A Cimeira ambiental que juntará os principais líderes mundiais para debater as questões relacionadas com as alterações climáticas começará no próximo dia 6 de novembro na estância de Sharm el-Sheikh no Egito. A partir desse dia, o escritor e preso político Alaa Abd El-Fattah, que tem estado em greve de fome há seis meses, deixará de aceitar água, uma decisão que faz temer que morra na prisão.
Alaa foi preso em 2014 e condenado a cinco anos de prisão devido a uma lista de acusações ligada a protestos não autorizados. Em setembro de 2019 voltou a ser preso e condenado a cinco anos de prisão por “espalhar notícias falsas”, de acordo com o regime de Abdel Fattah al-Sisi. Na verdade, foi preso pelo seu papel destacado na revolução de 2011 e por continuar a ser uma voz crítica, contrapõem as associações de defesa dos direitos humanos. A Amnistia Internacional, por exemplo, considerou o julgamento a que foi sujeito “grosseiramente injusto” e denunciou que sofreu “um catálogo de violações dos direitos humanos incluindo tortura e outros maus-tratos”.
Desde 2 de abril de 2022 que o ativista está em greve de fome. Até agora consumia apenas mel, chá e leite, o que vai deixar de fazer a partir desta terça-feira. Seguir-se-á a privação de água. Ao longo da sua estadia na prisão apresentou já várias queixas contra os maus-tratos a que tem sido sujeito. Alaa obteve nacionalidade britânica em 2021, devido à sua mãe ter nascido no Reino Unido, mas as autoridades britânicas não tomaram nenhuma medida no sentido de o proteger, segundo denunciam as suas duas irmãs que têm estado concentradas à porta do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Londres.
A situação dele motivou uma carta co-redigida pela maioria dos prémios Nobel da Literatura que estão vivos, seguindo um apelo dos seus editores britânicos da Seven Stories Press. Assinam Svetlana Alexievich, JM Coetzee, Annie Ernaux, Louise Glück, Abdulrazak Gurnah, Kazuo Ishiguro, Elfriede Jelinek, Mario Vargas Llosa, Patrick Modiano, Herta Müller, Orhan Pamuk, Wole Soyinka e Olga Tokarczuk. E juntam-se-lhes o prémio Nobel da Química, George P. Smith, e o prémio Nobel da Física, Roger Penrose.
Nela escrevem que “Alaa gastou os últimos dez anos – um quarto da sua vida – na prisão, devido às palavras que escreveu. Como vencedores do Nobel, acreditamos no poder das palavras para transformar o mundo – e também as temos de defender se quisermos construir um futuro mais sustentável e genuinamente mais justo”. E instam os dignitários internacionais que participarão no evento a “nomear os presos, a apelar à sua libertação e a convidar o Egito a virar a página” e a “não usar a desculpa do pragmatismo para evitar estas questões difíceis”. Querem que se use esta oportunidade “para ajudar os mais vulneráveis, não apenas os que enfrentam as águas dos mares a subir mas também os presos e esquecidos”, especialmente no próprio país anfitrião.
Os laureados com o conhecido galardão literário protestam assim também em nome dos outros 60.000 presos políticos egípcios, um número calculado pela Human Rights Watch. A este se juntaram recentemente pelo menos mais 67 pessoas, diz Mohamed Lotfy, diretor da ONG, Comissão Egípcia para os Direitos e Liberdades. As detenções foram uma resposta a um apelo a protestos anti-governamentais que circulavam nas redes sociais. Alguns deles, mais uma vez, foram acusados de divulgar notícias falsas. No domingo também foi detido e interrogado durante horas um ativista indiano, Ajit Rajagopal, que pretendia fazer uma marcha solitária de protesto até ao local de realização da COP.
De acordo com testemunhas citadas pela Reuters tem havido um aumento de pontos de controlo securitários no país, com as autoridades a verificarem o conteúdo de telemóveis. O governo fez entretanto saber que vai haver uma “área de protestos” junto a uma auto-estrada e longe da conferência, numa zona de deserto. Para entrar nela, cada um dos manifestantes terá de se registar e só ali podem existir manifestações.
O governador de Sinai do Sul, o major general Khaled Fouda, gabou-se recentemente a uma estação local de que qualquer visitante durante a COP irá ser revistado minuciosamente e que os 500 táxis destinados à cimeira vão estar equipados com câmaras ligadas a um “observatório de segurança”.
A aplicação oficial da cimeira, que os participantes serão convidados a descarregar para os guiar, também está a levantar dúvidas. Especialistas em tecnologia que trabalham para a Amnistia Internacional analisaram-na e dizem que pode ser usada para espiar porque autoriza acesso à câmara, microfone, dados de localização e Bluetooth.
Hossam Baghat, da Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais, denuncia que a cimeira é organizada na estância de luxo, longe do Cairo porque “eles não querem que os egípcios interajam com o mundo nem que o mundo interaja com os egípcios”. E acrescenta: “uma das maiores razões para serem anfitriões da COP é o greenwashing, para esconderem os crimes que estão a acontecer dentro do país”.
Greta não vai à COP
A mesma palavra é empregue num outro sentido pela ativista ambiental Greta Thunberg para justificar não estar presente nesta COP. A jovem ambientalista sueca diz que não vai “por muitas razões” mas que, de qualquer forma, “o espaço para a sociedade civil este ano é muito limitado".
Durante a apresentação de um livro seu em Londres, que conta com contributos como os do economista Thomas Piketty, do dirigente da Organização Mundial de Saúde Tedros Adhanom Ghebreyesus e da escritora Naomi Klein, considerou que esta será “uma oportunidade para os líderes e as pessoas no poder terem atenção, usando muitas formas diferentes de greenwashing”. Estes irão assim continuar a “mentir e trair”, não havendo “um verdadeiro propósito de alterar todo o sistema”.
Greta também não esquece os “presos de consciência” egípcios, apelou à sua libertação e assinou uma petição em solidariedade com eles que junta para além de assinaturas individuais as de grupos de defesa ambiental como a Climate Action Network e de direitos humanos como a Amnistia Internacional.