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Documento de treino militar dos EUA classifica socialismo como “terrorismo político”

A Marinha norte-americana está a treinar a sua polícia colocando socialismo, anarquismo e neo-nazismo como se fossem ameaças terroristas do mesmo tipo, revelam documentos a que o The Intercept teve acesso.
Oficial da Marinha dos EUA. Foto de Ken Walton/Flickr.
Oficial da Marinha dos EUA. Foto de Ken Walton/Flickr.

Um documento de formação da Marinha norte-americana, revelado esta terça-feira pelo site de investigação jornalística The Intercept, coloca socialismo e anarquismo ao lado do neo-nazismo enquanto exemplos de “terrorismo político”.

O documento “Introdução ao Terrorismo/Operações Terroristas” integra um manual de treino para a polícia da marinha dos EUA e é da responsabilidade de várias entidades: o Naval Education Training, o Command’s Navy Tactical Training Center e o Center for Security Forces. Nele consta a pergunta: “anarquistas, socialistas e neo-nazis representam que categoria ideológica de terrorismo?” A resposta esperada é “terroristas políticos”.

Contactado pelo Intercept, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos não deu qualquer resposta sobre o tema. A fonte militar a que a investigação jornalística recorreu critica “quem quer que seja que está a dirigir o currículo anti-terrorismo da Marinha” por estar mais interessado em “difamar a esquerda do que proteger alguma coisa”. E salienta que “a mais proeminente ameaça é o terrorismo doméstico de extrema-direita”.

A afirmação não é novidade ou sequer muito ousada. Tanto o FBI quando o Departamento de Segurança Interna dos EUA são claros ao identificar o supremacismo branco como a ameaça mais perigosa e letal no país. Como recorda aquele órgão de comunicação social, em setembro, Christopher Wray, diretor do FBI, testemunhava no Senado que o supremacismo branco “tem sido responsável pela maioria dos ataques letais na última década” e que a este movimento é dedicada “a maior fatia do nosso dossier sobre terrorismo doméstico”. Um mês depois, o relatório anual do Departamento de Segurança Interna dizia igualmente que este movimento era “excecionalmente letal” e que “vai continuar a ser a mais persistente e letal ameaça interna.”

Mas o jornalista Ken Klippenstein do Intercept sublinha que a gestão do “extremismo interno” por parte do Departamento de Justiça “pode ser frequentemente arbitrária e desproporcionada relativamente à ameaça que constituem os seu alvos”. Dá-se o exemplo dos grupo de ativistas negros visados pelo FBI ao longo de muitos anos e dos anarquistas e “ambientalistas extremistas” apresentados em documentos internos deste organismo em 2019 como prioridades na ação de contra-terrorismo.

Uma investigação anterior do mesmo autor mostrava como o FBI inventou recentemente uma categoria a que chamou “extremismo identitário negro” e como pretendia desenvolver um programa com o nome de código “Iron Fist” que contaria com informadores e agentes infiltrados nos movimentos ativistas negros. Estas tentativas de infiltração estariam já a ser desenvolvidas, mas o relatório descrevia as dificuldades com que se deparavam.

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