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Eletrocussão de cães indigna Cabo Verde

Na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, os cães errantes estão a ser abatidos por eletrocussão na lixeira municipal. As associações que defendem o bem-estar animal criticam não só a violência do método mas a própria medida. E salientam que há outras políticas de controlo da população canina.
Cão resgatado por uma associação de defesa dos animais no Mindelo, Cabo Verde. Foto de Si Ma Bô Cabo Verde/Flickr

António Lopes da Silva é o vereador da Cultura, Ambiente e Saneamento da Câmara Municipal da Praia no centro da polémica. Assume que os animais abandonados encontrados na cidade acabam por ser abatidos.

À Lusa, o vereador justifica que “há bairros onde as campanhas de castração não chegam e o número de cães é tão elevado que, perante as queixas de moradores, a câmara tem de determinar a sua captura”. Assegura, contudo, a legalidade dos procedimentos e considera que a situação até evoluiu: antes o método de abate dos cães era o envenenamento por estricnina, agora passaram à eletrocussão.

Lopes da Silva até reconhece: “temos a consciência plena de que não é a abater os cães que se resolve o problema” mas a possibilidade de resgate não é facilitada. A única alternativa que se dá à eletrocussão, o resgate que deve ser feito até 48 horas da captura, custa 28 euros por cão.

O vereador procura ainda desmentir as denúncias que têm surgido nas redes sociais em que jovens desempregados revelam que recebem 2,7 euros por animal capturado. Lopes da Silva contraria esta versão e diz que apenas trabalhadores da Câmara com a devida formação transportam os animais.

“Uma autêntica chacina dos cães errantes”

As associações de defesa do bem-estar animal não concordam com esta situação. O Movimento Comunidade Responsável tem em curso uma petição pelo fim do abate dos cães na qual assinala que “a eletrocussão é internacionalmente proibida por convenções internacionais, dos quais Cabo Verde faz parte” uma vez que causa “um extremo sofrimento aos animais.”

Maria Zsuzsanna Fortes, uma das fundadoras desta organização, avalia com sendo de “uma crueldade fora do comum” o que se passa, afirmando que “os animais pagam o preço da negligência humana”. E conta como os cães são colocados na lixeira municipal, num espaço sem água nem comida, em cima das fezes e às vezes ao pé de cadáveres.

Este movimento queixa-se de ter apresentado alternativas, da autarquia ter concordado e depois ter desrespeitado o protocolo assinado entre as duas partes em março de 2018 no qual se estabelecia “um método eficaz para a gestão ética da população canina, sem matar os animais ou causar-lhes qualquer sofrimento, providenciando cuidados e educando a população para a posse responsável do cão”.

Para além do abaixo-assinado, o Movimento Civil Comunidade Responsável escreveu ao Presidente da República, apelando ao fim da “intolerável situação de maus tratos dos animais”. Nessa carta considerou que “a Câmara Municipal da Praia tem levado a cabo uma autêntica chacina dos cães errantes na cidade, ignorando todos os esforços das organizações da sociedade civil e cidadãos para a criação de uma aliança que vise o controlo sustentável e humanizado da população canina”.

Também a bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários de Cabo Verde, Sandy Freire, se opõe a este método, sublinha a necessidade de mais operações esterilização e castração mas reconhece a falta de profissionais. Para Freire, “a captura e a eletrocussão dos cães em Cabo Verde são apenas a ponta do iceberg de um problema muito mais complexo”.

O caso ultrapassou as fronteiras do arquipélago. A Sociedade Humana Internacional, um grupo que junta organizações de defesa do bem-estar de vários pontos do globo, escreveu em novembro passado à Câmara para pressionar. Dizem que “a morte é completamente ineficiente no controlo da população de cães a longo prazo, assim como na redução das zoonoses” (doenças transmitidas aos humanos através dos animais).

Segundo a Lusa, para além das associações, também moradores indignados têm defendido os cães e até conseguiram libertar alguns quando já estavam dentro das viaturas que os iriam levar para abate.

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