Enfermeiros alertam para consequências de exaustão e fazem novas greves na próxima semana

15 de agosto 2014 - 13:02

Ordem dos enfermeiros alerta para o estado de exaustão em que se encontram estes profissionais de saúde e afirma que os serviços de saúde “estão em clara rutura”. Para a próxima semana estão convocadas greves em todo o Algarve a 22 de agosto e no hospital de Santarém entre 18 e 22.

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Concentração de enfermeiros em defesa do SNS em frente ao I.P.O. do Porto, 5 de agosto de 2014 Foto de João Manuel Ribeiro/Lusa

Nesta sexta-feira, 15 de agosto, a Ordem dos Enfermeiros alerta em comunicado para o estado de exaustão destes profissionais de saúde e responsabiliza “os decisores políticos pelas consequências que podem advir para a qualidade e segurança dos cuidados de enfermagem se continuarem a ser ignorados os sinais de exaustão dos profissionais, ou se forem encarados sem a atenção que merecem, como tem acontecido até agora”.

Segundo a agência Lusa, a ordem afirma que os serviços de saúde portugueses “estão em clara rutura” pela falta de preocupação dos decisores políticos relativamente aos níveis de exaustão e insatisfação dos profissionais.

A ordem lembra um estudo publicado recentemente pela Universidade Católica que aponta que em Portugal existe um nível de exaustão significativo nos enfermeiros, assim como uma enorme insatisfação com o nível salarial e a progressão na carreira.

Outros estudos relacionam os níveis de exaustão com resultados adversos para os doentes. A exaustão é provocada por turnos longos (por falta de pessoal de enfermagem nos serviços de saúde), pelo elevado número de doentes por profissional e pelos turnos.

O comunicado refere que algumas das consequências da exaustão “não são visíveis a olho nu”, porque o sistema de classificação dos hospitais portugueses não diferencia serviços a trabalhar adequadamente de serviços com prestação insegura de cuidados.

A ordem apela ainda ao ministro da Saúde, Paulo Macedo, “para que reconheça a influência destes fatores na segurança e qualidade dos cuidados a que os cidadãos têm constitucionalmente direito, não os banalizando e confundindo com fatores económicos”.

Greve na saúde a 22 de agosto no Algarve

Para a próxima sexta-feira está convocada uma greve nos serviços de saúde, incluindo centros de saúde e hospitais, no distrito de Faro. A greve será feita por enfermeiros, mas pode ter adesão de técnicos superiores de saúde e médicos e é apoiada por deputados algarvios e autarcas, inclusive alguns do PSD.

Segundo o jornal “Público”, a greve visa contestar a falta de recursos de saúde no Algarve, que chegou a uma situação “precedentes”.

Rosa Franco, do sindicato dos trabalhadores em funções públicas e sociais do sul, exemplificou em declarações ao jornal: “Neste momento já não servem água engarrafada aos doentes do hospital de Portimão. E um dia destes a água da torneira estava castanha. Passámos a dizer aos familiares dos doentes internados para trazerem fraldas e água”.

Rosa Franco exemplificou também a falta de recursos humanos: “No centro hospitalar do Algarve há auxiliares de saúde a fazer turnos de 16 horas e enfermeiros a fazer turnos de 12 ou de quatro, consoante as necessidades. No concelho de Monchique fecharam duas extensões de saúde já este ano, por se terem aposentado duas funcionárias administrativas”.

No dia 22, os sindicatos promoverão uma concentração e uma tribuna junto à administração regional de saúde do Algarve. “Dez dos 16 autarcas que dirigem as câmaras da região já confirmaram a sua presença nesta tribuna pública de dia 22”, disse Rosa Franco ao “Público”.

Greve dos enfermeiros no hospital de Santarém de 18 a 22 de agosto

O sindicato dos enfermeiros portugueses, SEP, anunciou entretanto que os enfermeiros do hospital de Santarém, farão uma greve de quatro dias, das 8 horas de 19 de agosto, até às 24 horas de 22 de agosto.

Guadalupe Simões, do SEP, disse à agência Lusa, nesta quinta-feira, que o que está em causa é a "falta de 170 enfermeiros" naquele hospital, "quando deveria ter um quadro com 570 profissionais", e a consequente "rutura nos serviços prestados ao nível dos serviços de urgência e internamento, a rutura iminente nos cuidados intensivos e o caos que se verifica no serviço de medicina".

Guadalupe Simões aponta também como motivos para a greve o "incumprimento dos horários legais de trabalho, a exigência de uma rápida admissão de mais profissionais naquela unidade de saúde e o pagamento do trabalho extraordinário" e sublinha: "Os enfermeiros que foram saindo nunca foram substituídos e os que ficam têm de fazer o trabalho pelos que não estão".

A dirigente sindical salienta também que "a escassez, e a redução do número de elementos por turno" é uma situação que "dá origem a uma carga excessiva de trabalho.

O sindicato exige a "rápida admissão de mais enfermeiros, horários legais, o pagamento do trabalho extraordinário e, ainda, que aos enfermeiros a contrato individual de trabalho (CIT) seja aplicada a remuneração e direitos dos enfermeiros em contrato de trabalho da função pública".

Manifesto de 60 cidadãs e cidadãos de Santarém a favor da greve

60 pessoas assinaram um manifesto de apoio à luta dos enfermeiros. Entre as pessoas que subscrevem o manifesto estão dirigentes de clubes desportivos e coletividades da cidade, ativistas da cultura, do teatro, da fotografia, dirigentes sindicais, de comissões de trabalhadores, associações de pais, movimentos de cidadania e articulistas da imprensa.

No manifesto exige-se: “a admissão de mais enfermeiros e o estabelecimento de condições de trabalho que lhes permita o uso dos tempos de descanso para que a prestação dos cuidados de saúde que nós precisamos seja feita em segurança”. Mais informação em santarem.bloco.org