O Equador foi a votos no passado fim de semana. A campanha chegou primeiro aos noticiários de todo o mundo por causa do assassinato de um dos candidatos presidenciais, Fernando Villavicencio, e depois pelo resultado que vai levar Luisa González, a candidata de esquerda apoiada pelo ex-presidente Rafael Correa, a uma segunda volta com Daniel Noboa, empresário do setor bananeiro, filho de um dos homens mais ricos no país.
González teve 33,28%, Noboa 23,68%, e os resultados das legislativas foram ainda mais favoráveis ao movimento liderado por Rafael Correa: a Revolución Ciudadana teve 39.39% dos votos, seguida por um seu ex-aliado o Movimiento Construye, que depois apoiou o governo do seu opositor Lenín Moreno, com 20.65%, do movimento de Noboa, com 14.65% e do neoliberal Partido Social Cristiano com 11.82%.
Mas ao mesmo tempo que isto se passava, outra decisão crucial estava em jogo. Domingo foi também dia de referendo sobre a exploração de petróleo numa área do Parque Natural de Yasuni, uma zona protegida na Amazónia, reconhecida como reserva da biosfera mundial pela Unesco. E o resultado foi conclusivo: cerca de seis em cada dez equatorianos (59%) rejeitaram a exploração de petróleo no chamado Bloco 43, uma área sensível por causa das tribos isoladas que aí habitam, nomeadamente os Tagaeri e os Taromenani e da sua biodiversidade. Neste parque, numa zona de perto de um milhão de hectares, vivem 610 espécies de aves, 139 de anfíbios e 121 de répteis.
Apesar da votação em causa apenas se aplicar a um dos blocos de exploração de petróleo e desta poder continuar noutros pontos do Parque, a vitória foi considerada histórica pelos movimentos ambientalistas e indígenas. Desde 2013, altura em que Rafael Correa decidiu avançar com exploração neste bloco, que o movimento Yasunidos, começou a recolher a assinaturas para um referendo. Conseguiu-o mas teve de enfrentar dez anos de batalhas legais e burocráticas, até que o Supremo Tribunal acabou por decidir que o referendo tinha mesmo de se realizar e que o povo votaria a questão “está de acordo que o governo equatoriano mantenha o crude do ITT, conhecido como Bloco 43, indefinidamente no subsolo?” Entretanto, já desde 2016, ainda sob o governo Correa, que a exploração já tinha começado.
¡Hoy hicimos historia!
Esta consulta, nacida desde la ciudadanía, demuestra el mayor consenso nacional en Ecuador. Es la primera vez que un país decide defender la vida y dejar el petróleo bajo tierra.
¡Es una victoria histórica para Ecuador y para el planeta!#SÍalYasuní pic.twitter.com/RBvHzkozxp
— YASunidos (@Yasunidos) August 21, 2023
Derrotados saem igualmente o ainda presidente Guillermo Lasso que se empenhou na vitória do extrativismo e a empresa estatal Petroecuador que terá de parar a exploração nesta zona
Para a porta-voz do Yasunidos, Antonella Calle, em declarações citadas no El País, o sucedido foi “algo histórico”. Com o referendo, “o Equador deu o primeiro passo concreto para lutar contra as alterações climáticas e deu um exemplo mundial. Isso é muito importante porque obriga os países de todo o mundo a tomar decisões reais neste sentido. Por outro lado, demonstra que o povo equatoriano está a favor da defesa da vida, da natureza, dos direitos dos povos e dos animais”.
Una iniciativa que comenzó hace 10 años está a punto de terminar con todo el Ecuador diciendo SÍ a la vida, SÍ a la naturaleza y #SíalYasuní pic.twitter.com/Boqi4n2CyP
— YASunidos (@Yasunidos) August 19, 2023
Já a líder indígena huaorani, Nemonte Nenquimo, garantiu: “vamos partilhar este modelo de ação direta sobre as alterações climáticas com todos os povos e países porque neste momento de crise climática o mundo precisa de modelos de luta que ponham o poder nas mãos do povo”.
Os ambientalistas celebraram ainda outra vitória sobre o extrativismo nas urnas no mesmo dia. No distrito Metropolitano de Quito votou-se sobre a exploração mineira em seis paróquias rurais, numa área de 287.000 hectares que é igualmente reserva da biosfera da UNESCO. O resultado foi 68% para o não à mineração, que Inti Arcos, porta-voz do Quito sin minería considerou ser “a expressão de que queremos um mundo diferente e de que é possível que emerjam alternativas económicas que respeitem os direitos humanos e a natureza”.
Muchas gracias Quito por proteger el Chocó Andino.
Ganó la vida, el agua, los bosques, la biodiversidad y el desarrollo local.
El 20 de agosto es un día histórico para Quito, Ecuador y el mundo. #QuitoSinMinería pic.twitter.com/eXcXKhyzs5
— #QuitoSinMinería (@QuitoSinMineria) August 21, 2023