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Estamos a viver o período mais perigoso na história humana, alerta Chomsky

A convergência da crise climática, ameaça nuclear e avanço do autoritarismo tornam o atual momento histórico mais perigoso do que o dos anos 1930, alerta o intelectual norte-americano em entrevista à New Statesman.
Noam Chomsky
Noam Chomsky em julho de 2020. Imagem Democracy Now.

Aos 91 anos, Noam Chomsky continua ativo na intervenção cívica e política, este fim de semana ao lado de Bernie Sanders, Naomi Klein e Yanis Varoufakis no encontro online da “Internacional Progressista”. Entrevistado pela New Statesman Chomsky alertou que o mundo está perante uma “impressionante confluência de crises muito graves”, cuja dimensão ficou patente no último acerto do famoso “Relógio do Juízo Final”. “Tem sido ajustado todos os anos desde o bombardeamento atómico, o ponteiro dos minutos tem avançado e recuado. Mas em Janeiro passado, abandonaram os minutos e passaram aos segundos para a meia-noite, o que significa a extinção. E isso foi antes da escalada da pandemia”, recorda.

Para o linguista norte-americano, a ameaça de guerra nuclear nos dias de hoje “é provavelmente mais grave do que era no tempo da Guerra Fria”. Por outro lado, há as ameaças da catástrofe climática e da deterioração da democracia, “que à primeira vista parece que nada tem a ver com as outras, mas na verdade tem muito, porque a única esperança de lidarmos com as outras duas crises existenciais, que são mesmo uma ameaça de extinção, é através de uma democracia vibrante, com cidadãos informados e empenhados que participem na construção de respostas a essas crises”.

Chomsky sublinha o papel de Donald Trump no agravar destas três crises, ao destruir os mecanismos de controlo do armamento e investir em novas armas mais perigosas, ao maximizar o uso de combustíveis fósseis e enfraquecer a regulação ambiental e ao afastar todas as vozes dissidentes no executivo, formando na prática uma “internacional reacionária” ao lado de figuras como o brasileiro Bolsonaro, o egípcio al-Sisi, o indiano Modi ou o húngaro Orbán.

“Ele já disse e repetiu que se não gostar do resultado das eleições não sairá do lugar”, lembra Chomsky, afirmando que nesse caso existe um dever dos militares, nomeadamente da 82ª Divisão Aerotransportada, de o remover à força. O facto de este tema estar em cima da mesa não só não tem precedentes no regime norte-americano, como pode ter consequências graves. No plano de transição presidencial, altos responsáveis democratas e republicanos têm colocado a questão de o que pode acontecer se Trump se recusar a sair e “todos os cenários que eles levantaram conduzem à guerra civil. Isto não é uma piada”, avisa Chomsky.

A mensagem de Chomsky para a esquerda dos EUA é que faça o que “deve fazer sempre: reconhecer que a política verdadeira é o ativismo constante”. O que no caso de uma eleição num sistema bipartidário significa ter de votar no candidato que se opõe a Trump. “Mas logo depois o que há a fazer é desafiá-lo, manter a pressão para o empurrar em direção de propostas mais progressistas”, acrescenta o intelectual que se define como anarquista, “tal como o é toda a gente se parar um pouco para pensar, tirando as pessoas que são patológicas”.

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