Na conferência sobre o futuro comum da União Europeia, realizada na cidade que originou a revolta popular contra o primeiro-ministro da Turquia, o discurso do comissário europeu para o Alargamento começava logo por se referir ao presente. "O nosso dever, tanto enquanto membros da UE como de países que o desejam ser, é aspirar aos mais elevados padrões e práticas democráticas", lembrou Štefan Füle, acrescentando que esses padrões incluem a liberdade de cada um exprimir a sua opinião e a reunir pacificamente, bem como "a liberdade de imprensa para relatar o que está a acontecer no momento em que acontece".
O comissário checo prosseguiu dizendo que as manifestações pacíficas "são o caminho legítimo" para que as pessoas expressem a sua opinião em democracia e que "o uso da força excessiva por parte da polícia não tem lugar" nas sociedades democráticas. Ainda se congratulou por o governo de Ancara ter admitido essa violência excessiva antes de afirmar que "o que é importante agora é não apenas lançar uma investigação rápida e transparente, mas também chamar à pedra os seus responsáveis". Na sua visita à Turquia, que serve também para preparar uma conferência intergovernamental a 26 de junho que vai discutir a adesão turca à UE, Štefan Füle reuniu também com representantes dos manifestantes e da sociedade civil.
A resposta de Erdogan, que regressou ao país na quinta-feira e foi recebido por milhares de apoiantes no aeroporto, mostrou claramente que o seu regime não está virado para iniciativas de diálogo com quem protesta, tendo dito que "os protestos têm de parar imediatamente". O primeiro-ministro turco disse mesmo esta sexta-feira que se os protestos ocorressem nalgum país da União Europeia, a repressão teria sido mais dura que a da polícia turca nas últimas duas semanas.
No balanço possível das vítimas dos confrontos em treze cidades até ao fim da tarde de quinta-feira, o Sindicato dos Médicos Turcos conseguiu confirmar a morte de três pessoas (uma em Istambul, outra em Antakya e outra em Adana). Uma das três vítimas mortais confirmadas pelos organização é um agente da polícia. Outras fontes, como a BBC, apontam para quatro mortos confirmados. Quanto aos feridos, deram entrada nos hospitais públicos e privados 4785 pessoas. Três pessoas continuam nos cuidados intensivos e várias dezenas estão em estado considerado grave.
"A maioria dos ferimentos deve-se a queimaduras e complicações respiratórias por causa do gás" lançado pela polícia, informa o sindicato. O impacto dos disparos das latas de gás e balas de plástico são outras das principais causas, tendo dez pessoas perdido a vista e outros 18 apresentam sérios traumatismos cranianos.