Iraque

A esquerda iraquiana numa encruzilhada: Renovação, Unidade e Recuperação da Ação de Base

24 de dezembro 2025 - 10:42

Listas de esquerda e progressistas no Iraque não obtiveram quaisquer lugares no Parlamento nas eleições recentes. A crise da esquerda iraquiana não é uma crise de sinceridade ou história, mas sim uma crise de ferramentas e formas de trabalho.

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Rezgar Akrawi 

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Militantes do Partido Comunista do Iraque em campanha em Nasriya
Militantes do Partido Comunista do Iraque em campanha em Nasriya. Foto PCI

1. A Esquerda Iraquiana: Uma Crise de Ferramentas, Não Uma Crise de Valores

Este artigo surge num momento crítico pelo qual a Esquerda Iraquiana está a passar. Os resultados das recentes eleições de novembro de 2025 não podem ser interpretados apenas como uma derrota eleitoral passageira, nem como resultado direto da lei eleitoral injusta e do domínio do dinheiro político. Estes fatores externos são corretos e influentes, aos quais se somam os desafios ainda mais extenuantes da restrição sistemática e do estreitamento, e da corrupção estrutural. No entanto, focar-se apenas nas influências externas ignora a essência do problema.

O que aconteceu foi uma expressão concentrada de uma crise mais profunda que afeta as formas de organização, o método de trabalho e o discurso dentro de toda a esquerda iraquiana em geral. É uma crise que toca a relação disfuncional entre a ideia correta e as suas ferramentas erradas. É a relação entre um discurso transformador radical e a forma como é apresentado num "mercado político" altamente complexo e brutal. Apesar deste claro declínio, a esquerda iraquiana continua a ser a verdadeira esperança e a alternativa mais séria para a mudança social.

Partindo deste duplo diagnóstico, a verdadeira questão torna-se: Porque é que, apesar da má situação das massas e do poder dos grupos da tirania e corrupção, a mudança social não se tornou uma escolha popular clara e convincente? Porque é que o projeto da Esquerda permaneceu disperso, conflituoso, múltiplo em nome, semelhante em slogans e diferente nos mecanismos de trabalho, de modo que as massas não viram uma única alternativa coerente?

2. Beneficiamos da metodologia capitalista?

Para compreender este defeito, torna-se necessário olhar para a questão de um ângulo pouco convencional. A lógica do capitalismo, baseada na ciência e na medição em vez da ideologia, apresenta um modelo prático rigoroso sobre como lidar com o declínio e a fraqueza. Onde a crise da esquerda iraquiana pode ser lida como uma crise de um bom "produto" transformador, com políticas que parecem teoricamente corretas mas ainda não encontraram as formas ótimas para as traduzir na prática, e com uma gestão e marketing que precisam de desenvolvimento, num mercado político com enorme concorrência de forças religiosas, nacionalistas e burguesas. O capitalismo lida com a sociedade como um mercado, e com as ideias como mercadorias. Quando um grupo de "empresas" com um nome semelhante entra e vende um produto que é "mudança social", sem harmonia ou coordenação, a própria qualidade torna-se um problema.

Isto é o que realmente aconteceu à esquerda iraquiana nas eleições recentes. Não estava apenas organizacionalmente disperso, mas também politicamente dividido entre participação e boicote. Não surgiu uma posição unificada, nem um discurso claro, nem uma tática coletiva compreendida. As massas não viam um "produto" com características claras, mas sim uma série de produtos semelhantes a competir entre si em vez de enfrentarem os verdadeiros concorrentes. Neste caso, o próprio mercado pune o produto inconsistente. A pluralidade caótica, o discurso conflituoso e a confusão são todos fatores que fazem as massas perderem a confiança, não porque rejeitem a ideia de mudança, mas porque ela lhes chega de forma dispersa e teoricamente elitista, difícil de compreender comparada com o desenvolvimento da sociedade e as suas necessidades diárias.

3. A Esquerda e Enfrentar o Declínio e a Fraqueza

Perante o declínio e a fraqueza, surge a diferença fundamental entre a lógica do capitalismo e a lógica de muitas forças da Esquerda. O capitalismo não regressa a cada crise aos seus teóricos clássicos para verificar se os seus textos foram totalmente aplicados. Como sistema prático, trata do declínio como um sinal técnico mensurável e tratável. Muda ferramentas, discursos, fachadas e mecanismos de trabalho rapidamente, sem sentir culpa e sem santificar nomes e história. Utiliza a investigação científica: recolhe dados, analisa números, estuda comportamentos, distribui formulários, utiliza tecnologias avançadas e inteligência artificial, e testa hipóteses. Pergunta de forma simples e rigorosa: Porque é que o produto não teve sucesso? E, com base nas respostas, reconstrói as suas políticas.

Em contraste, algumas forças da Esquerda tendem, perante o declínio, a regressar aos seus teóricos clássicos em busca de respostas, e à brilhante história dos seus partidos há décadas, embora a verdadeira questão tenha de ser: Porque é que a nossa mensagem não chegou hoje? O problema não está em regressar à herança da esquerda como método crítico vivo, mas sim quando essa herança e os antigos mecanismos organizacionais se transformam num padrão rígido que se eleva acima da realidade.

4. Recuperamos o método científico que sempre foi a essência do pensamento de esquerda

A lição aqui não é glorificar o capitalismo nem adotar os seus valores, mas sim beneficiar do seu método científico. O desafio fundamental reside em como "emprestar a ferramenta" (a metodologia científica) rejeitando o "espírito" (lucro individual e domínio de classe).

A esquerda iraquiana precisa agora deste tipo de avaliação e rigor científico. Realizar inquéritos reais em bairros populares e entre as trabalhadoras femininas e masculinas manuais e intelectuais, não para conceder o seu horizonte de classes, mas para compreender como chega a sua mensagem, como é compreendida e onde se quebra. Precisa de estudar e medir o impacto das suas políticas, medir a sua presença no terreno e no espaço digital, e medir a linguagem do seu discurso. Para perguntar claramente: Porque é que não chegamos? E porque é que não influenciamos? Só depois disso podem ser tomadas decisões políticas e organizacionais corajosas com base nos resultados.

5. A Esquerda na Era da Revolução Digital

No contexto da revolução digital, esta necessidade aumenta em urgência e de forma sem precedentes. Vivemos numa época em que as ideias já não são medidas apenas pela solidez do seu ponto de partida teórico, mas pela sua capacidade de alcançar, influenciar, interagir e transformar-se numa ação coletiva tangível, critérios que as gerações jovens compreendem e com que lidam diariamente nas suas vidas digitais e sociais. A jovem geração de trabalhadoras femininas e masculinas manuais e intelectuais não recebe a política através de longos discursos nem de textos teóricos pesados, mas sim através de plataformas digitais, vídeos curtos, discussões abertas, campanhas rápidas de solidariedade e formas de organização horizontal flexível que permitam a participação direta e a tomada de decisões de baixo para cima. Ignorar estas transformações não significa neutralidade, mas deixar este espaço inteiramente aos opositores da Esquerda, que são mais organizados e capazes de investir em ferramentas digitais.

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Rezgar Akrawi

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A partir daqui, lidar com o espaço digital como uma verdadeira arena de luta de classes torna-se uma necessidade política e organizacional, e não uma questão técnica ou mediática secundária. Pois organização, mobilização, construção de confiança, formulação de discurso e medição de impacto vieram hoje para passar por este espaço tanto quanto pela rua e pelos locais de trabalho. E sem que a Esquerda possua as ferramentas de organização, mobilização e avaliação científica neste campo, não consegue transformar a raiva social generalizada numa força organizada capaz de continuidade e influência. A Esquerda contemporânea é aquilo que é capaz de ligar a justiça do seu projeto social a uma utilização consciente e sistemática das ferramentas da época, permitindo-lhe recuperar o seu papel como uma verdadeira força de mudança numa sociedade que está a mudar rapidamente.

6. Porque precisamos de um quadro de esquerda amplo e unificado?

A esquerda iraquiana desempenhou um papel histórico importante na luta pelos direitos das trabalhadoras femininas e masculinas manuais e intelectuais. Mas esta história honrosa carrega-nos hoje com uma responsabilidade maior: não nos contentarmos em celebrar o passado, mas encarar a realidade tal como ela é. Pois a esquerda iraquiana vive uma situação difícil manifestada num declínio contínuo, isolamento popular crescente e clara distância das gerações mais jovens. A idade média das atuais lideranças varia maioritariamente entre sessenta e setenta anos, com o meu reconhecimento pelo seu grande papel de luta e sacrifícios, que exigem dar espaço às energias das gerações jovens que vivem uma realidade diferente.

Perante esta realidade, já não é possível ficar satisfeito com o diagnóstico da crise. Pois se o nosso adversário de classe se reconstrói constantemente através da análise, experimentação e correção, então os nossos restantes dispersos e prisioneiros das nossas formas antigas enfraquecem as nossas hipóteses de influência. A partir daqui, falar de um quadro de esquerda amplo e unificado torna-se uma resposta prática a uma crise e a uma necessidade histórica.

7. Lições de Unidade e Trabalho de Frente: Como é que as forças globais de esquerda recuperaram a sua eficácia?

Em muitas experiências pelo mundo, as forças de esquerda provaram que sair da marginalização e do declínio não se conseguiu através da manutenção das antigas formas organizacionais, mas sim da unidade, do trabalho conjunto e da construção de quadros flexíveis capazes de absorver a pluralidade. Em Portugal, o Bloco de Esquerda apresentou um modelo líder para fundir várias correntes de esquerda num único quadro que respeita o pluralismo, o que lhe permitiu tornar-se determinante na formação de governos e possuir uma capacidade negocial que não estava disponível para os partidos individuais. No Chile, formou-se a aliança "Aprovar Dignidade" entre o Partido Comunista e organizações juvenis que lideraram amplos protestos e trouxeram Gabriel Boric como o presidente mais jovem do país em 2021, e apesar dos contratempos das eleições de 2025, a aliança manteve-se firme como um bloco de oposição organizado que impediu a fragmentação das forças da mudança. Na Dinamarca, a fusão de três pequenos partidos marxistas numa organização multiplataforma, a Aliança Vermelho-Verde, levou à transição da Esquerda da margem para uma força política que colheu 7,1% dos votos nas eleições de 2025 e emergiu como uma força municipal importante na capital. Na Colômbia, o Pacto Histórico conseguiu como uma coligação que incluiu marxistas, ambientalistas e feministas ao quebrar o monopólio tradicional do poder e levar Gustavo Petro à presidência em 2022 através de um discurso pragmático radical que toca o quotidiano das pessoas. Na Alemanha, a unificação das correntes de esquerda do Leste e do Oeste no partido Die Linke alcançou um quadro forte que representou durante anos a esquerda social e eleitoral, apesar das variações intelectuais. Quanto a Espanha, o Podemos usou organização horizontal e ferramentas digitais para mover a Esquerda das praças do protesto para o coração do Parlamento em tempo recorde, desafiando as estruturas partidárias tradicionais. No Brasil, a "Frente da Esperança" recuperou o poder em 2022 através de amplas alianças que contornaram slogans ideológicos estreitos e com o uso profissional do espaço digital para enfrentar o domínio da extrema-direita.

O que une estas experiências modernas, apesar da diferença de contexto, é a perceção de que a Esquerda já não é capaz de agir e influenciar como partidos individuais fechados, mas sim como alianças amplas, flexíveis e multiplataforma, capazes de gerir a diferença e ligar a política a exigências sociais diretas. Estas lições não são transferidas literalmente para o Iraque, mas abrem um horizonte prático para pensar na construção de um quadro de esquerda iraquiano amplo e unificado, capaz de superar a fragmentação e transformar a justiça do projeto de esquerda numa força social organizada e eficaz.

8. Fundamentos e Mecanismos do Quadro Unificado da Esquerda

Pode ser apresentado um roteiro para estabelecer um quadro unificado da esquerda iraquiana, baseado na reunião de todas as forças de esquerda e progressistas em pontos de encontro e num programa mínimo acordado, através de:

  1. Realização de uma conferência geral para todas as facções e figuras da esquerda iraquiana e curda, discutindo a construção de um quadro organizacional unificado multiplataforma, incluindo partidos, correntes, sindicatos e sindicatos, e permitindo a adesão de indivíduos de ativistas femininos e masculinos.
  2. Formular um programa mínimo unificado centrado no que é possível alcançar a curto prazo; um programa curto, claro e direto, focado nos interesses das trabalhadoras manuais e intelectuais, bem como no desenvolvimento de serviços básicos, justiça social e criação de oportunidades de emprego. O programa aborda as questões dos plenos direitos das mulheres, neutralização da religião do Estado e proteção das liberdades. Este programa é formulado numa linguagem moderna, compreendida e prática, afastada das complexidades ideológicas.
  3. Escolher um nome simples como "Aliança ou União do Pão e da Liberdade", afastando-se dos nomes tradicionais de esquerda.
  4. O quadro baseia-se numa liderança coletiva rotativa, em regras organizacionais flexíveis e em diferentes formas flexíveis de adesão. Mais importante ainda, as entidades fundadoras de esquerda devem estar preparadas para reestruturar os seus quadros e aliviar o centralismo partidário tradicional.
  5. Focando-se numa descentralização ampla de acordo com províncias e regiões, de modo a que cada unidade se torne capaz de liderar eficazmente o seu trabalho dentro de uma linha política geral unificada.
  6. A utilização ativa das ciências modernas na liderança, gestão, organização, media e digitalização, e na avaliação periódica das políticas, com a adoção do feedback das massas como mecanismo básico.
  7. Reforçar o papel dos jovens na liderança através de regras organizacionais vinculativas, como taxas de representação para jovens e mulheres em órgãos de liderança com poderes reais.
  8. Construir uma política digital eficaz que aborde o espaço digital como uma verdadeira arena de luta de classes, incluindo múltiplas plataformas mediáticas, programas de formação digital, o uso de inteligência artificial e ferramentas científicas reais de medição.

A condição decisiva é que o quadro unificado seja capaz de funcionar de acordo com os pontos de encontro e o programa acordado, contendo a diferença de forma positiva sem se transformar numa arena de conflitos.

9. Continuaremos a interpretar o mundo enquanto os nossos inimigos continuam a mudá-lo?

A questão central hoje não é sobre intenções, mas sim sobre ação: A Esquerda apresenta alternativas a partir do que é social e de classe possível, e alcançável dentro dos equilíbrios existentes, e com a lógica da mudança gradual cumulativa? Ou está satisfeito em lançar slogans sem qualquer mudança real e tangível na vida das massas resultante disso?

Em conclusão, a crise da esquerda iraquiana não é uma crise de sinceridade ou de história, mas sim uma crise de ferramentas e formas de trabalho. O desenvolvimento científico e as transformações digitais redesenharam os espaços de influência, e quem os ignora sai automaticamente da equação. Não precisamos de uma Esquerda nova nos seus valores, mas sim de uma Esquerda nova no seu discurso, na sua ação e nos seus mecanismos organizacionais; uma Esquerda que traduz o pensamento em mudanças tangíveis no terreno, sem abandonar a essência do seu projeto socialista.

A partir daqui, a ousadia necessária hoje é a coragem de desmontar estruturas rígidas e abandonar centralismos estreitos, em favor de um quadro amplo e flexível que acomode todos e reconecte a organização com a realidade viva. Diante de nós estão duas opções e nenhuma terceira. Ou seguimos o caminho da renovação e da unidade prática e recuperamos o nosso papel como uma verdadeira força de mudança, ou continuamos pelo caminho atual e corremos o risco de que o movimento da história nos ultrapasse. As experiências globais provam claramente que a unidade não só é possível, como também viável, mesmo nas condições mais adversas.


Rezgar Akrawi é um militante de esquerda independente, interessado na esquerda e na revolução tecnológica, e atua como especialista em desenvolvimento de sistemas e governança eletrónica.


Notas de rodapé:

  • A Esquerda Iraquiana é composta por um grupo de partidos e organizações, sendo as mais proeminentes as seguintes: o Partido Comunista Iraquiano, o Partido Comunista do Curdistão, o Partido Comunista dos Trabalhadores do Curdistão, a Organização Alternativa Comunista, o Partido da Esquerda Comunista, além de outras organizações.
  • Todas as listas de esquerda e progressistas no Iraque que participaram nas eleições não obtiveram qualquer lugar no Parlamento iraquiano nas eleições de novembro de 2025.