Contributo para um debate necessário

29 de junho 2011 - 0:56

Contributo de Avelino Freitas

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Bom, e aqui estamos chegados a uma discussão, que desejávamos nunca vir a existir no seio do BE.

Começaria por uma sugestão, antes de passar à minha interpretação das razões deste desastre eleitoral, e que caso aceite, deveria e de imediato seguir para a distrital, na forma de proposta.

Proponho assim, que desta discussão, ou no caso de outra que se deva considerar como necessária, deveriam ser nomeados dois ou três camaradas que sintetizem as principais ideias/razões desta nossa discussão como é muito importante, que apontem caminhos de futuro para o BE. Será assim possível, que na futura discussão na distrital, as intervenções tivessem mais tempo, e não os tradicionais três minutos, enriquecendo a mesma de forma organizada. No entanto, deverá ser acautelada, nesta decisão a ser votada, que na assembleia distrital deva ser tido em conta as intervenções de aderentes, amigos e simpatizantes, que não se encontram enquadrados nas estruturas concelhias, permitindo assim uma saudável discussão democrática.

Introdução às razões de uma derrota eleitoral

Pretendia, nesta minha análise, começar pela própria organização/funcionamento interno do BE, (distrital e nacional) por estar convicto que neste factor, residem algumas das razões, que nos levaram a chegar a uma fase política muito difícil, nomeadamente na participação activa de militantes, simpatizantes e amig@s.

É por demais evidente, que alguns dirigentes se têm perpetuado em órgãos de direcção política e gestão distritais, fruto de grupos/tendências organizados, sendo uns mais organizados que outros. Basta olhar às listas de candidaturas a órgãos distritais e nacionais, para constatar que são fruto de uma estratégia bem definida que precede as assembleias eleitorais. Legitimamente perguntarão, qual o mal desta situação, quando existem tendências organizadas e previstas na organização do BE? Têm razão, toda a razão. Mas acontece que a influência, sempre decisiva destas tendências, é castradora da acção de muit@s militantes, aderentes e simpatizantes do BE, que por uma ou outra razão decidem não se aproximar/aderir a estas forças organizadas dentro do nosso movimento. Est@s decidem-se assim por se afastarem, empobrecendo o debate de ideias, ou colocarem-se numa postura de certo distanciamento, outras de afastamento definitivo. Não querem perceber, estas tendências, a sua cegueira política para atingir as suas finalidades, gerando desconfianças e jogos de cintura que às vezes são caricatos, atingindo o seu auge, nos critérios para listas de deputados como órgãos distritais e nacionais. Dou um exemplo flagrante desta cegueira política. Como é possível colocar a cabeça de lista por Braga (distrito), um dirigente de Lisboa que vai a este distrito de quando em vez? Não tem Braga ninguém, reconhecidamente inserido na intervenção cívica no distrito e lá residente? E que dizer de organismos distritais e concelhios que têm militantes que se perpetuam nestes órgãos, desde a fundação deste movimento? Mas a caricatura da insensatez atinge os limites do admissível, quando se procede à elaboração das listas para as autárquicas. Estas começam dois meses antes, e começa o frenesim de saber quais os aderentes inscritos, na freguesia tal, e pedir a estes se querem ser candidatos à presidência da junta de freguesia ou fazer parte das listas. Saber se estes são exemplos éticos dos valores de esquerda? De intervenção local ou concelhia? A quantas assembleias de freguesia ou municipais, muitos destes candidatos foram? Não, não existe nenhum critério, por mínimo que seja. Que esquerda nova é esta? Mas voltando às tendências e grupos e grupinhos, estes ao longo dos anos foram tecendo teias de cumplicidades, e que vêm a cair nas próprias teias tecidas. Veja-se os acontecimentos recentes e mais mediatizados, pelas piores razões, por ditos “independentes”, que não têm mínimos de ética política. São necessários? Claro que são, mas com intervenção sincera, frontal e não precursores de políticas estranhas, diria hostis ao projecto do BE.

Mas não se fica por aqui os gravíssimos erros de gestão interna no BE. Estes passam por uma gestão desastrosa diria quase criminosa de materiais de propaganda, que se ficam pela sede distrital em montanhas (sem exagero algum), nomeadamente jornais. Talvez muitos não saibam que estes são pagos pelos contribuintes (financiamento de partidos com assento parlamentar) como europeus, via financiamento do Parlamento Europeu. Mas penso que se atingiu os limites do aceitável desta desorganização, na campanha que agora se realizou. Atitudes arrogantes, indignas de quem defende valores de esquerda.

Acções precipitadas e sem impacto algum e manifestamente fruto dos interesses de algumas tendências organizadas dentro do BE, que utilizaram o Louçã como uma “marioneta” ao seu serviço. Aliás, nesta campanha, assisti a situações que consideraria caricatas (veja-se a acção em Matosinhos), se não se tratasse de uma fase política da maior importância. Para terminar este ponto, acrescentaria, que não sucedeu nada que não tivesse previsto e vertido (num e-mail), enviado em finais de Março ao coordenador nacional, em que sugeria uma estratégia a completar o mesmo.

Mas e mais grave, o BE a nível nacional ou regional, não presta contas aos seus aderentes como votantes das suas contas internas. Quanto recebe o BE via Parlamento Nacional ou Europeu? Quantos funcionários e assessores possui? Quantos apoios recebem, para organizações de iniciativa do BE? E nesta área, que influência têm os tais grupos e tendências? O que se faz ou não destes valores. Quais as razões desta opacidade de divulgação, numa esquerda que se diz nova, rigorosa e com valores? Nós que tanto falamos de rigor e transparência (e bem), internamente agimos como partidos de poder com os vícios inerentes.

Razões de um desatre anunciado

Num documento que tinha preparado, para ler na assembleia distrital que antecedeu as eleições, mas que devido ao tempo permitido, não me foi possível ler na íntegra, alertava que nestas eleições se jogaria o futuro do BE. No entanto, apontava caminhos alternativos de rápida intervenção, para diminuir eventuais consequências de políticas negativas. Apesar de nunca ter proferido uma única opinião, acerca de quais seriam as minhas perspectivas de resultados. Sempre referi que a minha curiosidade seria os resultados da abstenção, votos nulos ou brancos.

2009 Eleições

Fruto de uma campanha sem precedentes contra os professores, veio o Bloco a ser uma força em que esta classe apostou o seu voto. E não esquecer que um professor representa (regra geral) uma família, como um grupo de familiares e amigos. Estou convicto, que esta classe profissional, teve um peso importante na votação de 2009. Mas que aconteceu depois da campanha eleitoral? Os sindicatos (Fenprof), onde o BE reparte as direcções nomeadamente com o PCP e alguns elementos do PS, traem algumas das reivindicações da classe, em negociações com o Governo. E nunca esquecer um detalhe de enorme importância. São os professores, que via internet blogues e mensagens via telemóvel, se começam a mobilizar e os sindicatos (Fenprof/outros) , vão a reboque.

Acontece que desde as últimas eleições, o BE colocou na sua agenda, prioridades muito questionáveis e pouco reflectidas em acções de agitação e propaganda que reflectissem uma estratégia Parlamentar. Na sua agenda coloca de forma precipitada um apoio, a um candidato às presidenciais, que nem de perto seria consensual nas suas bases de militantes, simpatizantes ou amigos. Aliás foi bem claro o fraquíssimo empenhamento dos militantes nesta campanha. Face a uma política neoliberal, que estratégia traçou o BE? Precipitadamente, como é hábito nas autárquicas, não começou a definir a sua estratégia com a devida antecedência na procura de um candidato consensual aos diversos sentires de uma esquerda que se quer com valores e nova. Já imaginaram o que sentiram os amigos, aderentes e simpatizantes do BE ao verem um odioso Sócrates nesta campanha? A atrapalhação de muitos, quando interrogados por amigos deste apoio? ”Vocês estão malucos? Andam numa campanha com este ordinário?” Bom, os resultados finais foram desastrosos. Mas pior, um candidato que ao manifestar um apoio inequívoco a Sócrates nestas eleições vem a manifestar hostilização política ao BE. Falhou uma tentativa de captar um certo eleitorado do PS e do PCP. Mas esta desorientação, já teve início nas autárquicas, com um apoio em Lisboa, a um candidato que sempre procurou um protagonismo pessoal, e que curiosamente, tem muito em comum (em estratégias, para obter um fim), com o Manuel Alegre. Cá nos defrontámos com outro desaire, neste caso o começo de alguns erros de estratégia. Mas seguiu-se uma outra estratégia. Qual foi ela? Apostar num combate parlamentar, e falta de acção de rua, debates com a população, com a realização de acções de esclarecimento, por ex. em Juntas de freguesia. Ou seja, uma tentativa de aproximação à população. Mas, se iniciativas existiram, estas foram maioritariamente centradas em sectores intelectuais, jovens universitários (que vivem em pequenos grupos) e não representativos da população estudantil. E mesmo nesta área (intelectual) o BE teve iniciativas meritórias, pela sua qualidade, que foram um fiasco e uma falta de respeito para com os convidados. Dou como exemplo o debate sobre a Ciência no Planetário do Porto. Quando interroguei um funcionário do Bloco (Porto), sobre esta iniciativa, e se esta tinha sido divulgada nas faculdades e centros de investigação ou nos jornais universitário existentes, a resposta foi: Não sei de nada. Isso é com os deputados europeus e os jovens!!! Esclarecedor de uma excelente organização.

Entretanto os erros foram-se acumulando. Uma moção de censura atrasadíssima, deveria ter sido efectuada três ou quatro meses antes, e bem fundamentada. Mas perante uma decisão do secretariado do PCP ou declarações de Jerónimo de Sousa, o BE toma e precipitadamente a decisão da moção de censura, passadas que foram menos de 24 horas, de dizer que não seria oportuna! Fez lembrar o pelotão da frente, a chegar à meta. Ou seja, no fundo a mensagem era a seguinte: vamos mostrar ao eleitorado tradicional do PCP/CDU, quem de facto mostra serviço, na luta com este governo. Novo erro, poucos perceberam a oportunidade desta iniciativa. Mas de seguida tivemos a célebre recusa do BE , em se reunir com o FEE/FMI. Nada, mas mesmo nada justifica esta recusa. Poderíamos lá ter ido, e de seguida convocar uma conferência de imprensa para denunciar os propósitos desta comissão e divulgar que o BE lá tinha ido para reafirmar as suas posições e entregar as suas propostas alternativas. Mas, reafirmando que a sua posição seria a de discutir com o Governo, como representante legitimo do Povo Português. Simples, e a população entenderia, de outra forma as nossas posições.

Notas da Resolução da Mesa Nacional

Resultados eleitorais

Tenho uma análise bastante subjectiva, uma vez que nesta fase deveria de ser bastante mais profunda e tentar perceber, as razões profundas que nos trouxeram até aqui. Nomeadamente nos pontos 5, 7e 8 são reveladores do que afirmo. Estranhamente esta análise remete para o seu ponto 12 (último s/ resultados eleitorais),e em apenas 5 linhas, uma análise que só refere como erros estratégicos a questão do Alegre. Ou seja, este ponto deveria condensar todas as estratégias de uma política errante, que se foram desenvolvendo desde e pelo menos 2009.

Fala-se da incompreensão do eleitorado (ou seja desta enorme maré de votantes). Não compreendeu o BE, quem seria esta massa de votantes. Na realidade, estes votos vêm de sectores informados, uns melhores que outros é certo, mas na generalidade bem informados. Quem não compreendeu este novo eleitorado foi a Direcção política do BE. Mas a direcção política, não assume no documento uma atitude auto crítica de uma análise que se desejava.

O novo quadro político

No seu ponto 14, aponta para uma possibilidade (remota), do PS acompanhar, por pressão parlamentar, posições do BE. Um PS cuja bancada parlamentar, foi escolhida a dedo por uma direcção política neoliberal. Na realidade, seja um Assis (que acredito o Passos Coelho, não o queria ao lado pela sua postura de caceteiro político ultra-liberal) seja um Seguro oriundo de um aparelho viciado e dominado por interesses de grupos económicos. O BE vai enterrar-se politicamente se mantiver essa postura. Deve o BE, como sua grande prioridade, levar urgentemente à prática o ponto 20 desta Resolução, que me parece o mais lúcido da análise.

No entanto, esta resolução, não refere uma única vez, que a par da auditoria pública, se deve dar prioridade á criminalização dos responsáveis do desbaratamento dos dinheiros públicos e o favorecimento obsceno de grupos económicos, nomeadamente das PPP. Deveria o BE, encetar todos os esforços, para junto da comunidade jurídica, explorar esta possibilidade, como um imperativo político da maior importância.

No entanto, no seu ponto 19, dá como uma das frentes de luta prioritária, e por exemplo, a legalização das drogas leves e adopção! Num quadro político de enorme gravidade para quem trabalha, que vai assistir ao desmantelamento, a uma velocidade nunca vista, de direitos de quem trabalha ou está no desemprego, do SNS etc. Julga o BE que alguém vai compreender estas propostas? Será este o momento oportuno, de apresentar propostas socialmente ditas fracturantes?

Para finalizar, deve o BE e urgentemente começar uma verdadeira reorganização interna, desde o começo de debates nas concelhias, que apontem para uma grande e profunda alteração das suas direcções, refrescando as mesmas, com a entrada de novos elementos que tragam a diversidade de pensamento e debate. Para tal é necessário que tod@s aqueles que estão há vários anos nestes órgãos, sejam os primeiros a dar um passo para esta revitalização necessária e necessariamente com a colaboração e empenho destes. Que se valorize tod@s aqueles que vivem a realidade quotidiana dos vários sectores sociais, como fundamental para se tomar decisões/análises reais, das áreas geográficas das concelhias.

Não sou adepto nem apoio tod@s aqueles que apelam a demissões, nomeadamente do Coordenador Nacional, mas sim e respeitando os estatutos se proceda a uma recomposição de diversos órgãos do BE a nível nacional.

Agora o que temos de fazer?

Penso que um retorno ao programa fundador do BE, pois lá está tudo muito bem explicado. Mas, deve-se excluir os “privilégios” de representação dos partidos e movimentos fundadores, na constituição de listas para todas as finalidades, que aliás teoricamente não existe. Mas para quem esteja atento, sabe que estes “privilégios” são um facto, a que se devem acrescentar grupos e grupinhos, que já referi quando abordo as teias de interesses que se foram desenvolvendo. Movem-se sem frontalidade, ética e valores de uma esquerda Socialista.

Ou seja, refundar o BE, como uma força de esperança para um Povo sofrido, que o Louçã muitas vezes tão bem explicita. É por este Povo sofrido que existimos e lutámos. Não pedimos nada em troca, pela nossa dedicação e luta, pois ela é genuinamente sincera. E quem não se reveja nesta orientação, está profundamente enganado e em nada contribui, muito pelo contrário para este projecto. Por estes motivos, é que somos militantes de uma esquerda nova, com valores e ética Socialista.

Lino (concelhia de Matosinhos)

Militante activo de causas sociais, ardina e colador de cartazes activo. Pois não sou só militante de assembleias.