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Diz-me onde vives, dir-te-ei quem és

Vivemos em cidades cada vez mais segregadas, onde as diversas desigualdades se articulam para definir bairros homogéneos e impermeáveis. Por Daniel Sorando.
Foto de Manu Navarro/El Salto.
Foto de Manu Navarro/El Salto.

Há muito tempo que Louis Wirth definiu as características fundamentais do urbano: dimensão, densidade e diversidade. E, no entanto, se pensarmos nas partes da cidade em que vivemos, ficaremos surpreendidos com a homogeneidade da nossa experiência quotidiana. Não só vivemos em bairros onde as nossas vizinhas são muito parecidas connosco, como também, para além disso, nas nossas deslocações diárias, dificilmente saímos da nossa bolha social. Trabalhamos com pessoas semelhantes, fazemos compras em locais onde encontramos pessoas parecidas e divertimo-nos em espaços onde nos vemos reflctidos quando olhamos para os que nos rodeiam. Habitamos cidades segregadas e, como resultado, quase não sabemos nada sobre elas.

Em traços largos, a segregação residencial é o grau e a forma como diferentes posições sociais vivem em bairros geograficamente separados. Ao mesmo tempo, a segregação também se refere ao conjunto de processos através dos quais essa separação ocorre. Seja como um estado ou como uma dinâmica, numerosas investigações internacionais têm demonstrado que a segregação residencial está a aumentar nas grandes metrópoles de todo o planeta. Deste modo, os tecidos sociais e geográficos que compõem as cidades assemelham-se cada vez mais a um arquipélago do que a um teatro urbano.

Um arquipélago urbano em série

As cidades segregadas de hoje são constituídas por fragmentos impermeáveis e desiguais entre si, por vezes como resultado de uma segregação desejada, noutros casos como consequência de uma separação forçada. No início do século, Peter Marcuse e Ronald van Kempen propuseram uma lista de fragmentos típicos da ordem espacial das cidades contemporâneas. Entre os fragmentos que correspondem à segregação desejada, são recorrentes a cidade de luxo, a cidade gentrificada e a cidade suburbana. Em primeiro lugar, a cidade de luxo reúne as classes altas em espaços fechados, à distância do resto da sociedade, garantindo encontros entre iguais para manter e reproduzir o capital (riqueza, rendimento, educação, contactos, prestígio) que acumulam. Trata-se, neste caso, de um tipo de segregação ativamente produzida por uma classe social que pode escolher onde viver, bem como excluir o resto não só das suas casas, mas também das suas ruas, com sistemas de segurança privada que conformam, na prática, jurisdições urbanas independentes. Se existe algum risco de desconexão de grupos sociais espacialmente isolados em Espanha, não devemos procurá-lo nos alegados guetos das classes populares, mas nos condomínios fechados dos privilegiados. Exemplos deste tipo de cidade podem ser encontrados no noroeste de Madrid, nos arredores de Sant Cugat del Vallés, em Barcelona, ou na margem direita do Nervión, em Bilbau. Uma variante desta cidade pode ser encontrada em alguns bairros construídos fora das cidades, como os de Madrid ou Valência, local de residência de frações envelhecidas das classes dominantes. Em ambos os casos, estas classes têm práticas políticas com um elevado grau de coesão que vão muito para além do voto.

Em seguida, temos os bairros tradicionalmente populares e agora em voga que são o local de residência das frações mais fracas das classes dominantes: as classes médias altamente educadas, mas sem uma posição económica sólida, a clientela habitual da cidade gentrificada. É claro que a experiência desta cidade, cuja diversidade inicial é temperada pela sua progressiva domesticação comercial, está condicionada à expulsão dos seus habitantes anteriores, requisito para a especulação imobiliária que alimenta todo o processo. Esta cidade espalha-se dos centros urbanos onde inicialmente surgiu para os antigos bairros populares que, com o crescimento urbano, se tornam relativamente centrais. Este avanço é consequência do aumento do peso populacional de jovens profissionais que são atraídos para as principais cidades de cada sistema urbano. Subalternos às classes dominantes que residem na cidade de luxo, os habitantes da cidade gentrificada combinam o consumo alternativo com práticas de inovação social e de voto na nova esquerda. Não obstante, a atratividade destes espaços torna-os também locais privilegiados para a extração de rendas turísticas, especialmente no caso espanhol. Com a expansão dos apartamentos turísticos, os proprietários encontram maior rentabilidade no alojamento temporário das classes médias globais do que no arrendamento estável às classes médias locais, o que ameaça a residência dos pioneiros da gentrificação. Hoje em dia, esta cidade expande-se de Malasaña e Gracia para Carabanchel e Poble Nou, atingindo níveis extremos de turistificação nas Ilhas Baleares, nas Ilhas Canárias e nos municípios da costa mediterrânica.

Em terceiro lugar, a cidade suburbana aparece como o auge residencial na trajetória de vida de diferentes frações da classe média. São espaços afastados do centro urbano, em novas urbanizações destinadas a famílias com filhos que procuram ambientes socialmente previsíveis, muitas vezes desprovidos de infraestruturas sociais públicas, pasto ideal para os serviços privados de reprodução social (academias de línguas, ginásios, clínicas dentárias, ludotecas, infantários, etc.). É a Espanha das piscinas, brilhantemente retratada por Jorge Dioni, cujo esplendor se encontra nos Programas de Atuação Urbanística de Madrid, mas que podem ser encontrada nas fases de expansão de todas as áreas metropolitanas de Espanha na viragem do milénio. Celeiro da bolha imobiliária, a cidade suburbana exprime o individualismo e as ansiedades de toda uma época através de conjuntos habitacionais fechados. Ao mesmo tempo, este ambiente urbano contribui para a produção de uma disposição política liberal em certos costumes, fortemente darwinista na ordem económica e desconfiada do sector público. Clientes prioritários de todos os pânicos morais e órfãos do Ciudadanos, os seus habitantes regressam por vezes ao bipartidarismo, outras vezes entregam-se ao fascismo.

A cidade popular também acolhe uma vizinhança com uma posição económica similar (precarizada, neste caso), mas, ao contrário dos tipos de cidade anteriores, provêm de trajetórias sociais muito diversas. Se essa cidade é frequentemente resumida ao conceito de periferia, seria mais apropriado falar de periferias, no plural. Assim, a cidade popular inclui jovens precários nos antigos bairros operários, com condições de habitação inadequadas, por vezes vetados e por vezes expulsos da cidade gentrificada; pessoas com origens migrantes estrangeiras que por vezes formam enclaves étnicos em bairros operários abandonados pelos seus anteriores habitantes, onde encontram apoios num ambiente fundamentalmente hostil; e velhas classes trabalhadoras em bairros com condições urbanas e residenciais adequadas, fruto do primeiro urbanismo democrático dos anos 1980. É claro que esta simplificação não deve ocultar as múltiplas combinações que dificultam a formação de identidades comuns que, na experiência partilhada da precariedade económica e urbana, poderiam ser fonte de movimentos políticos de contestação da ordem estabelecida. A segregação nesta cidade popular é muitas vezes forçada, tanto mais que os serviços públicos se degradam. Como resume José Mansilla: "É preciso compreender que ser do bairro significa muitas vezes querer sair dele". Embora o voto nesta zona da cidade tenda para a velha social-democracia, na política das classes populares predomina a combinação da abstenção eleitoral com o sindicalismo social, por vezes, ou com a atonia gerada pela rutura dos laços sociais, noutros casos. Exemplos das diferentes variantes desta cidade são Vallecas em Madrid, Nou Barris em Barcelona, Rekalde em Bilbau, Gamonal em Burgos, Zaidín em Granada ou Las Delicias em Saragoça.

Em quinto lugar, a cidade abandonada refere-se a espaços onde se cruzam todas as desvantagens nos eixos de classe e etnia. No entanto, este tipo de cidade alude a uma realidade urbana, a do gueto, que é inadequada para compreender as nossas cidades, uma vez que, em Espanha, dificilmente conhecemos realidades urbanas como aquelas que exigiram a categoria de gueto para as explicar. Como explica Loïc Wacquant, o gueto confina e relega um grupo social e étnico subalterno, mas, ao mesmo tempo, oferece um espaço de apoio mútuo entre os seus membros. Pelo contrário, nas nossas cidades não encontramos conjuntos étnicos semelhantes, mas sim anti-guetos onde a desindustrialização produziu bairros desarticulados (fragmentados em termos laborais, com serviços públicos degradados e territorialmente estigmatizados) que não oferecem os "benefícios paradoxais" do gueto, uma fonte potencial de identidade partilhada e uma maior capacidade de ação colectiva. Apesar de tudo isto, alguns meios de comunicação social, políticos e até académicos só invocam o gueto quando se referem à segregação residencial, a fim de espalhar pânicos morais politicamente rentáveis.

A cidade neoliberal: uma máquina de segregar

É importante notar, chegados a este ponto, que as formas de segregação não são realidades imutáveis. Pelo contrário, as funções urbanas que cada uma delas cumpre devem ser entendidas à luz dos processos históricos que as produzem, mantêm e/ou desafiam. Na nossa época histórica de neoliberalismo ou capitalismo financeiro, a segregação residencial está a aumentar, de tal forma que os diferentes fragmentos do arquipélago urbano estão a tornar-se cada vez mais distintos, homogéneos e impermeáveis. Mas quais são as razões para esta tendência de aumento da segregação? Esta dinâmica é alimentada por dois fatores: por um lado, o crescimento da desigualdade social entre os habitantes das sociedades urbanas; e, por outro, a mudança da função económica das grandes cidades, que passam de espaços de residência de trabalhadores a máquinas de produção de rendimento.

Em geral, as cidades globais atraem um grande número de profissionais, criando uma enorme procura de serviços pessoais mal pagos e instáveis que são prestados pelo precariado contemporâneo, frequentemente migrante. O resultado é um aumento da polarização profissional, com os serviços profissionais a crescerem no topo e os serviços pessoais na base. O aumento da população dos primeiros estimula a sua expansão territorial em direção aos centros urbanos e às suas zonas periféricas mais atrativas, através de processos extensivos de gentrificação. Estas dinâmicas cavalgam sucessivas vagas de destruição criativa ou de acumulação por desapropriação na cidade, das quais se alimenta um vasto sector rentista que inclui tanto famílias proprietárias como fundos de investimento internacionais, com o Estado a desempenhar um papel ativo na sua promoção. Concretamente, o Estado dá apoio normativo e político à financeirização da habitação, por um lado, ao mesmo tempo que desenvolve operações de regeneração urbana em bairros gentrificáveis e abandona o seu papel na provisão de habitação social. Consequentemente, as classes populares (empregadas em serviços precários) são relegadas para as margens urbanas menos valorizadas, que não são economicamente acessíveis: atualmente, o confisco de uma grande parte dos rendimentos do trabalho pelos proprietários está espalhado por toda a cidade.

Em qualquer caso, este processo generalizado não ocorre da mesma forma em todas as cidades, sendo que algumas cidades segregam mais (ou menos) do que outras. Por um lado, as cidades globais segregam mais, dada a sua capacidade de atração de profissionais. Assim, à escala espanhola, observamos diferenças, por exemplo, entre as áreas metropolitanas de Madrid e Barcelona, onde a segregação está a crescer mais, e as restantes principais cidades espanholas. Mas, ao mesmo tempo, e como já foi salientado, o Estado desempenha um papel central na produção de uma segregação que gera enormes rendas para os diferentes agentes imobiliários, uma vez que aumenta o valor de cada fragmento urbano na luta para obter a homogeneidade social desejada. Por exemplo, a diferente intensidade do desenvolvimento da habitação privada durante os anos da bolha imobiliária explica as diferenças no aumento da segregação entre as áreas metropolitanas. A este respeito, destaca-se o caso de Bilbau, onde uma menor intensidade da atividade imobiliária permitiu uma menor segregação do que noutras áreas metropolitanas, como Sevilha, Valência ou Saragoça. Na mesma linha, a disponibilidade ou não de habitação social para arrendamento, bem como a sua distribuição pelo território, é um elemento chave para reduzir a segregação residencial. No entanto, este instrumento dificilmente pode ser utilizado nas cidades espanholas, onde a percentagem deste tipo de habitação é irrisória em termos comparativos. A este respeito, vale a pena comparar os 0,5% de habitação social disponíveis na cidade de Madrid com os 43% da cidade de Viena. Perante esta realidade, algumas cidades como Barcelona, bem como comunidades autónomas como a Catalunha, avançaram, a ritmos diferentes e por vezes com retrocessos, em diferentes medidas políticas com potencial para reduzir a segregação residencial, para as quais o desenvolvimento da Lei da Habitação também pode ser útil. A redução da segregação é importante porque gera desigualdades específicas que se somam às desigualdades sociais, étnicas ou de género, entre outras. No nosso contexto, a forma futura das nossas cidades dependerá da capacidade dos movimentos emancipatórios para superar as divisões que a cidade neoliberal acentua e, deste modo, deter a máquina de segregação em que se tornaram.


Daniel Sorando é professor na Universidade de Zaragoza e membro de La Fábrica de lo Social.

Texto publicado no El Salto.

Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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