COP28: Os factos falam por si

03 de dezembro 2023 - 12:47

Acompanhar esta política com o diálogo sobre uma suposta "transição justa", pedindo aos governos neoliberais que "aumentem o nível de ambição", é um beco sem saída. Por Daniel Tanuro.

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Sultão Ahmed Al Jaber
Sultão Ahmed Al Jaber. Foto COP28/Flickr

1. O Sultão Ahmed al-Jaber, Presidente da COP e da Companhia Petrolífera dos Emirados, terá 15 reuniões durante a COP com vista à celebração de contratos de venda de petróleo com vários países, incluindo o Brasil, o Egipto, a China e a Alemanha;

2. O mesmo al-Jaber é diretor executivo da MASDAR, a empresa dos Emirados que investe em energias renováveis. Pouco antes da COP, a empresa inaugurou um gigantesco campo de painéis fotovoltaicos no meio do deserto. A empresa também é especializada na captura e sequestro de carbono. Pretende promover estas "soluções milagrosas" durante a COP. O objetivo: mostrar que é possível vender petróleo e fazer a "transição energética";

3. Um membro da família reinante dos Emirados Árabes Unidos assina um acordo com a Libéria que permite aos Emirados adquirir a capacidade de absorção de carbono de 10% das florestas do país durante 30 anos. Foram assinados outros acordos com outros países africanos. Os Emirados poderão assim vender créditos de carbono aos capitalistas de todo o mundo, que procurarão "compensar" as suas emissões (resultantes da combustão do petróleo vendido pelos Emirados) para atingir o "net zero" em 2050. Em suma, o movimento perpétuo do lucro;

4. Os trabalhadores imigrantes dos Emirados trabalharam durante vários dias ao sol do meio-dia, a uma temperatura de 42°C, para terminar as obras do centro que acolhe a COP. Nota: Estas condições de trabalho são ilegais, mesmo à luz da lei dos Emirados...

5. As negociações para a criação do fundo de "perdas e danos" acordado em princípio na COP27 não deram em nada devido à intransigência dos países capitalistas mais desenvolvidos, liderados pelos EUA. A China, a Arábia Saudita, os Emirados, a Rússia e outros preparam-se para tirar partido da situação para, hipocritamente, desempenharem o papel de defensores do "Sul" contra o "Norte"... e pagarem o mínimo possível pelas "perdas e danos";

6. Existem atualmente 51 milhões de milionários em dólares. Se as políticas neoliberais se mantiverem inalteradas, serão 511 milhões em 2050... e terão utilizado entre 75% e 100% do orçamento residual de carbono correspondente a um aquecimento de 1,5 °C;

7. Os neo-fascistas de estilo Millei-Wilders, na esteira de Trump, exploram por todo o lado a ineficácia E a injustiça social da política climática neoliberal para se apresentarem demagogicamente como os campeões da "liberdade", do nível de vida e da recusa dos "constrangimentos" (nomeadamente ecológicos). A sua negação cada vez mais explícita das alterações climáticas é equivalente a um ecofascismo crescente. Este facto constitui uma grande ameaça para as mulheres, os migrantes, os povos do Sul em geral e os trabalhadores.

A conclusão a retirar de tudo isto é clara: a política climática capitalista é fundamentalmente vendida aos lobbies dos combustíveis fósseis, antissocial, tecnocrática, anti-ecológica e imperialista. Através da sua ineficácia ecológica e injustiça social, esta política está a abrir uma nova avenida para a extrema-direita, da qual Trump e Putin são as principais figuras mundiais. Acompanhar esta política com o diálogo sobre uma suposta "transição justa", pedindo aos governos neoliberais que "aumentem o nível de ambição", é um beco sem saída.

A política climática neoliberal deve ser combatida em nome de uma alternativa ecossocialista: produzir menos, transportar menos, trabalhar menos, partilhar mais; decidir democraticamente o que se produz, como e porquê; satisfazer as necessidades sociais; ir buscar o dinheiro onde ele está, desenvolver o sector público, socializar a energia e as finanças, sair do agronegócio; viver melhor. É possível e é a única forma de fazer recuar a catástrofe ecológica, a regressão social e a vaga castanha. Não só o movimento ecologista, mas também os sindicatos, fariam bem em tomar consciência deste facto. Em tempo útil.


Daniel Tanuro é engenheiro agrónomo e nasceu na Bélgica. Fundou a associação “Clima e Justiça Social”. Tem artigos escritos sobre questões ambientais em várias revistas e jornais. É também autor de vários livros, nomeadamente “O impossível capitalismo verde” que se encontra traduzido em português pelas edições Combate. Texto publicado na sua conta Facebook. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.