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Crise climática ameaça a saúde pública global

As alterações climáticas ameaçam a prazo os grandes progressos conseguidos na saúde pública nas últimas décadas, afirma um novo relatório das academias de ciência europeias. Afirma também que as soluções em grande parte já existem, falta apenas a vontade política.
"Mudemos o sistema, Não o clima", manifestação em Paris, outubro de 2018. Foto de Jeanne Menjoulet/Flickr.
"Mudemos o sistema, Não o clima", manifestação em Paris, outubro de 2018. Foto de Jeanne Menjoulet/Flickr.

A aquecimento global, além de multiplicar eventos climáticos extremos como ondas de calor e cheias, ameaça também a prazo a saúde das populações, ao aumentar por exemplo a exposição a doenças transmitidas por mosquitos ou a prevalência de doenças psiquiátricas, segundo as academias de ciências europeias.

O relatório "O imperativo da ação sobre o clima para proteger a saúde humana na Europa", foi publicado esta segunda-feira pela European Academies' Science Advisory Council (Easac), organização que reúne as academias de ciências nacionais da UE, Noruega e Suíça. Disponível online, o estudo reúne e sistematiza os dados conhecidos sobre o impacto das alterações climáticas na saúde pública, que analisa em múltiplas dimensões como os efeitos do calor (que aumenta por exemplo as doenças cardiovasculares e respiratórias, as perturbações no sono e renais, e diminui a produtividade no trabalho), da poluição atmosférica, o aumento da prevalência de doenças infecciosas, de alergias, de problemas de saúde mental. Analisa também outros fatores de efeito mais indireto, como a baixa da produtividade agrícola, os fogos florestais, cheias, as migrações forçadas e conflitos armados.

A Easac avisa que as alterações climáticas ameaçam os enormes ganhos de saúde pública conquistados nas últimas décadas. O aumento das temperaturas trará para a Europa mais mosquitos que transmitem doenças como a febre do dengue, antevendo um aumento das doenças infecciosas no continente. A segurança alimentar e nutritiva também sofrerá com a baixa da produtividade agrícola se as alterações climáticas continuarem, havendo estudos que anteveem uma descida entre 5% e 25% das colheitas agrícolas na região do mediterrâneo. A contaminação da comida é outro problema que tenderá a piorar, pois bactérias já existentes como a salmonela ou a E. Coli proliferam e opõem maior resistência a antibióticos sob temperaturas mais quentes.

Apesar da severidade destes e de outros problemas identificados, o relatório contrapõe numa nota otimista que muito se pode fazer com o conhecimento atual e as soluções já disponíveis — mas isso exige uma vontade política férrea que ainda não se impôs. Reduzir as emissões de gases com efeito de estufa de forma a evitar um aumento de temperaturas superior a 2 graus Celsius reduzirá muito os efeitos mais graves sobre a saúde. A Easac aponta também para os efeitos positivos de uma descarbonização da economia: se se conseguir cortar nas emissões de carbono, afirma, isso permitirá reduzir a quase zero as 350 mil mortes prematuras registadas todos os anos na Europa devido a poluição atmosférica.

Com este relatório, a Easac reforça uma mensagem que a Organização Mundial de Saúde já tinha dado em Dezembro passado. Num relatório que também analisou os danos das alterações climáticas na saúde pública, nesse caso a nível global, a OMS afirmou que conter as alterações permitiria salvar um milhão de vidas por ano, número que considerou um imperativo moral para agir.

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