Chegado da reunião de aderentes e simpatizantes do Bloco que decorreu ontem em Braga, decidi deixar por escrito a minha reflexão sobre o momento que vivemos no partido.
Falou-se muito ontem sobre o passado. Muito pouco sobre o futuro. É compreensível que assim seja, em período em que ainda tentamos perceber o que se passou. Mas só interessa discutir o passado se dele tiramos algo para o futuro.
Ponto prévio: os partidos políticos são ideologicamente opacos para uma enorme maioria dos eleitores. Não tenho dados que o suportem, mas tenho a convicção que todos (ou quase) teríamos dificuldades em encontrar alguém, fora das estruturas partidárias, que tenha lido o programa eleitoral de algum partido. O "eleitor comum" (personagem abstracta, mas que decide eleições) saberá distinguir entre as virtudes e defeitos do socialismo democrático em contraste com o conservadorismo cristão? Saberá dizer se um liberal é "neo" ou clássico? Eu proponho que não, e nesta assunção baseio a minha intervenção.
Voltemos a 2009. O Bloco teve cerca de 550 mil votos. Podemos discutir a proveniência destes votos, mas isto já foi feito. Penso que o que importa reter é que 550 mil eleitores declararam que pretendiam que o Bloco de Esquerda influenciasse o processo de tomada de decisão governativa em Portugal. Seja no Governo ou na Oposição, mais de meio milhão de eleitores apoiaram as ideias e acções do Bloco. Chegou até a ser aventada a hipótese de formar uma coligação PS+BE.
Penso que este ponto de viragem foi decisivo. O BE deixava de ser um movimento de causas e de ideais e passava a fazer parte de uma possível solução de governo? A liderança de Sócrates inviabilizou qualquer tentativa de aproximação, mas e depois?
Logo de seguida vieram as Autárquicas, onde o resultado foi mais fraco do que estaríamos à espera. Parece-me que havia aí uma mensagem que não passou por inteiro.
O desafio estava lançado. O que é que o Bloco queria? Ser um partido da esfera do poder, ou um movimento anti-capitalista, reformista e revolucionário?
E, avançando para o cenário actual, penso eu que quisemos ser um bocado de cada. Fomos um partido que queria poder quando apoiámos Manuel Alegre (que só poderia ser uma aposta para ganhar) ou quando promovemos a reunião pré-eleitoral com o PCP (e, já agora, que efeitos práticos teve esta reunião?). E fomos o movimento anti-sistema quando, ainda no rescaldo das Presidenciais, lançámos a moção de censura ou na recusa da reunião com a troika.
Penso eu que, mais do que qualquer um destes episódios isoladamente, foi o somatório destas decisões que afastou o tal "eleitor comum". Não estou a falar de ideologia, mas de estratégia. E esta última não foi compreendida nem pelos eleitores comuns nem por, falo por mim, uma fatia dos militantes.
Mas, mais do que falar do que já passou, interessa-me discutir como nos posicionaremos daqui para a frente. Que caminhos queremos trilhar? Queremos prosseguir a nossa intervenção com a propaganda das nossas convicções socialistas, ou queremos também os votos das senhoras que assistem às "Manhãs da Júlia"? Contamos com o apoio da nossa elite (no bom sentido da palavra) que pugnam por um Estado solidário ou vamos buscá-lo também às maiorias que, como disse ontem um camarada com graça, "nunca leram Marx, nem querem ler"?
Não se trata apenas de dobrar a espinha ou trair a nossa matriz ideológica. É também uma questão pragmática. Eu, hoje, como militante do BE, não sei situar com clareza a nossa orientação. Daqui a 4 anos é possível, dada a previsível erosão da ilusão criada pelo actual Governo e pela lembrança do desastre-PS-Sócrates, que o eleitorado nos volte a colocar a mesma questão: "está o BE preparado para assumir uma parte de uma solução governativa em Portugal?". E como é que responderemos?
Alexandre Mano - aderente 8111 - Concelhia de Braga