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Diretores escolares alertam para “abandono de interesse e motivação” dos alunos

No dia em que termina o segundo período do ensino obrigatório, os alunos estão cansados do ensino online e há muitos professores em pré-'burnout'. Além da aprendizagem, os diretores escolares também estão preocupados com a saúde mental dos alunos.
Foto de Paulete Matos

Termina esta sexta-feira o segundo período do ensino obrigatório. Depois de três meses de aulas, em que a maioria do tempo foi passada em casa, regista-se uma diferença em relação à primeira experiência de ensino à distância, que começou em março do passado ano letivo, nomeadamente na melhoria da literacia digital de professores e alunos, e no maior número de equipamentos distribuídos.

Mas “nada substitui a presença dos alunos na sala de aula e o convívio na escola”, diz Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). “Não houve abandono físico, porque nós conhecemos os alunos, sabemos onde vivem e em caso de necessidade vamos saber o que se passa.  Mas houve um abandono do interesse e motivação pela escola”, acrescentou o também diretor do Agrupamento de Escolas General Serpa Pinto, em Cinfães.

De acordo com Manuel Pereira, "não é fácil ter os adolescentes agarrados, durante todo o dia, às aulas através de um computador”. O diretor contou à Lusa que os professores foram-se apercebendo ao longo do 2.º período da “falta de interesse, cansaço e até um esgotamento em relação às novas tecnologias”.

Além destas preocupações, e das aprendizagens que ficaram para trás, existe ainda a questão da saúde mental, que também preocupa os professores. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), disse à Lusa que “a escola é um espaço de socialização fundamental e os alunos estão cansados de estar em casa. Querem estar na escola com os colegas”. O professor defende também a necessidade de se “reforçar o número de técnicos especializados nas escolas, em especial os psicólogos”.

Professores em situação de pré-‘burnout’

Também os professores estão a sofrer com as alterações impostas pela pandemia. “Temos muitos professores em situação de pré-‘burnout’. Passaram a ter muito mais trabalho em casa do que tinham na escola. Além de que muitos se viram perante a difícil tarefa de tentar conciliar o trabalho com a vida familiar. Temos muitos professores que são também pais e estiveram a dar aulas enquanto os filhos também tinham aulas e precisavam de apoio”, diz manuel Pereira.

Uma das novas tarefas que muitos professores tiveram de desempenhar foi, por exemplo, ter de ir a casa dos alunos para os ajudar a entrar na sala de aula online.

O problema da aprendizagem foi mais difícil entre os alunos mais novos, devido à falta de autonomia e à dificuldade de concentração nas aulas, situação que se agravou em caso de ausência de um apoio familiar sólido. O presidente da ANDAEP estima que a recuperação das aprendizagens por parte destes alunos será um processo demorado, que não ficará resolvido em breve.

Os diretores sublinham que as escolas são lugares seguros e que são raros os casos de infeção entre a comunidade escolar. Desde janeiro, foram realizados cerca de 150 mil rastreios à covid-19 nas escolas. Foi registada uma taxa de positividade pouco superior a 0,1%.

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