Está aqui

Consumo de analgésicos opióides cresce e preocupa autoridades

Em 2018 consumiu-se em Portugal 3,6 milhões de embalagens de analgésicos à base de ópio, mais do dobro que no início da década. Aumento do consumo tem sido constante e chama a atenção das autoridades de saúde.
Embalagens de Fentanyl, analgésico opióide centenas de vezes mais potente que a heroína. Apesar de ser muito útil na medicina, o seu uso recreativo é de grande risco e tem levado a um aumento de overdoses e mortes por todo o mundo, em especial nos EUA. Foto: Alcibiades/Wikimedia Commons.
Embalagens de Fentanyl, analgésico opióide centenas de vezes mais potente que a heroína. Apesar de ser muito útil na medicina, o seu uso recreativo é de grande risco e tem levado a um aumento de overdoses e mortes por todo o mundo, em especial nos EUA. Foto: Alcibiades/Wikimedia Commons.

O consumo de analgésicos à base de ópio está a crescer em Portugal e a despertar a atenção das autoridades de saúde. Segundo dados cedidos à rádio TSF pelo Infarmed, o organismo público que regula os medicamentos, em 2018 consumiu-se no país 3,685 milhões de embalagens de analgésicos opióides através do SNS, mais 255 mil ou 7,4% que no ano anterior. Em relação ao início da década, o consumo mais que duplicou: em 2010, consumia-se 1,532 milhões de embalagens.

O aumento tem sido constante ao longo da década e desperta a atenção das autoridades. O Infarmed adiantou à TSF que está a investigar o fenómeno em conjunto com a Direção Geral de Saúde (DGS). Já em 2017 o Infarmed fizera um alerta. Na altura, Henrique Luz Rodrigues, então presidente do Infarmed, declarou ao jornal i que o crescimento no consumo de opióides era preocupante e que a instituição estava a avaliar o que o poderia justificar, por exemplo nas práticas de prescrição de medicamentos. Três anos depois, a situação parece manter-se na mesma. Também em declarações ao i na altura, Ana Bernardo, da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, afirmava por outro lado que parte do aumento se deveria à melhoria dos cuidados de saúde, que passou a permitir o acesso a opióides a pessoas que antes sofriam de dor em silêncio durante anos.

Os opióides são um depressor do sistema nervoso com um poderoso efeito analgésico que é útil em casos extremos de dor onde outros produtos não funcionam, como em cancros e doenças degenerativas. Têm no entanto o problema de gerarem forte dependência e muitos efeitos secundários negativos. Desde as guerras do ópio no séc. XIX à morfina, heroína, e derivados mais recentes como o Fentanyl, os opióides têm colocado sempre dilemas agudos para os Estados e as políticas públicas. O seu uso é fortemente restringido em todo o mundo.

Nos últimos anos tem sido notícia a "epidemia de opiáceos" nos EUA. Práticas médicas de prescrição pouco criteriosa a pessoas que não precisariam de medicamentos tão poderosos, estimuladas por um sistema de saúde essencialmente privado onde as pressões comerciais são muito fortes, criaram um número preocupante de pessoas dependentes, uma vaga de mortes por overdose, incluindo celebridades como o músico Prince, e um enorme problema de saúde pública. Farmacêuticas enfrentam agora processos nos tribunais americanos por promoverem agressivamente o uso de opióides sem alertar devidamente para os seus riscos. A Johnson & Johnson foi condenada a pagar 515 milhões de euros ao estado do Oklahoma por essas práticas. A Purdue Pharma, famosa pelo opióide OxyContin, estará a preparar um acordo extra-judicial para resolver os processos que enfrenta, pagando 12 mil milhões de dólares às autoridades.

Portugal teve um enorme problema social com a "epidemia da heroína" das décadas de 1980-1990, que acabou por motivar a mudança da política de drogas no sentido da descriminalização, deslocando as prioridades de resposta do sistema penal para o sistema de saúde pública. Uma mudança com resultados positivos hoje elogiados e estudados no estrangeiro. Em Portugal como na maioria dos países, fora o SNS, o uso de opióides só é permitido mediante receita médica.

Termos relacionados Sociedade
(...)