1 – Factos e questões relevantes sobre a votação nestas eleições
- Aumento da abstenção. - Maioria esmagadora da votação somada nos três partidos do dito “arco da governabilidade”, o que significa que os portugueses referendaram os acordos com a “troika”, mesmo tendo a noção de que os mesmos lhes são muito prejudiciais. Portanto aceitaram, mais uma vez, o “discurso da inevitabilidade”.
- No âmbito desta opção os eleitores penalizaram fortemente o PS, que sofreu uma derrota de grande envergadura. Contra o PS convergiu, certamente, a maior parte do descontentamento resultante da sua política anti-popular, ajudada pela postura e descrédito de José Sócrates. Aceitando, contudo o discurso da inevitabilidade, os eleitores viraram-se para a direita, negligenciando a votação no PCP, mas sobretudo no BE.
- O PCP conteve o desgaste daí resultante, embora se deva salientar que também perdeu votos em relação às anteriores eleições legislativas. Não vejo outra explicação para além da que tem sido divulgada, ou seja, que essa contenção se deve fundamentalmente à relativa estabilidade do seu eleitorado. Menciono, também, mais do que uma opinião em favor do estilo popular e da clareza da linguagem do Jerónimo de Sousa. - Quanto ao Bloco tiro uma conclusão: os seus apreciáveis ganhos eleitorais dos últimos anos não estavam consolidados e, essencialmente por isso, não resistiram ao aperto que a actual situação colocou aos portugueses em geral. Na minha opinião, a confiança na política do Bloco implica, no contexto vigente, uma convicção acima da média (actual) sobre os motivos pelos quais essa política é correcta no essencial. Ficou demonstrado que não é assim.
2 – Sobre a política do Bloco
- Será mesmo correcta, no essencial, a política do Bloco? A questão de fundo tem sido mais do que debatida e prende-se com dois aspectos fundamentais e interligados: Deve o Bloco capitular face ao neoliberalismo vigente? Nesse contexto poderia não rejeitar o acordo com a troika (o tal que foi referendado, a gosto ou a contra-gosto, pela grande maioria dos eleitores)?
- Para mim, o Bloco negar-se-ia a si próprio se capitulasse e, consequentemente, aceitasse o acordo com a troika. Nesta base, e pensando (parece-me evidente) que o povo português não está ganho para perspectivas mais avançadas, continuo a pensar que a política do Bloco é correcta no essencial. E á evidente que o foi para a grande maioria dos delegados à recentíssima VII Convenção. O importante e complexo problema de fomentar a democracia participativa no seio do Bloco não pode, na minha opinião, sobrepor-se ao que acabo de afirmar.
- Duas notas:
- Não vou gastar tempo com as posições veiculadas pela ex-moção C da Convenção. Têm sido mais do que debatidas. Claro que, se perceber que será necessário, entrarei também nessa controvérsia.
- Em compensação, parece provável a existência de uma corrente de opinião no Bloco, que não apareceu na Convenção, mas que se manifestou, entretanto, via posições públicas de Daniel Oliveira e Joana Amaral Dias, aliás com antecedentes. Será bom que, tanto o Daniel, como a Joana, como mais alguém que com eles concorde se clarifiquem face às questões que enunciei no início deste ponto 2. Não aceitável é pedir a demissão da Direcção do Bloco sem demonstrar que a política aprovada na VII Convenção esteja errada.
3 – Terá a boa política sido mal aplicada?
- Têm, sobretudo, havido três pontos polémicos:
- O apoio ao Manuel Alegre – na minha opinião, qualquer confusão com o PS não poderia subsistir perante as críticas e posições públicas do Bloco face ao governo e à sua política. Penso que a questão não é assim tão relevante no que toca a estas eleições. - A questão da moção de censura – apoiei e continuo a apoiar a moção de censura. À posteriori formulo uma interrogação: não teria sido possível envolver a Mesa Nacional numa decisão que mandatasse a Comissão Política para, certamente em conjunto com o Grupo Parlamentar, fazer avançar uma moção de censura ao governo quando achasse mais conveniente? De qualquer modo, quem criticou, dentro do Bloco, a moção de censura deve também posicionar-se sobre a rejeição do PEC IV que serviu de pretexto ao governo para se demitir.
- A não ida às audições da troika – compreendo bem de mais os nossos motivos. Hoje, à posteriori, tenho dúvidas, apesar disso, se não teria sido preferível ir ao beija-mão e vir logo dizer que não era possível qualquer acordo com as correspondentes medidas. - Para além destes pontos considero ainda que a campanha do Bloco, sem fugir ao que foi, devia ter posto mais ênfase nas medidas do programa do Governo de Esquerda (VII Convenção) para se sair da crise. Numa conversa recente com uma simpatizante, em que me limitei a ouvir, confirmei (por outras palavras) esta minha convicção.
4 – Conclusão
Em face do exposto em 2. E 3., concluo que a derrota do Bloco era inevitável face à desorientação e ao medo do eleitorado, que, insisto, referendou o acordo com a troika. Uma óptima (inimiga de “boa”) condução táctica conseguiria, porventura, limitar estragos e, quem sabe, eleger mais algum deputado. Na minha opinião não alteraria o fundo dos acontecimentos. Independentemente disso o Bloco devia e deve prosseguir com a política aprovada na VII Convenção.
5 – Que fazer na actual situação?
- Já foi dito que se pretende um Grupo Parlamentar de combate: sem dúvida! A acção a nível “institucional” continua a ser imprescindível.
- Na minha opinião, é necessário mobilizar os e as activistas do Bloco para intervirem nos Movimentos Sociais. Do meu ponto de vista, é claro que essa intervenção tem e terá de ser coerente com a política do Bloco, respeitando, será bom repetir, os “não bloquistas”. Ter em atenção que, sem Movimentos Sociais, acaba por não haver a tal “rua” que muito defendemos. Considero que, nesse sentido, cabe uma particular responsabilidade às “sensibilidades” dominantes entre nós. - É necessário fomentar a democracia participativa no seio do Bloco: Este é um debate sério que terá de ser feito. Uma primeira medida poderá ser organizar plenários distritais e/ou concelhios, precedendo as reuniões da Mesa Nacional, e garantindo que aquilo que lá se passar lhe seja comunicado. Obviamente a Mesa continuaria a ter poderes e mandato para formular as suas próprias opiniões e decisões para além do que acontecer nesses plenários.
Lisboa , 13 de Junho de 2011