Nicarágua

“Doña Violeta”: da Presidência à morte no exílio

24 de junho 2025 - 21:39

A presidência de Violeta Chamorro marcou um regime transitório a vários níveis políticos e sociais. Em primeiro lugar significou o fim da Revolução Sandinista e um retrocesso social fundamental para grandes partes da população pobre.

porMatthias Schindler

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Violeta Chamorro
Violeta Chamorro

A 14 de junho de 2025 morreu a ex-presidente da Nicarágua Violeta Barrios de Chamorro – conhecida por todas e todos como “Doña Violeta” – no seu exílio na Costa Rica. O regime ditatorial do casal Ortega-Murillo recusou a realização de um funeral de Estado, não permitiu sequer um enterro no seu país natal e proibiu mesmo a Igreja Católica de organizar uma cerimónia fúnebre em sua honra.

Além de ter sido a figura política central da Nicarágua durante a sua presidência (1990 – 1996), juntava na sua pessoa uma grande parte do drama político-social que Nicarágua viveu durante a última centena de anos.

Era a viúva de Pedro Joaquín Chamorro que fora o chefe do jornal conservador-democrático La Prensa. Pedro Joaquín lutou intransigentemente contra o regime tirânico de Somoza e pela liberdade no seu país. O seu assassinato por agentes do ditador em janeiro de 1978 significou o começo de protestos populares cada vez mais fortes que culminaram no derrube da ditadura em julho de 1979.

Doña Violeta era uma patriota e conservadora que sonhava com uma Nicarágua livre, pacífica e socialmente justa. Procurou resolver os conflitos de interesses sociais através da comunicação com todas as partes.

No entanto, em duas situações cruciais, tomou claramente o lado de uma das partes em conflito. Quando a ditadura de Somoza foi derrubada por uma insurreição popular generalizada em 1979, estava disposta a juntar-se à junta do governo provisório e, por conseguinte, a tomar claramente partido pela revolução. Por outro lado, em 1990, apresentou-se como candidata presidencial de uma ampla coligação de 14 partidos das mais diversas orientações políticas, que perseguiam um único objetivo comum, nomeadamente o derrube da FSLN e o fim da Revolução Sandinista.

Três filhos da Doña Violeta estiveram envolvidos nos desenvolvimentos e conflitos políticos na Nicarágua durante a Revolução Sandinista: Carlos Fernando foi o chefe do jornal oficial da FSLN. Pedro Joaquín participou no mesmo momento no diretório da contrarrevolução armada. E Cristiana era a chefe do jornal conservador La Prensa que estava em oposição cívica à revolução. Atualmente os três vivem no exílio na Costa Rica porque foram expatriados e expropriados pelo atual regime Ortega-Murillo na Nicarágua por causa da sua crítica ao casal ditatorial.

A presidência de Doña Violeta (1990 – 1996) marcou um regime transitório a vários níveis políticos e sociais. Em primeiro lugar significou o fim da Revolução Sandinista e um retrocesso social fundamental para grandes partes da população pobre. Segundo, conseguiu pacificar a Nicarágua depois de dez anos de uma guerra de intervenção dos Estados Unidos contra a revolução. Terceiro, a presidência de Doña Violeta foi a expressão de uma diminuição considerável do poder político dominante da FSLN. Finalmente também significou a institucionalização de um regime neoliberal na Nicarágua.

Neste contexto é importante reconhecer algumas circunstâncias históricas que no atual ambiente político geralmente reacionário não são mencionadas:

Publicam-se muitos comentários que destacam os avanços democráticos durante a presidência da Doña Violeta. Mas isto é uma interpretação exagerada e motivada por uma posição política anti-sandinista para a qual uma mudança social pró-capitalista significa um progresso democrático do país. As eleições de 1996 não foram decididas nas urnas, mas numa contagem dos votos completamente não transparente que na realidade foi – nos bastidores – uma luta pelo poder entre a corrupta Aliança Liberal e a Frente Sandinista (FSLN) que já se tinha separado do seu legado democrático e social-revolucionário e que já estava dominada por Daniel Ortega. A outros níveis democráticos – a participação política, as atividades sindicais entre outros – também aconteceram retrocessos importantes.

Além da implementação da paz e da subordinação do Exército sob o governo civil, Violeta Barrios de Chamorro considerou como êxitos mais importantes da sua presidência a reabertura dos bancos privados e a privatização das empresas estatais.

Nos comentários atuais nunca está mencionado que grande parte da sua política de governação somente se podia ter realizado devido à colaboração da FSLN. Também é importante reconhecer que ela chegou à presidência em 1990 através de eleições organizadas pelo governo sandinista que anteriormente estava no poder, que estas eleições foram as eleições mais democráticas de toda a história de Nicarágua e que os sandinistas entregaram o poder pacificamente depois de terem sido derrotados nas urnas.

Violeta Barrios de Chamorro ganhou essas eleições porque o povo nicaraguense estava exausto depois de dez anos de guerra e porque esperavam a paz e a recuperação da situação económica da população. Esta esperança foi dramaticamente frustrada pela ganância pelo poder e pela riqueza do clã Ortega-Murillo e dos seus aliados oligárquicos liberais que terminou na ditadura feroz que atualmente está no poder na Nicarágua.

Matthias Schindler
Sobre o/a autor(a)

Matthias Schindler

Ativista da solidariedade internacional. Politólogo.