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As esquerdas, Nicarágua e o caso Dora María Téllez

“Alguns presidentes da região estão pedindo a liberdade de Dora María Téllez. Parece-me necessário. Mas não basta, é preciso condenar e isolar o regime Ortega-Murillo pela repressão e os crimes”. Artigo de Raúl Zibechi.
Dora María Téllez – Foto de Jorge Mejia Peralta
Dora María Téllez – Foto de Jorge Mejia Peralta

Tempos atrás, Mónica Baltodano comentava que a repressão da ditadura de Daniel Ortega e Rosario Murillo é ainda pior do que a de Anastasio Somoza, contra quem os sandinistas pegaram em armas. Confesso que a afirmação de Mónica me deixou gelado e pensava que era exagerada. Quando passamos a acompanhar o caso de Dora María Téllez, as peças do regime foram se encaixando.

No último fim de semana, seu irmão, Óscar Téllez Argüello, informou que Dora María receberia o título honoris causa da Universidade Sorbonne, em Paris, França, “em reconhecimento a uma vida dedicada à defesa da justiça social e da democracia”. Da prisão, ela enviou uma mensagem dedicando o título, recebido em seu nome pelo jornalista Carlos Fernando Chamorro, aos presos e presas políticos comprometidos com a liberdade em seu país.

“Além de sua gratidão, minha irmã expressa sua firme decisão de continuar na luta, apesar das torturas e das condições carcerárias desumanas às quais os presos políticos estão submetidos. Deseja que este reconhecimento sirva para ressaltar e conscientizar cada vez mais sobre a importância de denunciar, cada dia mais e com mais força, as atrocidades do regime Ortega-Murillo, que submeteu todo um povo a um regime de absoluto silêncio e terror”, destaca seu irmão Óscar.

Dora María está presa em El Chipote, desde junho de 2021, acusada de traição à pátria. “Não há luz nem para diferenciar a pasta de dentes da escova”, explicou Chamorro sobre a cela onde Téllez, de 67 anos, sobrevive. Ao aceitar o título em nome da prisioneira, Chamorro convocou os movimentos e governos de esquerda da América Latina a levantarem suas vozes contra o regime nicaraguense e disse: “Uma ditadura não pode ser justificada em nome da esquerda”.

Aí está o cerne do problema. Se hoje não assistimos a uma ampla campanha pela sua liberdade e denúncia do regime Ortega-Murillo, é justamente porque a esquerda e o progressismo não se interessam. Porque só olham para o poder, apostam tudo no poder, e pelo poder sacrificam a ética e a dignidade. Tem sua lógica: se o poder é tudo, o resto pouco importa, já que se subordina ao objetivo maior.

Dora María os incomoda. Por sua dignidade. Por sua obstinação. Porque não se rendeu, não se vendeu, nem claudicou. No entanto, a esquerda não se sente incomodada com o regime porque não quer olhar para o espelho, para nenhum espelho que devolva a sua obsessão pelo poder. Essa esquerda que cacareja golpe toda vez que sofre um revés político, que acusa a direita de suas próprias limitações, prefere olhar de lado quando se fala da Nicarágua e das presas e presos políticos torturados em nome de uma revolução, que só existe em sua imaginação.

As esquerdas do mundo têm uma enorme dívida teórica e política porque nunca olharam de frente para o stalinismo, como se esse regime não tivesse saído das próprias entranhas da revolução russa. Compreender como se chegou a esse regime feroz e criminoso encabeçado por Stalin, obviamente, exige olhar para o espelho, tirar conclusões sérias que não podem consistir em jogar todas as culpas no inimigo, como é comum acontecer nesse setor.

O progressismo atual não costuma aceitar críticas, pois acusa quem as formula de ser de direita. Pela mesma razão, também não é capaz de realizar autocríticas. Sem esse exercício coletivo, é impossível promover mudanças. Não conheço nenhum presidente latino-americano progressista que tenha dito no que errou, quais foram os erros ou desvios, mas sempre acusam os outros (sejam as direitas, o império ou os movimentos que os apoiaram) pelos ressonantes fracassos que colhem.

Alguns presidentes da região estão pedindo a liberdade de Dora María Téllez. Parece-me necessário. Mas não basta, é preciso condenar e isolar o regime Ortega-Murillo pela repressão e os crimes, porque mesmo que diga o contrário, tem uma profunda aliança com os Estados Unidos e com a direita nicaraguense. Não agir assim, é ser cúmplices.

Em um artigo recente, Baltodano denunciou o fechamento de todos os espaços e liberdades, que milhares de nicaraguenses perseguidos tiveram que se exilar, que quase 3.000 organizações foram fechadas, o que demonstra de forma irrefutável a vontade do regime de se manter, a ferro e fogo, no poder. Por isso, nas eleições municipais de novembro, a FSLN não teve adversários reais e se declarou vencedora nos 153 municípios do país, apesar de uma abstenção superior a 80%.

A obsessão pelo poder, aferrar-se ao controle do Estado, repressão à dissidência e falta de autocrítica vinculam essa esquerda que se diz democrática, com seu passado stalinista. Já sabemos que a direita é pior, talvez muito pior. Mas, como sempre, mais perigoso que o lobo é aquele que se disfarça em pele de cordeiro.

Artigo de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, artigo publicado por La Jornada, em 2 de dezembro de 2022. A tradução é do Cepat para publicação em IHU Unisinos.

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