Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff são economistas com obra publicada e acessível ao grande público. Em 2009, lançaram o livro "Oito Séculos de Delírios Financeiros: Desta Vez é Diferente", sobre as crises financeiras e a história das dívidas e dos seus perdões ao longo dos tempos. Mas é um artigo publicado um ano depois, chamado "Crescimento em tempo de dívida", que está agora no centro da polémica.
Nesse artigo os autores argumentam que há uma relação direta entre um nível elevado de dívida pública de um país e o crescimento da sua economia. Este estudo foi repetidamente citado a favor de políticas de austeridade que reduzam a capacidade de endividamento dos Estados mesmo em altura de recessão económica. Nele, os autores estabelecem a fasquia de 90% do PIB, a partir da qual a dívida dos Estados iria comprometer o crescimento económico. Essa "lição" foi citada mais de 500 vezes em estudos académicos e reproduzida pelo comissário europeu para os Assuntos Económicos Olli Rehn, mas também pelo seu homólogo norte-americano Timothy Geithner e o antigo candidato republicano à vice-presidência, Paul Ryan, entre muitos outros.
Esta segunda-feira, três economistas da Universidade de Massachussets publicaram um estudo que demonstra os "erros de código, exclusão seletiva de dados disponíveis e ponderação pouco convencional de estatísticas" do artigo de Reinhart e Rogoff. Aparentemente, os erros na fórmula introduzida na folha de cálculo e o afastamento de dados incómodos para a sua tese distorcem os resultados e a validade das suas conclusões.
Reinhart e Rogoff selecionaram 20 países desenvolvidos no período do pós-guerra e concluiram que o crescimento médio da economia em países com um rácio da dívida superior a 90% do PIB era na verdade um recuo de 0,1%. Se os dois economistas tivessem inserido os dados corretos, esse crescimento seria de 2,2%, não muito atrás dos 2,8% dos países com racio da dívida de 30%, o que deita por terra a sua tese de que o crescimento da dívida pública trava o crescimento.
Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin tiveram acesso à folha de cálculo usada por Reinhart e Rogoff, cedida pelos próprios autores. E foi lá que descobriram os erros e as distorções do artigo erigido como prova académica das politicas da austeridade inevitável. Em particular, destacam a falta dos dados relativos à Nova Zelândia entre 1946 e 1949, quando a dívida pública do país ultrapassava os 90% do PIB e o crescimento superou os 10%. O método de ponderação usado por Reinhart e Rogoff amplia o efeito da ausência destes dados e de outros: em vez dos 96 dados anuais relativos a países que o artigo colocava no escalão superior da dívida - acima dos 90% do PIB - os três investigadores descobriram que seriam ao todo 110 se não faltassem os dados da Nova Zelândia, Canadá e Austrália. Outro erro de código acaba por excluir por completo da análise os dados relativos à Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá e Dinamarca.
"Como aqui mostramos, há uma gama variada de ritmos de crescimento do PIB em todos os escalões de dívida pública nas 20 economias avançadas" do estudo de Reinhart e Rogoff, dizem os investigadores, criticando que as conclusões erradas daquele estudo "tenham servido de baluarte intelectual a favor de políticas de austeridade". "O facto das suas conclusões estarem erradas devia levar-nos a repensar a agenda da austeridade tanto na Europa como nos Estados Unidos, concluem Herndon, Ash e Pollin.
Paul Krugman: "Culpem também os comentadores"
Em resposta a esta denúncia, os autores admitem os erros de cálculo mas voltam a defender a sua conclusão de que os países com dívida acima dos 90% tiveram crescimento mais lento. O Nobel da Economia Paul Krugman também interveio no debate, a partir do seu blogue, para defender que os dois autores não devem ser os únicos a arcar com as culpas e que os seus seguidores "não têm direito a reclamar inocência" por não saberem que os dados estavam errados. "A verdade é que o estudo foi polémico desde o início" e foram-lhe apontadas insuficiências na análise dos dados mal foi conhecido.
Krugman cita um artigo no Washington Post sobre o défice norte-americano, que indicava a fasquia dos 90% de dívida como sendo "vista pelos economistas como uma ameaça ao crescimento sustentado". "Não 'alguns economistas', quanto mais 'alguns economistas que têm sido duramente criticados por outros economistas com credenciais semelhantes', apenas 'economistas'", critica Krugman, apontando o dedo à irresponsabilidade da imprensa em todo este debate. "Por este erro não podemos culpar Reinhart e Rogoff", conclui Krugman no seu texto desta quarta-feira intitulado "Culpem também os comentadores".