Em 25 anos criminalidade baixou mas capas de jornal com crimes aumentaram 130%

14 de julho 2025 - 13:33

Um estudo mostrou que há um desalinhamento acentuado entre o número efetivo de crimes registados e a sua prevalência nas capas de jornais responsabilizando os partidos que instrumentalizam a criminalidade por manter o dobro do tempo o tema na atualidade, aumentando a perceção de insegurança.

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Polícia. Foto de Paulete Matos.
Polícia. Foto de Paulete Matos.

Um estudo mostrou uma duplicação da menção a crimes nas capas de jornais ao longo de 25 anos em contraste com a diminuição de crimes registados pelas autoridades nesse período. Assim, entre 2000 e 2004, o número de crimes registados pelas autoridades diminuiu 1,3%, ao mesmo tempo que as chamadas de capa para assuntos de criminalidade aumentaram 130%.

O Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, responsável por esta contabilização, conclui haver “um preocupante desalinhamento entre a realidade objetiva da criminalidade em Portugal e a perceção subjetiva da insegurança, por parte dos cidadãos”, criando um “paradoxo que mina a confiança nas instituições e compromete a formulação, desenvolvimento e eficácia, das políticas públicas”.

A análise centrou-se em jornais como o Diário de Notícias, Correio da Manhã, Público, Expresso e Sol e, para além do aumento das chamadas de capa, descobriu-se que os casos criminais se mantiveram por mais tempo nas notícias. Antes, um crime mantinha-se cerca de 2,6 nas notícias, agora são 4,6.

O estudo é claro na ideia que esta persistência é da responsabilidade dos “partidos que usam os crimes como instrumento político” e que fazem com que os jornais tenham de voltar a dar a notícia o que aumenta a perceção de insegurança.

Defende-se que “a prestação de informação” deve ser feita “em termos claros e objetivos” e que “sem entrar em justicialismos ou securitarismos populares, evitam-se especulações e notícias parciais potenciadoras de perceções de insegurança”.

De acordo com esta análise, assinada pelo general João Vieira Borges, há quatro fatores que aumentam a perceção de insegurança: o contacto direto ou indireto com crimes, a forma como estes são noticiados, a resposta das forças de segurança e a resposta do sistema judicial. Identificam-se igualmente fenómenos de “incivilidade”, definidos como que “atos opostos às tradições, costumes e usos”, influenciam igualmente de forma negativa este sentimento de segurança.

Assim, conclui-se, a “amplificação mediática dos fenómenos criminais, e de incivilidades, a ausência de mecanismos sistemáticos de aferição da vitimização real, a inconsistência na produção de informação oficial e a desarticulação entre os diversos atores do sistema de segurança e justiça, convergem para alimentar um sentimento de insegurança que não corresponde à evolução factual da criminalidade”.

E não se esquece ainda que “desde 2000, a comunicação audiovisual deu um crescente destaque à questão da segurança”, havendo mesmo “programas específicos e até mesmo em rubricas específicas de programas populares, como os programas da manhã ou da tarde”.