A Coreia do Norte anunciou quinta-feira que declara “nulo e de nenhum efeito” o tratado assinado com a Coreia do Sul e que se destinava a evitar conflitos no Mar Amarelo. Pyongyang, que nega qualquer envolvimento no afundamento do navio Cheonan, revelou no mesmo comunicado que bloqueará as comunicações nas zonas fronteiriças que estavam vocacionadas para funcionar em casos de emergência.
O regime norte-coreano Norte expulsou ainda oito funcionários sul-coreanos que trabalhavam num complexo industrial transfronteiriço.
A marinha da Coreia do Sul, por seu lado, iniciou manobras de incidência anti-submarina nas quais, segundo informações divulgadas pelo Pentágono, deverão participar igualmente meios militares norte-americanos.
A secretária de Estado norte-americana, cuja visita a países asiáticos coincidiu com a acusação sul-coreana de que o afundamento foi provocado por um torpedo norte-coreano, manifestou a sua solidariedade com o regime de Seul e acrescentou que a chamada “comunidade internacional” tem o dever e o direito de responder às “provocações norte-coreanas”
A Península a Coreia está de novo em pé de guerra e em plena escalada de tensão depois de a Coreia do Sul ter acusado o Norte de lhe afundar um navio militar dois meses depois de o incidente ter ocorrido. Os Estados Unidos querem juntar a China aos esforços de isolamento de Pyongyang, cujo regime se declara pronto para a guerra; exercícios militares conjuntos norte-americanos e sul-coreanos estão prestes a iniciar-se no Mar Amarelo; a Coreia do Sul impôs sanções e reactivou a propaganda contra o Norte; o Japão decidiu ceder aos Estados Unidos na questão da base de Okinawa; os mercados mundiais estão sobressaltados: as turbulências na Eurozona têm agora uma parceria asiática.
O incidente com o navio militar sul-coreano Cheonan, em 26 de Março, e do qual resultou a morte de 46 militares, manteve-se quase dois meses num impasse: a Coreia do Norte negou desde a primeira hora qualquer envolvimento no afundamento; a Coreia do Sul sustentou em aberto várias explicações para os acontecimentos, sobretudo quando se tratou de tentar explicar as circunstâncias das mortes às famílias das vítimas.
A poucos dias de se cumprirem dois meses sobre o afundamento do Cheonan, a Coreia do Sul decidiu-se por acusar directamente a Coreia do Norte de ter praticado uma agressão militar disparando um torpedo que aniquilou o navio em causa. Em apoio da sua tese, o regime de Seul apresentou um relatório de peritos segundo os quais a hipótese do torpedo “é a única explicação” e exibiu supostos restos do engenho que teria atingido o Cheonan.
A partir desta denúncia ficou ateado um novo incêndio na Península da Coreia. As duas partes trocam acusações, cortaram os laços que vinham desenvolvendo desde o anterior governo sul-coreano e enquanto os seus principais aliados apelam à contenção ambas dizem que estão prontas para a guerra.
Quem começou a crise? Parece haver quem não tenha dúvidas e assegure, como a administração Obama, que “a Coreia do Note deve pagar” por causa do “torpedo que lançou”.
Nem todos os factos relacionados com a situação estão, porém, ao alcance da generalidade das pessoas quando estas certezas são proclamadas. Aqui se enumeram alguns.
O relatório invocado pela Coreia do Sul foi elaborado por uma equipa de peritos dos seguintes países: Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Suécia.
A China não põe em causa a validade do documento mas afirma que se sentiria mais apta a reagir perante um “relatório independente”.
A Coreia do Norte firma que os restos do suposto torpedo são “pedaços de alumínio de origem desconhecida”.
Diplomatas não identificados citados pelas agências internacionais afirmam que, a haver torpedo, o disparo pode ter isso uma resposta ao ataque militar cometido em Novembro último por navios sul-coreanos contra um barco de patrulha norte-coreano que, alegadamente, teria violado águas territoriais do vizinho.
O anúncio das conclusões do relatório foi feito em vésperas de a secretária de Estado norte-americana, Hilary Clinton, iniciar uma viagem muito importante às principais potências asiáticas.
Na sequência desta visita, o governo do Japão decidiu alterar a sua promessa eleitoral quanto à renegociação da base militar norte-americana em Okinawa, assumindo a posição do anterior governo conservador e explicando que neste momento “o mais importante são os laços com os Estados Unidos” em função da situação na Coreia.
Em Pequim, onde abordou questões económicas e comerciais muito sensíveis com os seus anfitriões, Hilary Clinton apelou à China para se juntar ao previsível agravamento de sanções contra a Coreia do Norte.
A China apela à contenção entre as duas partes, de modo a encontrarem uma “solução pacífica” para o problema, duas semanas depois de ter reforçado um acordo de cooperação com Pyongyang superior a dez mil milhões de dólares na sequência de uma visita de Kim Jong-Il a Pequim.
O Pentágono decidiu juntar-se às tropas sul-coreanas nos exercícios militares orientados contra a Coreia do Norte em função “dos resultados das descobertas sobre o incidente de Março”, segundo o porta-voz da instituição.
A Coreia do Norte anunciou a suspensão das ligações e do comércio com a Coreia do Sul e a abolição dos acordos de cooperação.
A Coreia do Sul anunciou a suspensão do comércio, informou que vai apresentar o caso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e reactivou os mecanismos de propaganda hostil destinada à Coreia do Norte através de emissões de rádio, megafones nas zonas fronteiriças e gigantescos ecrãs electrónicos.
O actual governo sul-coreano do presidente Lee Hyung-bak é formado pelo Grande Partido Nacional, a organização político-militar de extrema direita responsável pelos governos ditatoriais durante o período da guerra fria.
A campanha de Lee Hyung-bak, em 2008, foi inspirada pelos sectores mais agressivos das forças armadas e do partido e centrada no combate à política de abertura à Coreia do Norte e de reunificação seguida pelo ex-presidente Kim Dae-jung.
A Coreia do Norte é, a par do Irão, o país sobre o qual recaem mais pressões internacionais conduzidas pelos Estados Unidos, que têm vastos efectivos militares no Sul da Península e armamento sofisticado com valências nucleares.
A Península da Coreia está dividida há 50 anos por um dos mais traumatizantes muros da cena mundial, causador de numerosos e profundos dramas humanitários em todo o território.
Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.