O primeiro passo é polarizar o universo eleitoral em questão. Se reduzirmos as opções de escolha entre “nós” e “eles”, aumentamos enormemente o nosso espaço potencial. Mesmo que o ponto de partida seja ínfimo — pouco mais de um 1%, por exemplo —, ao conseguirmos generalizar o uso da dicotomia nós/eles, alcançaremos imediatamente os 50% ao nível formal.
Se o eleitorado estiver previamente polarizado, apenas precisaremos de alimentar esse maniqueísmo, geri-lo com as estratégias simples que apresentarei em seguida e, sem dúvida, os resultados são garantidos. Se for necessário desenvolver esse trabalho desde o início, precisaremos de mais algum tempo, mais algum esforço, mas a concretização dos objetivos continua garantida. Nesse caso, será útil cumprir algumas diligências experimentais de modo a definir um “eles”.
Como é evidente, o “nós” somos nós e, como também é evidente, o “eles” opõe-se a nós, ao “nós”. No entanto, nós podemos ser muitas coisas, essa elasticidade trará bastante proveito. Ainda assim, a primeira medida organizativa deverá ser a escolha das nossas características-base. A opção mais eficaz será definirmo-nos em função do “eles”. O “eles” que melhor se adequará aos nossos propósitos será aquele que conseguirmos culpar de tudo, absolutamente tudo. Esta premissa é fundamental, irá permitir-nos o argumento nuclear de todos os pontos do nosso programa: nós estamos certos porque eles estão errados.
Todas as oportunidades de comunicação devem seguir apenas duas normas: simplicidade e provocação.
- a) A simplicidade favorece um fácil entendimento e, como tal, a cobertura de um público mais amplo, nomeadamente aqueles que possuem dificuldades ao nível da literacia, que são uma enorme franja de eleitorado, tantas vezes perdida para a abstenção. De uma só vez, esse discurso simplificado transmite uma certa humildade e a ideia de se estar a dizer “as coisas como elas são”. Além disso, não são necessários termos muito elaborados para afirmar o que importa: nós somos bons, eles são maus.
- b) A provocação é o método mais competente de alimentar a dicotomia nós/eles. Entre as várias formas possíveis de provocação, o insulto é muito aconselhável. Em qualquer momento, pode recorrer-se ao insulto com facilidade, garante uma boa cobertura mediática e deixa-os — “eles” — numa posição sem fuga: se não nos respondem, dão-nos implicitamente razão, o nosso argumento é único e último; se respondem, valorizam, também implicitamente, a nossa posição, trazem os nossos temas para a agenda do debate público e ainda podemos acusá-los de estarem a insultar-nos.
Vivemos num tempo de internet e de redes sociais. Quem disser o contrário, está em negação ou adormeceu em 1997. Essa evidência leva-nos a escolher a internet como o nosso meio preferencial de ação. As vantagens são múltiplas, dois exemplos entre inúmeros possíveis: por um lado, a intensidade da nossa presença poderá dar a entender que somos muitos mais do que realmente somos; por outro lado, permite-nos produzir um número infinito de notícias que favoreçam as nossas posições. Esta utilidade é particularmente proveitosa, uma vez que, para além de contarmos com os benefícios de rumores que terão muita dificuldade em desmentir — se é que alguma vez conseguirão fazê-lo —, poderemos invocar mais tarde que a informação está viciada. Ou seja, viciamos a informação e, depois, quando mostrarem algum dado que não nos convenha, por mais inequívoco que seja, bastar-nos-á evocar que a informação está viciada. Tiramos o crédito à informação e, depois, dizemos que a informação não tem crédito. Repito esta ideia para que seja bem apreendida.
Bem sei que dá trabalho passar horas na internet a comentar todo o tipo de publicações, dá trabalho inventar notícias, inventar estudos, inventar sondagens, trabalhar imagem e vídeo, etc. De onde virá dinheiro para montar toda essa operação? Não se preocupe com isso. O dinheiro aparecerá, e será suficiente, será de sobra.
Texto de José Luís Peixoto publicado no Ponto Final.