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Está o património cultural indiano seguro na Índia hindu?

A reinvenção da "nacionalidade" e da "religião" é o principal objetivo do nacionalismo cultural hindu – que tem vindo a aumentar desde que Narendra Modi se tornou primeiro-ministro. Modi está a mudar a crença fundadora da Índia ao substituir o pluralismo religioso pela homogeneidade hindu – sob a bandeira do nacionalismo Hindutva. Artigo de Amit Singh.
Está o património cultural indiano seguro na Índia hindu?
Fotografia de impe.sta/Flickr.

O Mundo assistiu com consternação quando, em Março de 2001, os talibãs do Afeganistão explodiram as magníficas estátuas dos Budas de Bamyan. O património cultural foi tornado num alvo porque contradizia a ideologia fanática dos talibãs. Apesar de não ser exatamente o mesmo, mas com contornos semelhantes, um acontecimento recente em Istambul segue a mesma linha: o monumento da era bizantina Hagia Sophia foi convertido de novo numa mesquita. Isto não foi surpreendente, dadas as conhecidas tendências de extrema-direita da liderança turca.

Assim, não seria surpreendente se a sétima maravilha do Mundo, o Taj Mahal, um mausoléu de mármore branco-marfim fosse subitamente convertido num templo hindu pelo primeiro-ministro da Índia, o nacionalista hindu Narendra Modi. O Taj Mahal foi construído pelo imperador muçulmano Shah Jahan em memória da sua amada esposa Mumtaz Mahal, em 1632. Muitos líderes nacionalistas hindus acreditam firmemente que o Taj Mahal foi originalmente um templo chamado Tejo Mahalaya. Há muito tempo que os líderes nacionalistas hindus exigem a declaração do Taj Mahal como templo hindu. Ainda mais chocante é a sua exigência de emendar a Constituição indiana para substituir a palavra "Índia" por "Bharat", uma vez que Índia seria um termo inglês.

A reinvenção da "nacionalidade" e da "religião" é o principal objetivo do nacionalismo cultural hindu – que tem vindo a aumentar – desde que o nacionalista hindu Narendra Modi se tornou primeiro-ministro em 2014. Modi está a mudar a crença fundadora da Índia ao substituir o pluralismo religioso pela homogeneidade hindu – sob a bandeira do nacionalismo Hindutva.

O hinduísmo é aquilo em que a maioria dos indianos acredita. O Hindutva é uma resposta agressiva ao hinduísmo tolerante. O Hindutva não é apenas um meio de hinduizar a política e diabolizar as minorias religiosas mas também de apagar o passado multicultural do património indiano ao mudar os nomes de lugares e monumentos históricos para símbolos hindus em locais onde o hinduísmo não estava presente. Na sua maioria, estes símbolos são objetos de imaginação sobre os quais são projetadas as fantasias de unidade hindu. 

Nos últimos seis anos do mandato de Modi como primeiro-ministro, o partido nacionalista hindu Bhartiya Janta Party (BJP) , renomeou cidades indianas, ruas, aeroportos e uma das maiores estações ferroviárias do país, trocando nomes que refletem a herança muçulmana por nomes hindus. Ao fazê-lo, está a rever o mapa da Índia e a tentar reescrever a sua história. Em 2018, o partido nacionalista hindu Bharatiya Janata mudou o nome da cidade de Allahabad para Prayagraj – uma palavra que faz referência a um local de peregrinação hindu aí situado. O nome Allahabad era datado do século XVI, herança de um governante muçulmano, o Imperador Mongol Akbar.

Em 2018, poucas horas depois do BJP ter começado a governar Uttar Pradesh, o partido anunciou a renomeação de Faizabad (um nome muçulmano) como Ayodhya. Outro estado governado pelo BJP, Gujarat, disse que estava interessado em renomear Ahmedabad como Karnavati. Foi o Sultão Ahmed Shah, governante muçulmano, que lançou os alicerces da cidade muralhada de Karnavati em 1411 A. D. e a batizou de Ahmedabad. Ainda no seguimento da ideologia Hindutva de apagar o passado secular da Índia, em 1992, Babari Masjid (uma mesquita muçulmana) foi demolida por fanáticos hindus e quase 2000 pessoas foram mortas nos motins que se seguiram entre hindus e muçulmanos.
O pluralismo religioso e a tolerância são a marca distintiva da Índia multicultural – este espírito foi acomodado numa Constituição secular da Índia que empodera as minorias religiosas para preservarem e promoverem a sua cultura étnica. Contudo, o pai ideológico do BJP, o RSS (Rastriya Swayamsevak Sangh) – que controla o BJP – não acredita nem no secularismo nem na Constituição indiana. Isto refletiu-se recentemente, na remoção dos capítulos sobre secularismo, cidadania, democracia, lutas populares e movimentos do currículo do 9º ao 12º anos de escolaridade. Uma parte essencial da história indiana foi apagada silenciosamente – sob o pretexto de reduzir a carga académica devido à pandemia da covid-19.

No entanto, é preciso notar que os ideólogos do RSS foram inspirados por Mussolini e Hitler. O RSS considera muçulmanos e cristãos como estranhos e tem estado na vanguarda da campanha para reescrever livros de história. Curiosamente, os historiadores nacionalistas hindus afirmam que os épicos religiosos hindus, o Ramayana e Mahabharata, devem ser vistos como relatos precisos da história indiana.

Parece que sob o governo nacionalista hindu, o património cultural não hindu não esta seguro ou livre de manipulações. Este está decidido a hinduizar os símbolos multiculturais das eras passadas a utilizá-los como símbolos para mobilizar os hindus. Não seria surpreendente se começassem a transforma a herança arquitetónica portuguesa em símbolos hindus em Goa – então provavelmente Goa passaria a ser 'Gomantak' em  sânscrito. Afinal, os seus esforços têm o propósito simbólico e político de fazer da Índia uma nação completamente hindu.

Para tais propósitos, são invocadas as memórias de traumas passados. Um dado trauma é frequentemente utilizado para interpretar novos traumas. Neste contexto, os muçulmanos são vistos como invasores e responsáveis pelo crescimento da população, motins comunitários e pobreza na Índia. Os rituais religiosos e culturais, incluindo a renomeação de monumentos históricos com nomes hindus, podem servir para sustentar o trauma e alimentar a contínua diabolização do outro, ao mesmo tempo que sacralizam a sua própria identidade. É assim que os sentimentos de "ódio antigo" são construídos e mantidos.

Mudar o nome não é um problema em si. Os nomes também já foram alterados no passado. Bombaim tornou-se Mumbaim, Calcutá tornou-se Kolkata, mas estas mudanças estão a ser feitas para diabolizar os muçulmanos. Está a ser criada a imagem de que os muçulmanos são estrangeiros, que invadiram a Índia, e que são indesejados na Índia. Uma das características essenciais do fascismo é que ele cria um inimigo interno. O que o BJP está a fazer é a criar um inimigo a partir dos muçulmanos, cristãos, dalits e outras minorias. Mudar os nomes dos lugares e manipular monumentos históricos para diabolizar as minorias religiosas é uma forma de violência colonial interna que deve ser combatida, não só por um cidadão de um determinado país, mas também pelos cidadãos do mundo inteiro.

O governo de Narendra Modi pode não ter tido sucesso em achatar a curva pandémica da covid-19, mas, em certa medida, conseguiu achatar a curva da diversidade numa uniformidade, na sua busca em fazer da Índia uma nação hegemonicamente hindu. Assim, seria interessante ver como seria uma Índia hindu após a conclusão de uma transformação baseada na religião. Nesse caso, a ideologia Hindutva seria o fim do hinduísmo e o culminar do nacionalismo hindu extremo.


Tradução de Raquel Azevedo para o Esquerda.net.

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Centro para o Estudo das Línguas e Sociedade Indianas e doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
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