Nas últimas eleições legislativas, o Bloco de Esquerda sofreu uma derrota pesada.
Nós, apoiantes e aderentes do partido, podemos estar mais ou menos de acordo nos adjectivos que utilizamos para caracterizar esta derrota, mas ela é incontornável.
Exige-se um debate amplamente participado para reflectir sobre as causas deste resultado e definir a nossa estratégia no novo ciclo político que agora se inicia.
A resolução da nova Mesa Nacional - que reuniu pela primeira vez no passado dia 18 de Junho - traz-nos bons sinais.
Os(as) dirigentes do partido reconhecem um erro de estratégia («A direcção do Bloco sobrestimou as capacidades de indignação imediata contra a recessão e subestimou o medo entre os sectores mais atingidos pela crise») e a incompreensão do eleitorado relativamente a algumas decisões tomadas antes e durante a campanha eleitoral (o apoio à candidatura de Manuel Alegre, a moção de censura ao governo e a não-comparência na reunião com a troika).
Mais importante ainda: os(as) camaradas da Mesa Nacional valorizam o debate sem ceder o mínimo que seja a soluções de tipo justicialista e de apetência suicidária (como, por exemplo, pedir a demissão dos órgãos eleitos e convocar de imediato uma Convenção Extraordinária).
Os próximos tempos serão assim tempos de discussão dentro do Bloco e - não tenhamos ilusões - os seus episódios terão fortes repercussões mediáticas.
Prestar contas é também isto: abrir a ferida e colocar o dedo onde dói mais, à frente de toda a gente e durante o tempo que for preciso.
Desde que haja respeito pela opinião dos outros e vontade de construir um projecto comum, não vejo razão para que o debate não possa ir longe.
E ir longe significa - a meu ver - falar dos problemas que ainda não conseguimos superar, das contradições que nos atravessam, dos enormes desafios que temos pela frente.
Em primeiro lugar, a implementação local.
O crescimento eleitoral do partido e o aumento do número de aderentes não tem tido a correspondência desejada no reforço das estruturas concelhias.
A menos que o trabalho autárquico esteja condenado a ser o «parente-pobre» da nossa estratégia política ou que sirva apenas - como já ouvi dizer dentro do partido - para «tomarmos consciência do quão diferentes somos dos outros», parece-me evidente que temos de envolver mais pessoas a nível local e criar condições para que estas sintam que a sua voz e o seu esforço contam para o Bloco de Esquerda.
Em segundo lugar, a identidade comum e a democracia interna.
Tendo aderido ao movimento há menos de dois anos, fiquei algo admirado com o peso das tendências/correntes na vida interna do Bloco.
Sempre me orgulhei de fazer parte de um partido plural, cuja riqueza é função das diferentes sensibilidades ideológicas que o fundaram e que o compõem, mas não posso de modo algum aceitar as assimetrias no acesso à informação e na participação em listas eleitorais que o peso - a meu ver - desproporcionado das tendências/correntes acaba por gerar.
Ao fim de 12 anos, o projecto comum não deveria ser já mais forte do que o jogo de forças entre facções?
Em terceiro lugar, mas não menos importante, a nossa política de alianças e convergências à esquerda.
Vários exemplos (um vereador municipal que deixou de fazer falta, um candidato presidencial que conseguiu ter menos votos com o apoio de dois partidos do que sem eles e agora um deputado europeu que se desvinculou da nossa delegação) mostram que a política de alianças e convergências do Bloco não tem tido o sucesso esperado.
Porque os tempos que correm exigem uma «esquerda grande», temos de reflectir sobre o que estamos a fazer mal, assumir as nossas responsabilidades e mudar o que tem de ser mudado para que as coisas corram melhor na próxima vez.
Com o contributo de todas e de todos, o Bloco de Esquerda será novamente uma estrelinha de esperança num futuro melhor.
Daniel Figueiredo (BE/Sintra)
22 de Junho de 2011