmãs gays" mais pobres que viviam na rua, essa resposta faz muito sentido.

Aos 18 anos, em 1963, Marsha viajou para Nova Iorque com 15 dólares e uma sacola de roupas. O contacto com a comunidade gay fez com que saísse do armário. Viveu nas ruas durante a maior parte da sua vida. Prostituía-se para sobreviver. Questionada, afirmou não saber quantas vezes foi presa: parou de contar na centésima.

Em 1972, Marsha e Sylvia, com o dinheiro do trabalho sexual, alugaram um imóvel que batizaram de STAR House. Esta casa tornou-se o abrigo de várias LGBTQI de rua. A STAR recebia cartas de pessoas presas pela criminalização da homossexualidade ou por "uso de roupas do sexo oposto", pedindo-lhes ajuda.

Um pouco de Sylvia

Sylvia Rivera, 1970. Foto Kay Lahusen.
Sylvia Rivera, 1970. Foto Kay Lahusen.

Também sem-abrigo e prostituta, Sylvia era novaiorquina de descendência venezuelana e porto-riquenha. Porto Rico é um território estadunidense, mas 94% da sua população fala espanhol. Nos EUA, as pessoas de origem ou descendência latina (inclusive as brasileiras) são vistas como não-brancas e sofrem racismo.

A sua mãe, abandonada pelo marido, teria de criar Sylvia sozinha, mas cometeu suicídio quando ela tinha apenas três anos. Como a sua avó não aceitava o seu "comportamento efeminado", fugiu de casa aos 11 anos e passou a sobreviver com a prostituição.

Rivera engajou-se em vários movimentos pelos direitos civis, particularmente as mobilizações contra a guerra no Vietname e feministas. Aproximou-se dos partidos Panteras Negras e Young Lords, este um partido socialista revolucionário porto-riquenho.

Em 1973, os organizadores da Parada do Orgulho deliberaram expulsar as drag queens, particularmente Sylvia e Marsha, por darem uma "má imagem" à manifestação. Um grupo de auto-intituladas feministas radicais apoiaram a medida. Em resposta, Sylvia Rivera subiu ao palanque. Após ouvir pessoas gritando “Fora! Fora!” por um tempo, pegou no microfone e gritou: “É melhor que fiquem todos quietos!” Foi um discurso heroico

Para estudar mais sobre as duas

Há um vídeo com o discurso de Sylvia Rivera legendado neste link. Anteriormente, escrevi um texto sobre o evento, com outros relatos de Sylvia. Está neste link. Há também uma entrevista por Randy, em inglês, neste link.

Há um documentário sobre a vida de Marsha P. Johnson: “A Morte e Vida de Marsha P. Johnson”. Está disponível na Netflix.

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Artigo publicado originalmente em Esquerda Online. Adaptação para a norma de Portugal de José Borges Reis.

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