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"Depois do voto do medo, a luta pela alternativa da esquerda"

No fecho da conferência nacional, Catarina Martins sublinhou que a oposição do Bloco à maioria absoluta "não é meramente declarativa. É de construção. Somos a alternativa vermelha e verde, a do trabalho e do clima, a que se levanta contra todas as opressões".
Foto de António Cotrim, Lusa.

Este sábado realizou-se a IV Conferência Nacional do Bloco de Esquerda, sob o lema “Bloco de Esquerda: Justo, Solidário, Insubmisso”. Durante o encontro, que teve lugar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foram votadas recomendações à Mesa Nacional sobre o rumo estratégico do Bloco de Esquerda.

A proposta global da Comissão Política do Bloco de Esquerda foi aprovada com 85% dos votos. Já as propostas apresentadas por militantes do Bloco que integraram a Moção M e a Moção E na última Convenção obtiveram 2,5% e 11,9% dos votos, respetivamente (As propostas estão disponíveis no II Boletim da Conferência Nacional) .

O Esquerda.net transcreve, na íntegra, a intervenção de encerramento de Catarina Martins:


Conferência Nacional do Bloco de Esquerda

30 de Abril de 2022

Boa tarde a todas e a todos.
Que enorme Conferência aqui tivemos.

Saúdo a força militante desta conferência. Os tantos debates que tivemos, nas distritais e nas concelhias, os contributos escritos.

Saúdo quem fez tantos km para aqui estar, quem acordou de madrugada e chegará já noite a casa.

Saúdo quem assumiu as tarefas da organização: da credenciação à creche, dos transportes à direção dos trabalhos.

Saúdo, em nome de todo o Bloco, Yulia Yurchenko, dirigente do partido de esquerda "Movimento Social Ucraniano" e dinamizadora da "Campanha pelo Cancelamento da Dívida Externa da Ucrânia". E digo-lhe: Sim a solidariedade é o nosso valor e não lhes faltaremos.

Camaradas,

A Índia e o Paquistão estão sob uma onda de calor com temperaturas bem acima dos 40ºC; ontem registaram-se temperaturas já muito próximas dos 50°C. Esta época do ano é sempre de temperaturas altas naquela parte do mundo. Mas o que está a acontecer é inédito: uma onda de calor que já dura há dois meses, e que está a colocar em causa todas as infraestruturas, das centrais de energia aos hospitais. A produção de cereais da região - que alimenta também boa parte do mundo - está já comprometida. A onda de calor que martiriza neste momento mil milhões de pessoas, quase 10% da população mundial, será em breve também mais crise alimentar global. E não esquecemos que a fome no mundo já tinha atingido novos picos antes da guerra na Ucrânia.

Bem sei que nada disto tem chegado aos telejornais. Mas é sobre isto que aqui estamos. Não há outro rumo estratégico para o Bloco que não este: a responsabilidade de resposta ao nosso tempo. E este tempo exige a coragem da proposta anticapitalista, a única que responde pelo clima, pela paz e pelo pão.

Explico porquê.

Olhemos para o tempo da decisão política. Sobre o Clima - uma destruição de nível global - só conhecemos a paralisia e a câmara lenta. Os líderes das maiores economias e grupos económicos mundiais vão afirmando que fazem o que podem, mas que a mudança é sempre lenta. Não é verdade. Nem fazem o que podem nem as mudanças são lentas.

O painel científico intergovernamental para o Clima acusa mesmo os poderes de mentirem. Mentirem sobre os riscos, mentirem sobre o que fazem. A questão do Clima é tanto uma questão de sobrevivência da espécie como uma questão democrática. Há anos que há mandato para medidas que contem, anos de promessas, mas só resta a mentira. Bem sei que há quem negue as alterações climáticas e diga mesmo que o aquecimento global é uma grande mentira. Mas a grande mentira é a que nos diz que temos tempo, que nos pede que confiemos num capitalismo verde ou nos garante que lá iremos com pequenos passos. O poder dos gigantes da energia, e o alinhamento dos Estados com estes interesses - tantas vezes mais poderosos do que qualquer Estado - é o maior obstáculo à resposta climática. E não se pense que este condicionamento da democracia é só lá longe.

A Galp em Portugal tinha um membro do gabinete da ministra Ana Paula Vitorino, e em breve iremos encontrá-los com o ministro Costa e Silva a avançar para a já anunciada destruição dos fundos marinhos. E não há aqui ingenuidades; apenas mentira. O extrativismo capitalista não se detém perante nada. E o governo está farto de saber a lição do extrativismo, mas recusa-se a aprendê-la.

A verdade é uma: as mudanças climáticas já estão a perturbar fortemente os sistemas humanos e naturais, e as palavras são da ONU. As metas de redução de emissões nunca foram cumpridas, pelo contrário, e não há grandes dúvidas de que o aquecimento global superará 1,5ºC no curto prazo, o ponto de não retorno. O que fizermos na próxima década determinará as condições da nossa sobrevivência.

Ninguém está acima da crise climática, mas são sempre os mais pobres quem mais perde e perde mais depressa. O rasto de devastação dos fenómenos climáticos extremos, a fome, os refugiados do clima. É neste que pensamos. Ignorando a desgraça, os gigantes do extrativismo aceleram o rastro da destruição. Querem ganhar mais, muito mais, no tempo que tiverem. Enfrentá-los é enfrentar o capitalismo.

Mas se a agenda climática tem entrado no espaço público em câmara lenta, nos últimos dias tudo acelerou: estamos num mundo em risco imediato. A acusação da ONU foi lançada quatro dias depois do início da guerra da Ucrânia. Por essa altura, já Joe Biden tinha dado o sinal: toca a furar, extrair mais e mais depressa, mais combustíveis fósseis. Passaram três semanas e foi a vez de Pedro Sanchez, que deitou ao caixote do lixo a posição histórica do Estado Espanhol sobre o direito do Sahara Ocidental, para negociar combustível fóssil com Marrocos. Nenhuma palavra vale perante a realpolitik fóssil. Ainda há uma semana, ouvia isso mesmo na mensagem que nos enviou a resistente saharaui Aminetu Haidar a propósito da passagem de 10 anos sobre a morte do Miguel Portas.

O imperialismo russo não tem desculpa, mas engana-se quem julga que esta guerra pode acabar lindamente com a vitória de um lado sobre outro. A Ucrânia resiste - e por isso está já a vencer - e a Rússia isola-se e empobrece - e por isso está já a perder. Mas sem uma rápida solução negociada, esta guerra pode mesmo tornar-se mundial e tudo será pior para toda a Europa e para todo o mundo.

O risco nuclear existe, as armas de extermínio estão dos dois lados. E tão indigna é a bravata de Putin, ao ameaçar com o recurso à bomba atómica, como a bravata de quem sugere que se ignore essa ameaça, prometendo que o prolongamento da guerra dará uma lição histórica ao agressor, mesmo que arrase o país agredido e que se diz querer proteger. A resposta guerreira é fácil, mas é errada. Não confundimos o apoio ao povo ucraniano (incluindo em meios de auto-defesa, que aprovamos) com aquele militarismo de sofá que se ri, irresponsavelmente, dos riscos da escalada nuclear.

O que dizemos, o que propomos, é o que disse a Ucrânia logo nos primeiros dias da guerra: o ponto de partida para uma paz duradoura é a retirada russa e a neutralidade militar da Ucrânia. Essa é hoje a proposta do partido da paz. Não temos critérios diferentes para repudiar os crimes cometidos por George W Bush contra civis em Falluja, no Iraque, ou aqueles cometidos pelas tropas de Putin contra as cidades ucranianas. Não temos uma posição sobre a autodeterminação do povo palestiniano e outra sobre o direito da Ucrânia à sua soberania. A nossa palavra é clara: fim da invasão e abertura de verdadeiras negociações para impedir uma deriva ainda mais terrível do que a atual guerra.

Mas o tempo da guerra é bom para muitos negócios: os das armas, que floresce; o da especulação com energia e alimentos, que vai desvairada. E essa é a agenda das elites mundiais. Acresce que, se este é um tempo de aflição para a maioria, é também um tempo de segurança para quem está no poder. A guerra instala a exceção que autoriza todas as injustiças, um tempo de incerteza em que o poder consegue impor coisas que, em tempos normais, as pessoas nunca aceitariam. E é por isso que a agenda da PAZ é a agenda da democracia, a agenda da solidariedade e dos direitos humanos, e é por isso anticapitalista. A irresponsabilidade dos mercados é a maior inimiga da sensatez da PAZ. E é a PAZ que defendemos.

Camaradas, 

Temos vivido em permanente crise. A cada crise, as desigualdades avançam. A crise, todas as crises é o capitalismo, ele próprio.

Com a crise financeira de 2007/2008, e a desastrosa resposta que se seguiu, a concentração da riqueza global agudizou-se. Em 2015, atingiu-se um novo máximo na concentração da riqueza:  1% da população mundial concentrava metade de toda a riqueza do planeta. Mas não ficou por aí.

Em 2018, o 1% mais rico já controlava em 80% da riqueza mundial. E sabemos já que, durante a crise pandémica, quando a generalidade do povo empobreceu, os multimilionários encontraram novas oportunidades. Hoje, com a agudização da inflação, vemos como uns poucos ganham com a miséria de quase todos.

Se na crise financeira os desmandos da banca foram pagos por quem vive do seu trabalho e viu salário cortado e serviços públicos enfraquecidos; se na crise pandémica quem vivia em condições mais precárias ficou ainda mais vulnerável e, até no acesso mundial à vacina, os lucros das farmacêuticas falaram mais alto do que os direitos humanos. No ciclo de inflação que agora vivemos, a especulação continua à solta e os salários mais uma vez encolhem, desta vez com a subida de preços.

Em Portugal, é o Partido Socialista que quer convencer o país de que, face a uma inflação gerada do lado da oferta e não da procura, o perigo seria a atualização de salários e pensões. E vai recusando mecanismos de controle de preços e de combate à especulação.

Enquanto os salários de quem trabalha são esmagados pelo aumento de preços, os administradores das maiores empresas portuguesas aumentaram os seus próprios rendimentos em 90% e anunciam distribuição de milhões em dividendos. Sejamos claros, estamos perante a imposição da transferência de rendimentos do trabalho para o capital, desta vez, pela via da inflação. Sim, o combate à desigualdade, essa luta funda pelo pão, pela igualdade e pela liberdade por inteiro, essa, é a luta anticapitalista.

Camaradas,

Se os riscos de uma maioria absoluta do Partido Socialista já eram grandes à saída das eleições, a incerteza internacional só vem agravar esses riscos. Nos debates do programa do governo e do Orçamento ficou perfeitamente claro o momento. O PS fechou em definitivo o breve parêntesis aberto com a geringonça e abandona até os poucos e modestos objetivos de política social que se tinha colocado nesses anos:

- a existência de médico de família para todas as pessoas, que já saiu do programa;

- a solução para 25 mil famílias em carência de habitação digna, novamente adiada;

- a recuperação dos salários mais baixos, que serão brutalmente atingidos pela inflação, é determinantemente recusada.

Mas não só: o governo assumiu o argumentário da direita como guião para os anos da maioria absoluta. Que lhes importa se as regras do euro estão suspensas para facilitar a resposta à crise? O discurso da prudência e da prioridade ao défice está de volta em todo o estilo e o PS aproveita a inflação para, na prática, desfazer a tímida recuperação dos salários mais baixos que teve de aceitar sob a geringonça.

Aqui estamos, pois, na oposição. Não poderia ser de outra forma.

Mas numa oposição que não é meramente declarativa. É de construção. Somos a alternativa vermelha e verde, a do trabalho e do clima, a que se levanta contra todas as opressões. E se nos pergunta qual o nosso modelo, respondemos que o construímos na luta. Uma luta que resgata, desde logo, a democracia contra todas as ameaças, incluindo a da extrema-direita.

Já repararam certamente que, no Parlamento, António Costa costuma dar respostas certeiras a André Ventura. O problema é que, fora do Parlamento, na vida de todos os dias, o PS de sempre, o PS que fechou o breve parêntesis da geringonça, o PS de António Costa alimenta o ressentimento social que a extrema-direita explora: a falta de médicos, os alunos sem professores, a habitação degradada, o salário que encolhe enquanto os lucros fogem para offshores e continuam a fabricar excêntricos.

Face à política do ódio, todas as forças democráticas devem estabelecer um cordão sanitário, certamente que sim. Mas sabemos o papel que queremos ter. Sabemos que as lutas são o ar que respiramos e é com elas que enfrentaremos não só o governo mas também a direita radicalizada, seja a do egoísmo liberal, seja a política do ódio - só uma oposição pela igualdade e pelos direitos as pode derrotar.

Sim, aqui estamos por uma resposta anticapitalista que está por construir. A do socialismo, do ecossocialismo, que não sejam chavões gastos nem de desistência, mas um horizonte a conquistar. Como queremos um mundo feminista, no avesso do patriarcado, que não tem nenhum modelo senão aquele que a luta está a construir.

E é, finalmente, da luta feminista que vos quero falar, pela força que nos dá, pelo que aprendemos neste percurso. Na maré do 8 de março juntam-se as tantas lutas das tantas condições que temos enquanto mulheres. Não perdemos o horizonte: a igualdade. Combatemos todos os sectarismos, porque queremos mesmo avançar, mas não cedemos. Essa firmeza inspira as grandes mudanças deste tempo.

Conversava há dias com uma das feministas que nos abriu caminhos largos. Antifascista, poeta, mulher de uma coragem inspiradora. Falámos da guerra na Ucrânia e do nosso país. Ela dizia-me do horror com que ouve os relatos da violência contra as mulheres, mesmo nas gerações mais jovens. Falei-lhe deste nosso encontro de hoje e de como tantas jovens feministas que não abdicam da luta por inteiro e admiram o seu exemplo. E esta mulher extraordinária ofereceu-nos um poema inédito, para este dia, dedicado às mais jovens e mais aguerridas lutadoras pela igualdade. Espero saber lê-lo:

Chama-se “Nós mesmas”

Nós somos
a liberdade
vamos além de nós
mesmas

Somos aquelas
que voam
não queremos
a violência
…que nos impõe
a desgraça
nos humilha
e despedaça

27/04/2022

Maria Teresa Horta

Nos 50 anos das Novas Cartas Portuguesas, sim nós mesmas, nós somos a liberdade e vamos além de nós mesmas. E, se há tanto para fazer, devemos às Três Marias essa aprendizagem da solidariedade entre as mulheres que nos faz sim, como escreviam, “menos desamparadas”.

Camaradas,

O que é o Bloco? Debatemos o rumo estratégico porque seremos a luta, face à catástrofe climática, face à guerra e à ameaça atómica, face à quebra dos salários, face à arrogância da maioria absoluta mais papista que o Papa de Bruxelas. Somos a esquerda que rejeita os termos da nova guerra fria, a esquerda que defende a planificação ecológica em vez do liberalismo que promete que o mercado continuará a resolver o problema do aquecimento global; somos a esquerda que responde à extrema-direita com a defesa do estado social e da solidariedade, com a potência revolucionária do movimento feminista, do movimento anti-racista, do movimento LGBTI+. Somos a esquerda que, depois do voto do medo, fará a luta pela alternativa.

Aqui estamos. As lutas todas. A luta toda. Somos o Bloco de Esquerda.

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