Ao longo dos últimos meses Daniel Oliveira dedicou-se a um debate aceso acerca da estratégia do Bloco de Esquerda, propondo uma mudança profunda em relação ao que temos sido desde o primeiro dia. Convivo com naturalidade com isso, afinal todos os debates políticos devem ser públicos e claros e não apoio essa ideia passadista de que os militantes só discutem dentro do partido e se calam “cá fora”. Mas é evidente que, havendo a expressão daquela opinião, aliás tão definitiva, elementar será que quem dela discorde também se sinta chamado ao debate. É a vida, como dizia o outro.
Assim, resumo de seguida os três pontos que me aproximam e que me separam dos textos publicados pelo Daniel no Arrastão sobre o tema.
1. O Bloco cabia na troika?
Acresce que este debate é muito útil. Algum dele, o mais conjuntural e episódico, já tem barbas: a orientação do Bloco na procura de convergências nas presidenciais contra o candidato da direita ou a moção de censura, nas vésperas da apresentação do PEC4 e da manifestação do 12 de Março, foram discutidas apaixonadamente na Convenção realizada há cerca de um mês. Escreveram-se textos sobre isso, enunciaram-se visões distintas, houve assembleias em todo o país com porta-vozes das várias posições e as moções de orientação foram a votos na Convenção.
Nesses debates, sentiu-se que a derrota da campanha de Manuel Alegre foi também uma derrota para o Bloco, e também se viu como a eleição de Cavaco Silva se tornou determinante para reorganizar a direita e a sua agenda. E a importância do PEC4 e das suas medidas de destruição económica ficou evidente pelo facto de constituir a coluna vertebral do acordo com a troika. Em todo o caso, esses são os factos passados e discutidos.
Depois disso, houve a recusa da participação na reunião com a troika, que suscitou ondas de protesto. Acho que a direcção do Bloco, na qual me incluo, se enganou e subestimou a percepção popular e a atitude social face aos ditames do FMI e da sua troika portuguesa, e isso criou isolamento. Não havia uma vontade geral de medir forças com a troika, havia a vontade de reduzir os danos. Por isso, a eleição não podia ser disputada como um referendo a favor e contra as medidas troikistas, mas exigia antes o esforço imenso de credibilizar alternativas. O Bloco não cabia na troika, mas confundiu em vez de esclarecer quando lhes bateu com a porta. Nisso estou de acordo com a crítica que leio no Daniel.
E a partir de aqui estou completamente em desacordo com o que ele sugere, porque aliás nunca fica muito claro o que é que está exactamente a propor.
2. Do alto desta pirâmide, mais de duzentos mil eleitores vos contemplam
E o meu primeiro problema é que este debate está distorcido. Ao contrário do que muitos afirmam, não está distorcido porque o Daniel exprime os seus pontos de vista na SIC e no Expresso ou porque o faça exuberantemente, ou mesmo porque tenha escolhido não apresentar os seus pontos de vista ao voto da Convenção. Isso é a sua estratégia e tem todo o direito a fazer a escolha que quiser.
O que distorce o debate é outra coisa, é a imensa pose de autoridade. Daniel apresenta-se como o porta-voz de larguíssimos milhares de pessoas. Fala por elas. Declara peremptoriamente como é que essas pessoas se comportaram e vão comportar. Conhece o seu passado, o seu presente e até o seu futuro. Sabe tudo o que pensam e o que vão pensar. Sabe como votaram, porque votaram e como vão votar dentro de quatro anos.
Escreve ele no Expresso desta semana: “O recado dos eleitores é este: quando quiserem realmente fazer a diferença nós voltamos. Já não há estados de graça nem espaço para encenações. Agora, o Bloco tem mesmo escolhas difíceis para fazer.” Ou ainda, noutra página do mesmo Expresso (são dois textos sobre o mesmo assunto na mesma edição): “Os resultados das últimas eleições foram o último aviso dos eleitores do Bloco.” O recado dos eleitores. O último aviso dos eleitores.
Daniel é assim dono de imensa gente. Fala por eles, escreve por eles, ameaça por eles, conclui por eles, vaticina por eles, vota antecipadamente por eles. É um pouco demais, não é?
O efeito desta retórica é que não pode haver nenhum debate: nem sobre a interpretação dos resultados (para quê? está tudo dito, o Daniel sabe tudo porque “o recado dos eleitores é este”) nem sobre a política que o Bloco deve adoptar (como pode haver debate? “o último aviso dos eleitores” está solenemente transmitido). Sabendo tudo, o Daniel tem sempre razão. Afinal, as centenas de milhares de pessoas estão aqui para confirmar a sua tese.
Mas eu estive na campanha e digo que esta percepção é simplista. Encontrei pessoas que votaram no Bloco e que criticavam a ausência da reunião com a troika, como encontrei quem tenha votado no PS alegando essa razão. Encontrei quem discordasse do Alegre e da moção de censura ao mesmo tempo e por razões completamente contraditórias. Encontrei quem votava no PSD e votou agora no Bloco porque é preciso defender os empregos. Encontrei quem queria o Bloco no governo para moderar o radicalismo troikista do PS. Encontrei quem tinha votado CDS e agora apoiou o Bloco por defender as pensões. E encontrei imensa gente que passou para a abstenção porque não há nada a fazer. As pessoas são assim: diferentes, perplexas, umas procurando alternativas, outras desistindo. A política é feita com esta diversidade e duvido que possa haver um arauto para tanta gente. E duvido sobretudo que reclamar razão absoluta com mandato passado em cartório por toda esta gente seja forma de discutir.
Pois é, para muitas dessas pessoas a alternativa é importante. E é aqui que a porca torce o rabo.
3. Dar o salto para contar nas soluções
“Agora, o Bloco tem mesmo escolhas difíceis para fazer” (DO, Expresso desta semana). “Ou o Bloco quer fazer a diferença e tem uma estratégia coerente para que isso aconteça ou perderá ainda mais eleitores” (idem). Espera-se dele “que faça parte da solução” (idem), que “dê o salto para contar nas soluções” (idem). Ou isso ou a morte (“ou o Bloco aprenderá da pior forma uma regra do universo: tudo o que nasce morre”, frase enigmática, pois não é sempre assim com tudo o que vive?).
E mais? Mais nada. Mistério. Qual é a “escolha difícil”? “Fazer a diferença” para quê? Dar que “salto”? Contar em que “soluções”? Quais “escolhas difíceis”? Nada, silêncio. Estranho não é? Se é tão importante, tão decisivo, não valeria a pena que discutíssemos mesmo o essencial? Como é o “salto”, para onde se “salta”, como se “escolhe”, como se faz a “diferença”, qual é a “solução”? Nem uma palavra. Parece pouca “solução” para tanto “salto”.
Ora, o problema é que é aqui que está o essencial, num projecto sem proposta, sem condições, sem estratégia, sem coerência. Escreve ainda Daniel no mesmo Expresso: “O papel do Bloco é ocupar um amplo espaço na esquerda, que não se revê na ortodoxia do PCP nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder.” Atalhando razões, deixo desde já registado o meu espanto: então o que nos distingue do PS é a sua “moleza”? É uma questão de “personalidade”, ou tique de feitio? Parece-me bem que não. A “moleza” do PS foi a dureza extrema de um governo que levou mais longe o Código de Bagão Félix, que reduziu as pensões em valores reais, que baixou salários, que nacionalizou as perdas do BPN. Quem quer mais “moleza”? Aqui está: o governo do PS que entregou todos os hospitais públicos que foram construídos à gestão do grupo Mello, dos HPP e BES. Mais “moleza”: entregou um reforço de 10 mil milhões de euros a seis PPP nas auto-estradas, metade para o Grupo Mota-Engil-BES, mas tirou o abono de família a 600 mil crianças. “Moleza”?
A ideia da “moleza” é falsa e nem chega a ser ingénua. Corresponde à ideia de que o PS seria um partido de poder mas ainda volúvel, influenciável pela razão razoável, de gente fraca mas que pode ser levada às boas com uma serenata, a quem restam bons sentimentos pelos pobres ou pelos trabalhadores com dificuldades. Eu não vejo nada disso. Vi um governo dominado pela finança, cínico nas questões sociais, agressivo contra os direitos laborais, obcecado com cortes no Estado social, facilitista nos mais estranhos negócios que vão vigorar durante 40 anos.
E é por isso que porca torce o rabo. Um “Bloco disponível para soluções de poder” significaria que se deveria comprometer a entrar num governo – qualquer governo? – com o PS, que é este PS, com esta cultura e com esta “moleza”. É o acto de garantir a entrada no governo que faz o “salto”, a nova cultura das “soluções de poder”. Na verdade, importa menos para fazer o quê, e mais a disposição, a declaração definitiva, o “salto”: agora vamos para o governo.
Apliquemos este “salto” na política concreta. José Sócrates estava em minoria. O Bloco devia ter proposto “fazer parte da solução”? Se o Daniel nos explicar como é que este salto funcionaria, então enunciaria as condições para esse acordo. A condição seria trocar os 2 mil milhões do BPN pela não redução das pensões? Ou trocar o apoio a acções da NATO pelo aumento do IVA? Tentar conseguir o quê mas cedendo o quê? Como a política não é uma fantasia mas sim a decisão concreta sobre condições concretas, o que é que seria esta “solução”?
Percebo a tentação de ignorar as condições concretas e os governos concretos. É que, como a política se faz de relações de forças, parece razoável duvidar da boa disposição do PS para aceitar políticas de esquerda, dada a sua “moleza”. E por isso nada deste “salto” se pode concretizar, a não ser com o preço mais radical de todos: ir a eleições sem qualquer programa, a não ser “ir para o governo”, porque nenhum programa de medidas coerentes de esquerda pode ser cumprido quando se subjuga a uma aliança com o seu contrário. Uma espécie de CDS à esquerda.
Vou escrevê-lo com todas as palavras: entrar num governo com o PS da troika significa aceitar as medidas socialmente mais destrutivas, e a esquerda estaria então num governo de direita. Para haver um governo de esquerda, é preciso vencer a política do PS e ter relação de forças para isso. Só haverá um governo de esquerda quando o povo de esquerda não se reconhecer maioritariamente nas políticas da recessão, que o PS inventou. Custa? É difícil, pode muita gente pensar que é impossível? Talvez.
Mas o que é verdadeiramente impossível é fazer esquerda com medidas contra a população e de afirmação da economia da bancarrota.
Já agora, e para concluir, a experiência é conclusiva. A esquerda italiana aceitou a estratégia do “salto”. Foi para o governo, o seu líder, Bertinotti, era mesmo o presidente do Parlamento, e aceitou uma reforma perversa da segurança social, além da privatização da gestão da água (que agora foi revogada por referendo). Nas eleições seguintes, a esquerda não elegeu nem um deputado.
Ou, se Daniel Oliveira preferir um caso de aparente “sucesso”, temos os Verdes Alemães, que disputam nas sondagens o 2º lugar ao SPD, com cerca de 25% dos votos. Nascidos dos escombros da extrema-esquerda alemã, ergueram uma agenda pacifista e ecologista que entretanto foi escondendo, desde finais da década de 90, um deslizar abrupto para uma postura de radicalismo liberal nas opções económicas (o capitalismo verde) e para a defesa da guerra, como aconteceu com o Afeganistão. Hoje em alguns governos estaduais partilham, é certo, o poder ora com o SPD, ora com a CDU. Será esse o sucesso que o Daniel pretende?
Este é o meu vaticínio para o resultado da política do “salto”. Se o Bloco entrasse num governo para governar contra o trabalho, os direitos sociais, o SNS, então o “ultimo aviso” seria perder toda a sua influência ou transformar-se numa outra coisa. As políticas vazias conduzem a resultados vazios. Para ser alternativa, a esquerda precisa de fazer a alternativa. Para ser esquerda, precisa de ser de esquerda. E, bem sei, de conquistar a maioria para governar à esquerda.
Mas, é claro, eu escrevo tudo isto mas não tenho o peso de falar em nome dessa multidão de eleitores que quer um governo a “salto”.