Desespero e raiva crescem na sociedade grega

07 de setembro 2010 - 1:16

Tensões aumentam, enquanto as medidas de austeridade não dão resultado. Todo o país está à beira de uma depressão. Os trabalhadores sentem-se frustrados e ameaçam entrar em greve novamente. Por Corinna Jessen, em Atenas, para a Spiegel

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Peritos estimam que o produto interno bruto do país caia cerca de 4% durante todo o próximo ano. Foto de karpidis

As medidas de austeridade que deveriam supostamente solucionar os problemas da Grécia estão a atrasar a economia do país. As lojas estão a fechar, as receitas fiscais estão a diminuir e o desemprego atingiu uns surpreendentes 70% em alguns locais. Os trabalhadores sentem-se frustrados e ameaçam entrar em greve novamente.

As comemorações da Assunção de Maria, a 15 de Agosto, são o ponto mais alto do Verão no mundo ortodoxo grego. Aqui, numa das muitas igrejas do país, os crentes rezam à Virgem por misericórdia, muitos deles ajoelhados.

O jornal Ta Nea tem recomendado ao governo grego que adopte a mesma postura – os líderes do país têm de esperar que Maria faça um milagre para salvar a Grécia de uma crise séria, anuncia o jornal. Sem intervenção divina, sugere o jornal, será um Outono difícil para o governo mediterrânico.

Este prognóstico terrível surge apesar dos incríveis esforços de Atenas para solucionar as finanças do país. As apertadas medidas de austeridade do governo conseguiram reduzir o défice do país em uns surpreendentes 39,7%, depois de governos anteriores terem gasto o dinheiro dos impostos e falsificado as estatísticas durante anos. As medidas têm reduzido os gastos governamentais num total de 10%, 4,5% mais do que a UE e o Fundo Monetário Internacional tinham exigido.

O problema é que as medidas de austeridade têm afectado entretanto cada aspecto da economia do país. O poder de compra está a cair, o consumo entrou em queda livre e o número de falências e desempregados tem vindo a aumentar. O produto interno bruto diminuiu cerca de 1,5% no segundo quartel deste ano. A receita fiscal, que era desesperadamente necessária para consolidar as finanças nacionais, tem caído. Uma mistura de medo, desespero e raiva está a crescer na sociedade grega.

Desemprego estimado em mais de 70%

Nikos Meletis está impecavelmente vestido e o seu carro de qualidade mediana está limpo e arrumado. Meletis costumava ter um bom salário na empresa de construção naval em Perama, um porto situado na ponta oposta da ilha de Salamis. "De momento, vivo das minhas poupanças," diz o soldador de 54 anos, em frente a um porto silencioso cheio de navios atracados.

Meletis é um trabalhador que recebe o seu salário diariamente e que costumava trabalhar mais de 300 dias durante o ano; este ano ele só conseguiu trabalhar 25 dias até ao momento. O que lhe dá 25 selos de seguro de saúde, quando ele necessita de 100 para garantir o seguro para ele e para a sua família – inclusive a sua esposa que sofre de cancro. "Como é que vou conseguir pagar os custos do hospital?" interroga-se Meletis. O subsídio de desemprego é de 460 euros mensais e só está disponível no máximo durante o período de um ano – e apenas se ele conseguir apresentar no mínimo mais 150 selos relativos aos últimos 15 meses.

É quase impossível encontrarmos um trabalhador de construção naval no distrito de Perama que consiga isso. O desemprego na cidade oscila entre 60 e 70%, de acordo com um estudo levado a cabo pela Universidade de Piraeus. Enquanto 77% das empresas gregas de frota mercante indicam que estão satisfeitas com a qualidade do trabalho desempenhado em Perama, aproximadamente 50% ainda enviam os seus navios para serem reparados na Turquia, Coreia ou na China. Os custos são demasiado elevados na Grécia, dizem eles. O país, afirmam, tem demasiada burocracia e demasiadas greves, com disputas laborais que atrasam frequentemente os prazos das entregas.

Perama é certamente um caso extremo pouco usual. Mas o declínio dos estaleiros serve como um exemplo claro da incapacidade da economia grega de gerar competitividade. Quase nenhuma das indústrias do país consegue acompanhar a competitividade internacional em termos de produtividade e os peritos estimam que o produto interno bruto do país caia cerca de 4% durante todo o próximo ano. A Alemanha, a título de comparação, estima crescer mais de 3%.

Estima-se que as vendas diminuam em todo o país

O pacote de austeridade do primeiro-ministro George Papandreou tem abalado seriamente a economia grega. O pacote incluía a redução dos salários dos funcionários públicos em mais de 20% e o corte das pensões de reforma, enquanto propunha o aumento de vários impostos. O resultado é que os gregos têm cada vez menos dinheiro para gastar e a receita das vendas está a baixar em todo o país, anunciando uma catástrofe para um país onde 70% da produção da economia é baseada no consumo privado.

Um pequeno passeio pelas ruas do comércio de Atenas revela a dimensão do declínio. Um quarto das montras das lojas em Stadiou Street exibe cartazes vermelhos onde podemos ler "Enoikiazetai" – aluga-se. A Confederação Nacional do Comércio Helénico calcula que 17% de todas as lojas em Atenas tiveram de declarar falência.

As coisas não estão melhores nas cidades mais pequenas. Chalkidona era, até apenas alguns anos atrás, um ponto central para o transporte rodoviário na área circundante de Thessaloniki. Duas ruas principais, repletas de restaurantes de fast food e de refeições para os camionistas, cruzam-se na pequena e triste cidade. A habitação de Maria Lialiambidou situa-se exactamente na rota principal do transporte rodoviário. A renda de uma pastelaria no rés-do-chão do prédio dava-lhe 350 euros por mês, uma quantia que a ajudava de forma considerável, juntamente com a sua pensão de viuvez de 320 euros.

Todavia, durante os últimos dias, Kostas, o senhor que lhe alugava a pastelaria, a quem as pessoas costumavam chamar um grande “forreta”, já não consegue pagar mais a renda. Aqui também vemos um enorme cartaz na montra da pastelaria onde também se lê "Enoikiazetai". Ninguém quer arrendar a loja. A mesma situação passa-se no talho que se encontra vazio a poucos metros dali.

Um cartaz no outro lado da rua publicita o "Sakis' Restaurant." O proprietário, Sakis, ainda se tem aguentado, com clientes que ocupam uma ou duas mesas do restaurante ocasionalmente. "De facto, já não existe trabalho para mim aqui," diz um dos empregados albaneses que responde pelo nome de Eleni na Grécia. "Muitos já regressaram à Albânia, que não está melhor do que aqui. Vamos ver quando terei de ir também."

Sem saída

Todo o país está à beira de uma depressão. Tudo parece ir de mal a pior. A espiral está continuamente a cair e não existe uma saída à vista. O pior, todavia, é o facto de que quase ninguém acredita que tudo vai melhorar um dia.

A taxa de desemprego do país acentua claramente esta tendência. Em 2009, era 9,5%. Este ano pode subir para 12,1% e os economistas estimam que possa chegar a 14,3% em 2011. Estes são apenas os números oficiais que foram divulgados por Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A associação sindical grega (GSEE) considera estes números demasiado optimistas. Considera que 20% é um número mais provável para 2011. Isso colocaria a taxa de desemprego tão alta quanto em 1960, quando centenas de milhares de gregos foram forçados a emigrar. Entretanto, o poder de compra caíu ao nível de 1984, de acordo com a GSEE.

'As coisas estão a começar a aquecer'

Menelaos Givalos, um professor de Ciência Política na Universidade de Atenas, apareceu na televisão, alertando os telespectadores para tempos piores que ainda estão para vir. Ele prevê uma enorme vaga de layoffs que terão início em Setembro, com "consequências sociais extremas."

"Tudo está a ficar mais caro, estou com muita dificuldade em ganhar algum dinheiro e ainda assim é suposto que eu pague mais impostos para ajudar a salvar o país?" interroga-se Nikos Meletis, o soldador. Os seus amigos, reunidos num pequeno café no pontão em Perama, estão gradualmente a ficar mais ruidosos. Eles estão todos desempregados, desesperados e revoltados com os políticos que os meteram nesta situação. Não existe empatia aqui por nenhum dos partidos políticos nem pelos sindicatos.

"Eles apenas organizam as greves para servir os seus próprios interesses!" grita um senhor chamado Panayiotis Peretridis. "A única coisa que ainda me interessa é o meu salário diário. Um pão de forma é o meu partido político. Eu quero ajudar o meu país – dê-me trabalho e eu pagarei os meus impostos! Mas o nosso orgulho enquanto trabalhadores qualificados, enquanto responsáveis pelas nossas famílias, enquanto gregos, está a ser atirado pelo cano abaixo!"

"Se retirarem o pão da minha família, eu dou cabo de vocês – o governo precisa de saber isso," afirma Meletis. "E depois, se isso acontecer, não nos venham chamar de anarquistas! Somos responsáveis pelas nossas famílias e estamos desesperados."

Ele prevê que a situação aqueça ainda mais. "As coisas estão a começar a aquecer aqui," diz ele. "E daqui a pouco vão explodir."

Retirado de Information Clearinghouse

18 de Agosto de 2010

Tradução de Sara Vicente para o Esquerda.net