Está aqui

A cosa Bolsonaro

Jean Wyllys inspirou-se num texto de José Saramago sobre Berlusconi e adaptou-o, para mostrar o que lhe vai na alma sobre Bolsonaro. Este artigo foi publicado no Expresso. Wyllys revela que um grande jornal brasileiro elogiou o texto mas recusou-se a publicá-lo.
Jean Wyllys, foto de Antônio Cruz - Agência Brasil
Jean Wyllys, foto de Antônio Cruz - Agência Brasil

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, lembra muito o ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi, por ambos terem emergido politicamente após controversas e mediáticas operações judiciais que visavam combater a corrupção mas que acabariam por a aprofundar. Observando esta semelhança trágica na História, o escritor, jornalista e ex-deputado brasileiro Jean Wyllys, que se refugiou na Europa depois das ameaças de que foi alvo no seu país, inspirou-se num texto de José Saramago sobre Berlusconi e adaptou-o, para mostrar o que lhe vai na alma sobre Bolsonaro. O resultado é este artigo, que Wyllys revela que um grande jornal do Brasil elogiou mas se recusou a publicar, "um sintoma infeliz de que a democracia no Brasil país está mesmo ameaçada"

 

Os factos da História não se repetem, mas rimam como os versos de um longo poema. Ouvi mais ou menos isto de meu amigo Sidney Chalhoub, prestigiado historiador e professor na Universidade de Harvard. Também li afirmação semelhante em uma das falas de Tia Lydia, a odiosa vilã dos romances “O conto da aia” ["A História de uma serva" em Portugal]  e “Os testamentos”, da canadense Margaret Atwood, que descreve os horrores de uma teocracia cristã fundamentalista imposta à força a alguns dos Estados Unidos.

Sem sombra de dúvida, a ascensão da extrema-direita no Brasil no rastro da Operação Lava Jato rima bastante com a acensão da extrema-direita na Itália na sequência da Operação Mani Pulite. E ambas rimam com as ascensões do fascismo e do nazismo na Europa dos anos 30.

Sob a “scusa” de que estava erradicando a corrupção no Estado, a Mani Pulite destruiu a elite política italiana com a ajuda dos meios de comunicação hegemônicos locais, contraditoriamente abrindo o caminho para que o corrupto, autoritário e imoral Silvio Berlusconi se tornasse primeiro-ministro da Itália. Estes factos, que se sucederam no início dos anos 90, encontrariam rima perfeita no Brasil da segunda década do novo milénio, quando a Operação Lava Jato passou por cima do Estado democrático de direito para, com a cumplicidade dos meios de comunicação hegemônicos, acusar de corrupção uma parte da elite política brasileira e servir de base para que, contraditoriamente, o imoral, autoritário e corrupto Jair Bolsonaro se elegesse Presidente da República em 2018.

Pensando nessas rimas e após assistir à sucessão de mentiras, calúnias e difamações perpetradas por Bolsonaro contra os povos indígenas e quilombolas e contra os trabalhadores em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), eu decidi também rimar minha reação a este fascismo mal-disfarçado com uma reação do passado recente. Lembrei-me, então, de um texto sobre Berlusconi escrito pelo português José Saramago - Prêmio Nobel de Literatura e uma das minhas grandes referências literárias - a pedido de "El País", que o publicou em 7 de junho de 2009 em sua edição espanhola.

Decidi revistar este texto de Saramago numa espécie de paráfrase do mesmo, preservando o máximo possível as palavras do mestre, já que seus sentimentos em relação a Berlusconi rimam bastante com os meus em relação a Bolsonaro. Em minha tradução do original em espanhol, optei em preservar a palavra “cosa” como escrita em italiano e espanhol, já que, desta forma, a ela se agrega o sentido que tem em “Cosa Nostra”, a mais famosa máfia familiar italiana; e, além disso, a manutenção da palavra nesta grafia também serve de referência ao fato de a “famiglia” Bolsonaro ter vindo da Itália.

Eis minha rima:

A cosa Bolsonaro. Não vejo que outro nome poderia lhe dar. Uma cosa perigosamente parecida a um ser humano, que promove aglomerações e festas sob a pandemia e se comporta como se mandasse no país chamado Brasil. Esta cosa, esta doença, este vírus ameaça ser a morte moral do país de Machado de Assis se um vómito profundo não conseguir lhe arrancar da consciência dos brasileiros antes que o veneno acabe corroendo-lhes as veias e destroçando o coração de uma das mais ricas culturas latinoamericanas e afro-ameríndias.

Os valores básicos da convivência humana são pisoteados todos os dias pela pata viscosa da cosa Bolsonaro, que, entre seus múltiplos talentos, tem uma habilidade grotesca para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, a começar por “social” e “liberal”, que estão na sigla do partido com o qual assaltou ao poder, e passando pelas palavras “cristão” e Deus.

Chamo de delinquente a esta cosa e não me arrependo. Por razões de natureza semântica e social que outros poderiam explicar melhor que eu, o termo delinquente tem, na língua portuguesa falada no Brasil uma carga negativa muito mais forte do que em Portugal, onde se fala o mesmo idioma, porque, no Brasil, admiradores da cosa Bolsonaro costumam associá-la apenas aos pobres e aos pretos pobres em especial.

Para traduzir de forma clara e contundente o que penso da cosa Bolsonaro utilizo o termo na conceção que a língua de José Saramago vem lhe dando habitualmente, com a certeza de que este já a usou para qualificar cosas semelhantes. Delinquência significa, de acordo com os dicionários e a prática corrente da comunicação, “ato de cometer delitos, desobedecer leis e padrões morais”. A definição cabe na cosa Bolsonaro sem uma ruga, sem aperto, ao ponto de lhe parecer mais uma segunda pele que a roupa com que se veste.

Há anos a cosa Bolsonaro vem cometendo delitos de variada - ainda que sempre demonstrada - gravidade. Para completar, não é só que desobedeça as leis, mas debocha abertamente destas, sempre para salvaguardar os interesses privados de sua família e de empresários e políticos cúmplices, como os que apareceram ao seu lado rindo de suas insinuações de duplo sentido dirigidas a uma menina de dez anos. E quanto aos padrões morais, nem vale a pena falar, não há quem não saiba no Brasil e no mundo que a cosa Bolsonaro há muito tempo é abjeta por causa de sua homofobia, racismo, machismo e misoginia.

Este é o presidente do Brasil na atualidade. Esta é a cosa que a maioria dos votantes brasileiros elegeram como modelo em 2018. Este é o caminho da ruína a que, rasteiramente, estão sendo levados os valores de liberdade e dignidade que impregnaram a música de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, para citarmos os três mais conhecidos, e as ações políticas de Ulisses Guimarães e Dilma Rousseff, dois dos que fizeram da luta pela reconquista da democracia no Brasil um exemplo para toda a América Latina. É isto que a cosa Bolsonaro quer jogar na lata do lixo da História. Os brasileiros democratas permitirão?

Artigo publicado originalmente em expresso.pt a 1 de outubro de 2020

Termos relacionados Internacional
(...)