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É impossível ficar indiferente à força de Cuixart e à perseverança do povo catalão

Estive na sexta-feira com o independentista catalão Jordi Cuixart na prisão de Lledoners. Sair de uma prisão com energias renovadas para continuar uma luta pode parecer contraditório, mas não é. Por Isabel Pires.

Tentar descrever uma visita a uma prisão será sempre difícil, imagino eu. Sei que descrever da forma mais racional possível a visita a Jordi Cuixart me vai ser muito difícil. Foi, sem dúvida, uma tarde peculiar.

Primeiro, a espera para sermos acompanhadas. Depois, um caminho labiríntico e que parecia não ter fim para chegar ao local da visita. Não pude deixar de reparar que, a partir do momento em passávamos uma das portas, se perdia qualquer contacto com o exterior. Qualquer vidro ou janela é fosco e a arquitetura do edifício está feita para que apenas se veja o céu; nem uma montanha, nem uma árvore, nem um pormenor do local que nos rodeava.


Prisão de Lledoners.

Chegadas ao local da visita, mais um compasso de espera. Encontrámos apenas os advogados de Cuixart; ele está a reunir com os outros presos políticos, dizem-nos. Nota-se algum nervosismo no ar, aquela reunião não estava nos planos do dia.

Passados cerca de 10 minutos, entra Jordi Cuixart, com uma energia e um sorriso absolutamente desconcertante e deslocado do sítio onde estamos, uma prisão. Da prisão onde está há mais de 400 dias.

Depois de um apertado abraço, como se nos conhecêssemos há anos, sentamo-nos e mal tenho tempo de falar. Jordi diz-me que têm uma hora por dia para leituras, e antes da minha visita tinha lido o máximo possível do que o Bloco de Esquerda tinha feito sobre a Catalunha no parlamento português, as posições tomadas, as minhas intervenções.

Agradeceu tudo o que temos feito genuinamente e focou-se na mensagem que tenta passar nestas visitas. Não é tempo de continuar a achar que o estado espanhol os vai libertar. Os julgamentos estão a começar não tarda e é fundamental expor ao máximo como este é um processo político e não judicial. Ou seja, é preciso expor ao máximo a verdadeira cara do estado espanhol, repressivo e autoritário, que ainda tem entranhado em si as estruturas de pensamento, e não só, do franquismo.

Há que falar em autodeterminação, claro, mas o foco deve ser a democracia (ou falta dela, neste caso), o ataque ao estado de direito, o ataque a liberdades que, para nós, estão asseguradas: liberdade de expressão, de associação, de reunião, de desobediência civil. Liberdade de poder decidir sobre o seu futuro. Ninguém se esquece do dia 1 de outubro, em que, face a multidões pacíficas que organizaram um referendo, o estado espanhol ordenou violência.

Remata com um apelo: irão convidar o máximo de pessoas e instituições para serem observadoras do julgamento. Tal como com o referendo, querem abrir o processo ao mundo e precisam dessa presença internacional para ajudar a defender a democracia e a liberdade. Sabem que não precisam de o fazer sozinhos, e sabem que a solidariedade internacional é fundamental nesses momentos.

Cuixart mantém-se tão firme no compromisso com o procès como quando este começou, quase como se não sentisse os mais de 400 dias na prisão sem julgamento. Percebe-se claramente o compromisso político e pessoal a esta causa, rematando que não aceitarão indultos ou acordos, porque não se negoceia a democracia e a liberdade. A consciência de ser um preso político é forte, e é algo que tem uma influência profunda em quem está cá fora a lutar pelo mesmo.

Com tudo isto são 18h e o nosso tempo acabou. Cuixart tem que voltar à sua reunião; os advogados vão continuar à espera e nós temos que sair. Trocam algumas palavras em catalão, que já compreendo por força do hábito e das horas sem conta a ler notícias em catalão.

Ao dia de hoje já não é segredo, mas o que não estava nos planos do dia (e encurtou a nossa visita) era o debate que estavam a ter sobre a decisão de Jordi Sanchèz e Jordi Turull iniciarem uma greve de fome para desmascarar o julgamento injusto que terão e a imparcialidade da justiça espanhola.

Foi daqueles momentos em que percebemos que fomos dar de caras com a tomada de uma decisão importante para um processo de luta intenso, que terá desenvolvimentos proximamente.

Rápidas palavras de despedida, agradece novamente efusivamente tudo o que fazemos pelo povo catalão, mais um abraço. Às tantas fico desconcertada porque percebo, na primeira pessoa, o impacto que o trabalho político que temos feito sobre a Catalunha tem. Não apenas nos presos políticos, em muita gente que vou encontrando ao longo destes curtos dias.

Sair de uma prisão com energias renovadas para continuar uma luta pode parecer contraditório, mas não é. É impossível ficar indiferente à força tremenda de Cuixart e à perseverança de um povo como o catalão. O compromisso com a defesa da liberdade sai reforçado, a tarefa de fazer passar bem alta a mensagem de que sim, são presos políticos no estado espanhol, tem mais urgência.

Na prisão, uma porta só se abre quando a anterior está fechada. Que consigamos abrir essas portas de vez e deixar entrar e sair liberdade.

Da parte do Bloco de Esquerda, continuarão a ter esse esse firme compromisso, da minha parte, continuarão a tê-lo de alma e coração. Na política há sempre momentos definidores, este foi sem dúvida um deles.

Termino com uma frase de Cuixart, tão atual e cada vez mais esquecida: “Mai no podran empresonar les idees”.

 

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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