Apresentado esta terça-feira no Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), em Lisboa, o estudo intitulado de “Scroll. Logo existo! Os comportamentos aditivos no uso da internet e das redes sociais”, alerta que há graves riscos de dependência no uso excessivo sob a forma de fuga como alternativa compensatória para aliviar sentimentos de culpa, ansiedade e depressão.
Segundo a investigação, “o problema não está no acesso. Ter acesso é uma característica do mundo contemporâneo que se estrutura a partir de dinâmicas de interação online”. O problema é quando o acesso descontrolado da oferta digital, internet e redes sociais contribui para um estado e alienação social, tornando-nos em “seres dependentes da vida digital, em detrimento das nossas relações de sociabilidade que implicam o contacto presencial”, lê-se no estudo.
“A digitalização das relações sociais está a mudar a forma como estruturamos as rotinas da vida quotidiana. A internet e as redes sociais que surgiram para nos ajudar numa diversidade de funções estão a tornar-nos seus servos. Esta adulteração do uso da tecnologia, que produz uma diversidade de comportamentos aditivos digitais, foi o ponto de partida para o desenvolvimento deste projeto de investigação”, assinala-se.
O estudo realizado por investigadores da Universidade Lusíada, onde foram inquiridos 1704 participantes em todo o país, maiores de 16 anos, alerta que “quase metade dos inquiridos (43,5%) afirmou ter utilizado a internet como forma de ‘escape’ ou para aliviar o seu estado psicológico, por exemplo, sentimentos de culpa, ansiedade, frustração, impotência, tristeza, depressão, enquanto 40,1% referem ter recorrido à utilização de redes sociais para o mesmo efeito.”, segundo o jornal Público.
O projeto de investigação conclui também que são os jovens (estudantes) e os jovens adultos (desempregados) os principais grupos de risco no uso do mundo digital, através de telemóveis e computadores. 79% dos jovens com 24 ou menos anos diz ter usado a internet como forma de “escape” e 73,6% diz ter usado as redes sociais para o mesmo efeito. Já a faixa etária dos 25 aos 34 a percentagem de inquiridos que diz ter acedido à internet como fuga foi de 66,5% e de 62,6% acederam às redes sociais.
O Instagram, o TikTok e o YouTube são as redes sociais mais usadas por estes dois grupos etários, sem contar com o WhatsApp, que parece ser transversal a todas as faixas etárias. Já o Facebook começa só a ser a aplicação favorita a partir dos 25 anos de idade.
"No caso destes dois grupos, o nível de irritabilidade aumenta quando estão desligados dos ecrãs”, comentou ao Público o professor e coordenador do projeto, Joaquim Fialho.
Em declarações à agência Lusa, Joaquim Fialho afirmou que o estudo "não dá um resultado de um alarme geral sobre a utilização dos ecrãs", mas aponta um conjunto de características que são transversais a todas as idades, situações profissionais e a todos os níveis de habilitações escolares.
"Quanto mais baixa é a idade, mais baixa é a escolaridade, e se cruzarmos estes dois atributos, os estudantes e a população inativa são aqueles que estão numa situação de maior exposição ao risco de dependência de ecrãs", salientou.
Também foi detetado "o transtorno de dependência de internet", que é a necessidade compulsiva de estar 'online, particularmente nas redes sociais, "como obtenção de prazer", para atenuar sentimentos de frustração, ansiedade.
Sobre as principais finalidades da utilização da internet, cerca de 91% dos participantes diz usá-la para consultar o email; 72,4% utiliza as redes sociais; cerca de 70% recorre à internet para estudar ou fazer pesquisas; cerca de 58,5% utiliza-a para lazer e diversão; 51% vê televisão, filmes, vídeos e ouvir música; apenas 44,7% a utiliza para ler jornais e revistas; 15,7% joga online; e 1,8% utiliza a internet para encontros amorosos.
"O melhor caminho passa por um trabalho de literacia para a utilização dos ecrãs”
Quanto às soluções e desafios apontados pelo estudo, passam sobretudo pela educação do modo como utilizamos a internet e não na proibição, como salientou Joaquim Fialho: “o desafio não está na privação do uso digital (…) em contexto escolar, nem em contexto laboral, mas sim na capacitação das pessoas para uma utilização saudável”.
“Nós sabemos que proibir não é o melhor caminho, o melhor caminho passa por um trabalho de literacia para a utilização dos ecrãs”, defendeu o investigador.