Não é segredo para ninguém que a fundação do Bloco de Esquerda partiu de 3 correntes políticas de esquerda que nos anos 90 correram sozinhas e sem expressão pública. E também não é segredo para ninguém que uma boa parte dos dirigentes do bloco nestes seus primeiros 12 anos provinham dessas 3 correntes. Não todos, verdade seja dita, na fundação esteve Fernando Rosas e muitas outras figuras importantes que nunca chegaram a integrar nenhuma corrente em particular. Ao longo destes 12 anos as 3 correntes mantiveram-se em funcionamento, mas estas 3 correntes fizeram uma escolha inicial que mantiveram até hoje – essa escolha foi dar prioridade absoluta a um projecto de unidade, o Bloco de Esquerda. E nestes 12 anos foi o projecto Bloco que se afirmou como o verdadeiro centro da política à esquerda. O Bloco foi o partido e impôs-se de forma quase soberana às correntes e às suas tradições históricas. Julgo que não me engano quando digo que foi sobejamente mais aquilo que o Bloco ensinou às correntes do que o que as correntes trouxeram ao Bloco. Mudaram-se formas de democracia interna, mudaram-se formas de organização, mudaram-se estratégicas e tácticas políticas e, nesta certamente não me engano, mudaram-se as próprias políticas e muitas das ópticas com que as correntes olhavam o mundo quando estavam isoladas. O Bloco assumiu uma personalidade própria acima das correntes, definiu um programa político extenso que é seu e de mais ninguém, criou uma cultura de expressão nova, formas de participação e intervenção nunca antes tentadas nos tempos das correntes. É por tudo isto que o Bloco é na prática um projecto que, não esquecendo as raízes das correntes e de todos os outros que nele viveram estes anos, é próprio, pioneiro e independente. O Bloco tem uma direcção que decide por si, onde no peso do voto e da opinião de cada um não está contemplado o factor corrente ou independente.
Mas, como dizia há pouco, as correntes mantiveram-se – fruto de proximidade ideológica entre os seus membros, fruto de projectos diferentes para o futuro do mundo, fruto de formas de estar e pensar diferentes sobre o que é a esquerda, a sua profundidade, a sua dimensão e a sua praxis. E as suas formas de organização interna podem até não agradar a muitos – é assim a diversidade e o pluralismo – pode até parecer mal que existam discussões prévias, soluções procuradas em conjunto no seu interior, concertação de estratégias, entre outras coisas, mas esse é o preço que pagamos pela democracia. E neste contexto só há uma garantia que temos de assegurar: a direcção do Bloco é o órgão de decisão supremo, nela participam todos e todas independentemente da sua corrente, ela é uma expressão diversificada das várias intervenções que o Bloco tem e assim o Bloco será mais democrático e plural com as correntes e com todos os outros e outras.
As correntes do Bloco não são nem indispensáveis ao partido nem nocivas para o mesmo – são expressão da democracia que o Bloco tem praticado e daquela que a maioria dos seus membros quer praticar. Eles são o resultado dessa liberdade e democracia interna, existem porque os militantes as querem manter, existem porque há essa necessidade, existem porque simplesmente há quem as queira organizar e dinamizar. Cada militante tem liberdade para formar uma corrente nova ou ajudar a destruir uma de que faça parte. Não se pode por isso decretar o fim das correntes, porque isso seria decretar o fim das nossas práticas democráticas, seria impor um limite à democracia que destruiria o projecto Bloco de Esquerda. Aniquilaria a diversidade política que o Bloco sempre teve, homogeneizaria hipocritamente diferenças que existem de facto, tornaria o Bloco um partido cinzento à semelhança do que a esquerda Portuguesa já tem há muitas décadas.
Evidentemente esta democracia e diversidade de que falo, podem e devem permitir a todo o momento que novas vontades levem à formação de novas correntes, de novas tendências, de novos espaços ou então ao fim das que já existem, se assim se entender. O que não se pode é decretar o fim das correntes para salvar o Bloco, isso seria uma solução desesperada para resolver um problema que não existe.