Credibilizar o BE

26 de junho 2011 - 0:12

Contributo de José Augusto Cardoso Pinto

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As acções mais faladas quando se procura explicar o mau resultado eleitoral: o apoio a Manuel Alegre, a moção de censura e a recusa em reunir com a “troika”, são importantes sobretudo pela interpretação que lhes foi dada pelos eleitores.

Embora me pareça que os resultados eleitorais no contexto actual não seriam muito diferentes sem estes três casos, dada a ameaça de apocalipse que se instalou e considerando as características de enraizamento do BE, parece-me importante aproveitar algumas lições.

Jogadas políticas

O conjunto de princípios, ente os quais a verdade e a honestidade, que davam ao BE uma imagem diferente e mais positiva, foi abalado. Afinal no BE também eram calculistas. Este foi o sentimento, embora o possamos considerar injusto.

Propostas inconsequentes

Por muito correctas que as propostas sejam, teoricamente, não serão apoiadas se as pessoas não as entenderem ou não as considerarem exequíveis, por muito bem aceites que estas sejam pelas elites.

Por muito boas que sejam as intenções e os programas, a ideia que é transmitida para quem vê as organizações de fora é sempre contaminada pela cultura dominante, que deturpa e cataloga a realidade à luz dos “princípios” dessa cultura.

Clarificação do alvo

As mensagens devem ser adequadas ao receptor a atingir, assim como os meios de comunicação utilizados. É importante que quando se pretende passar uma mensagem esteja claro qual é o alvo a atingir, em regra, a população em geral e os eleitores em particular. Mensagens que se destinam a grupos ou elites, devem ser devidamente endereçadas, evitando confusões.

Restauração da imagem do BE

Devem ser agendadas acções de informação ou formação, especialmente orientadas para o esclarecimento, credibilização e restauração da imagem.

Parece-me muito importante que o BE seja apresentado às pessoas nas suas linhas fundamentais, que o distinguem dos outros partidos, em particular na esquerda. Essa clarificação, se for bem feita, permitirá que o BE seja visto como a única via para uma sociedade verdadeiramente democrática e socialista.

Defesa das minorias

As lutas pela igualdade são fundamentais. Deve ser tido nestes casos especial cuidado para que as mensagens dirigidas à população em geral sejam devidamente enquadradas e formatadas. Por outro lado, deve ser evitada a confusão entre a defesa das minorias e a identificação com essas minorias. Exemplo: defender a despenalização das drogas leves não se deve confundir com a defesa do consumo de drogas leves.

Independentes

Considero que os independentes são uma mais valia para o BE, contribuindo para o seu enriquecimento e expansão. Relativamente aos candidatos independentes, para além de terem que se identificar com o programa eleitoral, não podem deixar de se comprometer com um conjunto mínimo de princípios ideológicos do BE. Simpatizantes menos comprometidos, podem ser enquadrados noutros tipos de aliança e cooperação.

Intelectuais desapontados

Há um fenómeno de inversão de posições em certos intelectuais, que apoiavam ou eram condescendentes com o BE, que corresponde à alteração do sentimento de uma parte da população. Parece-me que há aqui uma confiança defraudada, que os voltou contra aqueles que consideravam boas referências, ainda por cima raras. Os heróis não podem falhar! Há que desenvolver as ideias de tolerância e discussão democrática, destruindo o mito do herói e substituindo-o pelo humano, em constante evolução.