Equador: depois de assassinato de candidato presidencial, eleições mantêm-se

11 de agosto 2023 - 11:40

O estado de emergência foi declarado durante 60 dias, abrangendo o período eleitoral, depois da morte de Fernando Villavicencio. Os candidatos suspenderam a campanha e condenaram o crime. Luisa González do partido de Rafael Correa continua à frente nas sondagens.

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Polícia nas ruas de Quito depois do assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio. Foto de Jose Jacome/EPA/Lusa.
Polícia nas ruas de Quito depois do assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio. Foto de Jose Jacome/EPA/Lusa.

Fernando Villavicencio, candidato de centro-direita às próximas eleições equatorianas de 20 de agosto pelo movimento Construye, foi assassinado com três tiros de bala esta quarta-feira à noite depois de um comício de campanha em Quito. Nove outras pessoas ficaram feridas e um dos atacantes também foi morto. Pouco depois seis pessoas foram presas na sequência da investigação do caso.

O candidato tinha denunciado há uma semana que fora ameaçado por narcotraficantes, nomeadamente por Fito, um chefe do bando Los Choneros. E não foi a primeira vez que tinha sido vítima de um atentado: na madrugada de 3 de setembro do ano passado a sua casa foi baleada.

A violência tem aumentado no país. O número de homicídios por 100.000 habitantes quase duplicou no ano passado, chegando a 25,23, o que é a maior taxa da sua história. Os crimes contra políticos também são frequentes, nas passadas eleições de fevereiro dois candidatos foram assassinados.

O presidente conservador Guillermo Lasso reagiu dizendo que “o crime organizado foi longe demais” e que o assassinato não ficará por punir. Foi instaurado o estado de emergência mas a data das eleições não foi alterada com o presidente a assegurar que “as forças armadas estão neste momento mobilizadas em todo o território nacional a fim de garantir a segurança dos cidadãos, a tranquilidade do país e eleições livre e democráticas”. Assim, as eleições serão realizadas num quadro legal em que está suspenso o direito de liberdade de reunião ou a inviolabilidade do domicílio.

Villanvicencio ocupava atualmente o segundo lugar na mais recente sondagem do Instituto Cedatos com cerca de 13% de intenções de voto muito atrás da candidata do partido do ex-presidente Rafael Correa, a advogada Luisa Gonzalez, que tem 26,6 % e muito perto de outro candidato de esquerda o líder indígena Yaku Perez que conta com 12,5 %. Os vários candidatos anunciaram a suspensão da campanha e manifestaram a sua indignação face ao crime. Luisa González falou em “indignação, impotência e profunda tristeza a terrível notícia do atentado que levou à morte de Fernando Villavicencio” e também garantiu que “este ato vil não ficará impune”. Yaku Pérez mostrou-se “consternado com o trágico e condenável assassínio de Fernando Villavicencio”. E também reiterou que o crime não ficará impune, acrescentando que “é tempo de nos unirmos e recuperarmos a paz”.

Villanvicencio tinha 59 anos e era jornalista e deputado eleito pela Aliança Honestidade. Antes tinha trabalhado na Petroecuador, sido sindicalista, depois dono de uma pizzaria e assessor político. Politicamente foi um dos fundadores do movimento indigenista Pachakutik e foi dirigente da Coordenadora de Movimentos Sociais. Ficou conhecido pelos ataques ao presidente Rafael Correa durante o seu mandato e por denúncias sobre corrupção, nomeadamente no portal Periodismo de Investigación. A opacidade do financiamento deste foi colocada em causa pelos seus adversários.

Acusou Correa de ser responsável de um ataque ao Hospital da Polícia durante uma revolta das polícias em 30 de setembro de 2010 mas perdeu o caso na justiça e acabou condenado por injúrias a pena de 18 meses de prisão e a 47 mil dólares de indemnização. Para não cumprir fugiu do país para os EUA e depois manteve-se fugitivo da justiça na região amazónica até a condenação prescrever.

Foi também ele que acusou o presidente Correa de ter feito um pacto com Assange com o objetivo de trocar a permanência deste na embaixada do Equador em Londres por a não revelação de supostos documentos sobre corrupção no governo.