Está aqui

Composição do novo PE por regiões geopolíticas, a Europa Ocidental

Os resultados nas eleições europeias mostram um crescente descontentamento do eleitorado destes países, traduzido nas quebras muito significativas dos dois principais grupos políticos: o PPE e os S&D. Por Jorge Martins.
Os resultados das eleições europeias mostram crescente descontentamento do eleitorado destes países, traduzido nas quebras muito significativas dos dois principais grupos políticos: o PPE e os S&D
Os resultados das eleições europeias mostram crescente descontentamento do eleitorado destes países, traduzido nas quebras muito significativas dos dois principais grupos políticos: o PPE e os S&D

Rescaldo das Europeias (7): o novo Parlamento Europeu (VI)

Vamos continuar a análise da Geografia Eleitoral da UE após estas eleições, indo, agora, para a área mais rica e influente da UE.

A Europa Ocidental

Trata-se de uma região maioritariamente de clima temperado marítimo, com invernos suaves e muito húmidos e verões frescos e húmidos, onde se distinguem, claramente, as quatro estações. Mais para o centro do continente (leste de França, sul e leste da Alemanha e Áustria) começa a adquirir características continentais, com invernos mais rigorosos e um pouco mais secos e verões um pouco mais quentes. A exceção é a região mediterrânica francesa, cujas caraterísticas físicas são idênticas às da Europa do Sul.

É, na sua maioria, uma zona de relevo plano, parte da grande Planície Central Europeia, com exceção das áreas onde se situam as cordilheiras montanhosas dos Alpes (leste e sueste de França, sul da Alemanha e Áustria, à exceção da planície danubiana, na parte oriental do país) e dos Pirenéus (no sudoeste de França), bem como do maciço central francês.

A somar a essas condições favoráveis, a riqueza de grande parte dos solos leva a que aí existam extensas áreas de grande fertilidade agrícola.

Nesta região, existem zonas que possuem um subsolo rico (com destaque para o carvão e o ferro), fundamentais para a sua industrialização.

O relevo plano e a existência de um grande número de rios navegáveis, a par com a existência de alguns portos na costa atlântica francesa e nas costas do canal da Mancha e dos mares do Norte e Báltico facilitaram bastante as acessibilidades e as trocas comerciais.

Por isso, a sua densidade populacional é bastante elevada, já que sempre foi uma área atrativa para a fixação de pessoas. Daí ter sido, historicamente, alvo das mais diversas invasões e cobiças territoriais. É aí que se situam algumas das maiores concentrações populacionais do continente, com destaque para a Holanda e a região alemã do Rhur, que constitui uma das maiores zonas urbano-industriais do mundo.

Do ponto de vista sociocultural, podemos distinguir entre as áreas católicas (grande parte de França, Bélgica, Luxemburgo, Áustria, sul e sueste da Holanda, oeste renano e sul na Alemanha) e protestantes (restantes partes da Alemanha e da Holanda e algumas pequenas zonas de França). É de salientar, no entanto, em toda a região, a grande influência judaica, que perdurou até à 2ª guerra mundial, quando a maioria da população judia foi vítima do Holocausto nazi ou emigrou, posteriormente, para Israel e para os EUA.

Apesar de tudo, a influência da Reforma protestante, mesmo nos países católicos da região, e a forte presença dos judeus incentivaram o espírito capitalista, o que permitiu, em alguns destes países, o aparecimento de burguesias dinâmicas e inovadoras. A isso há a juntar a influência da Revolução Francesa e do Iluminismo, com a consequente diminuição da influência da Igreja Católica e a progressiva laicização do Estado e da sociedade (ainda hoje um traço dominante em França), o que facilitou uma maior abertura cultural.

A nível socioeconómico, foram, depois do Reino Unido, os primeiros países a industrializar-se, no sec. XIX. As riquezas do subsolo e as boas acessibilidades facilitaram esse processo, a que as já referidas burguesias dinâmicas deram corpo. Por isso, rapidamente se transformaram nas regiões mais prósperas e mais desenvolvidas e inovadoras do continente. Contudo, a prosperidade estava circunscrita às classes dominantes, o que gerou a revolta dos operários, intensamente explorados, o que levou à existência de um forte movimento operário e sindical.

Estamos em presença do “coração” da Europa. Por isso, não surpreende que aqui se situe o “núcleo duro” da integração europeia, compreendendo o eixo franco-alemão e os três países do BENELUX.

É nesta região que se localizam as principais zonas metropolitanas, as maiores concentrações industriais, as praças financeiras mais importantes, as mais extensas áreas de produção agrícola e as redes de transportes e comunicações mais densas do continente.

É também aí que, sem surpresa, se encontra a sede das instituições europeias, com destaque para Bruxelas, que funciona como a “capital da UE”, mas também Estrasburgo (PE), o Luxemburgo (os tribunais) e Frankfurt (o BCE), e de outras organizações internacionais.

Situando-se no centro da integração europeia, é a que mais tem beneficiado do processo. Contudo, o desemprego persistente que se seguiu à crise económica dos anos 70 e as políticas neoliberais postas em prática a partir da década seguinte puseram em causa a prosperidade da região e os seus Estados Sociais, o que levou a um aumento das desigualdades sociais e dos índices de pobreza, até aí relativamente baixos.

O euro foi benéfico para a Alemanha e outros países da região, mas não tanto para a França, cujo diferencial de desenvolvimento face aos germânicos se acentuou. A economia francesa apresenta alguns desequilíbrios socioeconómicos, com défices quase sempre acima dos permitidos pelas “regras europeias”, mas, como disse o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, “a França é a França!” …

Tendo sido das primeiras regiões europeias a desenvolver-se, foi também uma das primeiras a completar a sua transição demográfica. Por isso, até há pouco, era uma das regiões mais envelhecidas do continente, com baixas taxas de natalidade, a que acresce uma elevada esperança média de vida.

Contudo, a situação tende a inverter-se ligeiramente, fruto quer das políticas de fomento da natalidade levadas a efeito por alguns governos destes países, quer por via do aumento da imigração, fator que contribuiu para aumentar o número de nascimentos, tanto pela juventude da maioria dos imigrantes, como pelas diferenças culturais destes face às populações dos países de acolhimento, pois muitos provém de áreas onde há tradição de famílias numerosas.

A prosperidade da região tornou estes países muito atrativos para a imigração. A necessidade de reconstrução das infraestruturas destruídas pela 2ª guerra mundial levou muitos a recorrer à mão de obra estrangeira, em geral proveniente dos países então pobres da Europa Meridional, da Turquia e do Magreb. A partir dos anos 60 e 70, na sequência da descolonização, surgem imigrantes provenientes de outros países africanos e do Médio Oriente. Nos anos 90, após a queda do muro de Berlim, surge a imigração proveniente da Europa de Leste, a que se junta o aumento da proveniente da África, bem como a vinda de alguns da Ásia e da América Latina. No início do século, a pobreza, a instabilidade, as guerras e as perseguições políticas em alguns países africanos e do Médio Oriente levou muitos dos seus habitantes a procurar refúgio na Europa, sendo a Alemanha o destino preferido.

Do ponto de vista histórico-político, há que diferenciar entre a França e os países do BENELUX, por um lado, e a Alemanha e a Áustria, por outro.

Os primeiros foram consolidando e melhorando as suas democracias liberais desde os finais do sec. XIX e assim se mantiveram, exceto durante a ocupação alemã na 2ª guerra mundial. Por isso, possuem sólidas tradições democráticas, embora, por vezes, a política francesa resvale para algum autoritarismo.

Já os dois Estados germanófonos foram impérios autoritários até à sua derrota na 1ª guerra mundial e os regimes republicanos democráticos instaurados após o seu termo não duraram muito (1919-34 na Áustria e 1919-33 na Alemanha), substituídos pelo austro-fascismo (1934-38, no primeiro) e pelo nazismo (1933-45 no segundo e 1938-45 no primeiro, entretanto anexado ao Reich hitleriano). Após a derrota nazi, na 2ª guerra mundial, a Alemanha Ocidental tornou-se numa república democrática federal, em 1949, e, desde então, o regime democrático tem-se mantido estável, mesmo depois da reunificação com a Alemanha Oriental (a ex-RDA, que, entre 1949 e 1989, viveu num regime “comunista”, decalcado da URSS), em 1990. A Áustria, ocupada pelos aliados até 1955, seguiu um caminho idêntico ao dos seus vizinhos oeste-alemães.

A prosperidade económica que caraterizou o período da reconstrução após a 2ª guerra mundial (1946-73), conhecido como “os 30 (anos) gloriosos”, permitiu a criação de um Estado Social relativamente generoso, que reduziu em muito a pobreza e as desigualdades sociais e contribuiu, decisivamente, para a consolidação dos regimes democráticos.

Vejamos, agora, o seu comportamento eleitoral.

O PPE continua a ser a força política mais importante da região, mas sofreu aqui uma quebra profunda

O PPE continua a ser a força política mais importante da região, mas sofreu aqui uma quebra profunda. O grupo liberal-conservador e democrata-cristão não conseguiu mais que 22,4% dos mandatos, quando, até aqui, tinha 29,5%. Para esta baixa significativa, foram determinantes o “afundamento” dos LR francesas e as perdas da CDU/CSU alemã, a que se somam pequenos recuos na Holanda e no Luxemburgo, que apenas a subida do ÖVP na Áustria atenuou ligeiramente.

A grande sensação no conjunto da UE, mas em especial nesta área do continente, foi a espetacular subida dos Verdes

A grande sensação no conjunto da UE, mas em especial nesta área do continente, foi a espetacular subida dos Verdes. O G/EFA obteve 19,1% dos mandatos aqui em disputa, quando, antes, apenas dispunha de 11,2%. Tornou-se, assim, na segunda força política da Europa Ocidental, destronando, claramente, os social-democratas. Para isso, muito contribuiu o extraordinário resultado dos GRÜNE na Alemanha, mas também o bom desempenho da EELV em França e as subidas igualmente ocorridas em todos os outros países da região, à exceção da Áustria, onde perdeu um lugar, que pode vir a recuperar com o Brexit.

O terceiro lugar foi para os centristas da RE, que obtiveram 17,0% dos lugares da região ocidental da UE, quando, até aqui, os liberais apenas detinham 10,8% dos MEP a ela atribuídos. Para o efeito, valeu o reforço da formação de Macron, a LRM, que aumentou exponencialmente a representação do grupo em França. Mas também a pequena recuperação do FDP alemão e a subida do PD luxemburguês contribuíram para esse êxito, compensando as perdas na Holanda e, em especial, na Bélgica.

Segue-se o grupo da extrema-direita ID, que conquistou 16,2% dos mandatos desta zona, quando, antes, apenas tinha 10,4%. O triunfo do RN de Marine Le Pen, em França, bem como a transferência da AfD alemã, vinda do EFDD, são a causa deste crescimento, a que há a juntar a subida dos radicais flamengos do VB, na Bélgica. Estes aumentos compensaram, largamente, a enorme quebra do PVV holandês, que tinha quatro eurodeputados e, agora, fica a aguardar pelo Brexit para se manter no PE, e a quebra do FPÖ austríaco, após o escândalo Ibizagate.

Os grandes perdedores foram os social-democratas, que se quedaram por 14,9% dos eurodeputados da região, contra os 21,6% que detinham até aqui

Os grandes perdedores foram os social-democratas, que se quedaram por 14,9% dos eurodeputados da região, contra os 21,6% que detinham até aqui. O S&D passou, então, de segunda a quinta força política da zona. Para tal, contribuíram as enormes quedas do SPD alemão e do PS francês, a que se somam perdas ligeiras na Bélgica. A duplicação dos mandatos por parte do PvdA holandês pouco compensou os maus resultados dos seus homólogos nos países acima referidos.

Também aqui o GUE/NGL sofreu um recuo, embora menos acentuado, tendo o seu peso percentual atual, de 6,6% dos lugares desta área do continente se reduzido a 5,8%. A descida do Die Linke alemão e o “afundamento” do SP holandês são as principais causas desta diminuição da representação, que o ganho de um lugar em França e a conquista de um mandato por parte do PTB/PVDA na Bélgica apenas atenuou. Por seu turno, na Áustria e no Luxemburgo, o grupo continua sem representação no PE.

O ECR perdeu, igualmente, algumas posições, passando de 5,0% dos lugares da região para apenas 2,9% destes. Para isso, muito contribuiu a saída dos elementos da AfD alemã original, que deixaram o partido, mas se mantiveram no grupo, a que se pode somar o recuo da N-VA flamenga, na Bélgica. Essas perdas apenas são parcialmente compensadas pela entrada no PE do FvD, na Holanda, até porque esta provocou também a saída dos dois partidos da direita religiosa calvinista (CU e SGP) para os NI.

Já nos não inscritos passa a estar menos um elemento, pelo que o seu peso percentual, até agora de 2,1%, recua para 1,7%. Esta diminuição resulta da não reeleição dos dissidentes da FN francesa, entre os quais Jean-Marie Le Pen, e da perda do lugar por parte do neonazi NPD, na Alemanha, embora se mantenha o já eleito MEP do satírico Die Partei alemão (o outro vai integrar os Verdes) e, em princípio, o do 50+ holandês, a que se juntam os seus compatriotas dos calvinistas CU e SGP.

Por fim, e após a partida da AfD alemã, o EFDD ficou sem representantes provenientes da Europa Ocidental.

Os resultados mostram um crescente descontentamento do eleitorado destes países, traduzido nas quebras muito significativas dos dois principais grupos políticos: o PPE e os S&D. Os problemas económicos e sociais que acima referimos (como o desemprego crónico) e as consequências da adoção de políticas neoliberais (como o ataque aos serviços públicos, o aumento da precariedade e a perda de direitos laborais ou o aumento da idade da reforma, entre outras) e a prossecução de um regime austeritário, assente na compressão dos salários e das reformas, são alguns fatores que contribuíram para este desfecho. Acresce, ainda, que, uma vez chegados ao poder, tanto “populares” como socialistas implementam políticas económicas centristas, idênticas no essencial, o que leva a uma radicalização do eleitorado, tanto à direita como à esquerda.

Por seu turno, a grande subida dos centristas assenta mais na popularidade de Macron, que “canibalizou” grande parte do eleitorado da direita clássica e dos socialistas, que num súbito aumento da adesão à ideologia liberal. Isto apesar de estes terem alguma implantação nesta região, onde existe uma direita urbana assente nas camadas mais dinâmicas da burguesia, que defende o “laisser-faire” nos negócios e a desregulação das relações laborais, mas é tolerante e aberta a nível dos costumes.

O grande crescimento dos Verdes é o resultado da atenção crescente de amplos setores destas sociedades às questões ambientais. A elevada industrialização e urbanização, a grande densidade dos transportes, a intensificação da produção agrícola, com os consequentes aumentos da poluição e da produção de lixos geram preocupações acrescidas no domínio do ambiente.

Acresce, ainda, que estamos em presença de sociedades economicamente desenvolvidas e onde uma parte significativa da população possui as necessidades básicas satisfeitas, o que favorece uma maior prioridade a questões ditas pós-materiais. Aqui, pode dizer-se que o apelo de Greta Thunberg foi bem ouvido, em especial pelas camadas jovens e urbanas, algo que muito beneficiou as formações integrantes do G/EFA.

Mas também a extrema-direita registou um forte crescimento, mesmo se aquém do esperado. Se, na Europa Meridional, o discurso racista e xenófobo anti-imigrantes é recente, aqui ele já vem desde os anos 80, quando a FN francesa, então com o pai Le Pen na liderança, começou a ter, sistematicamente, resultados acima dos 10%. Seguiu-se, na década seguinte, o FPÖ na Áustria, então sob a chefia de Haider, e o VB na Bélgica. No início do século, Pym Fortuyn fundou a LPF e fez furor na Holanda até ser assassinado por um animalista radical, mas rapidamente o PVV de Wilders tomou o seu lugar. A única novidade neste campo foi o aparecimento de uma formação deste tipo na Alemanha, com a evolução da AfD para a extrema-direita.

A existência de fortes correntes imigratórias, muitas delas racial, religiosa e culturalmente diferentes das populações brancas e cristãs europeias, a par com a existência de um desemprego estrutural que se mantem há décadas, deu lastro a esse discurso, que faz do “outro”, do diferente, o bode expiatório de todos os males da sociedade.

Os atentados terroristas levados a cabo, a partir do início do século, polos islamitas radicais da Al-Qaeda e do Daesh aumentaram os medos dos cidadãos e reforçaram a paranoia securitária, fazendo crescer a adesão ao discurso islamofóbico. Por fim, a chamada “crise dos refugiados” foi também aproveitada pelo populismo da extrema-direita, que se lançou numa histeria contra a suposta “invasão” da Europa. Assim, a evolução da AFD alemã resultou da política de abertura aos refugiados que Merkel adotou num primeiro tempo.

A esquerda, que, tradicionalmente, apenas tinha implantação em França, cresceu muito na maioria dos países desta região, em especial pelo aumento do desemprego e, consequentemente da pobreza e das desigualdades, a par com a desilusão face aos social-democratas, rendidos ao neoliberalismo e que pouco se distinguem do centro-direita. Contudo, nestas eleições, acabou por perder eleitorado, fruto de divergências internas em alguns partidos do GUE/NGL desta área e da fuga de eleitorado para os Verdes.

Nestes países, a maioria da sua população também é claramente pró-UE, mas o euroceticismo tem crescido, devido, não apenas à imposição de políticas económicas restritivas e de “reformas estruturais” socialmente regressivas, mas também pelo discurso demagógico da parte de alguma direita e da extrema-direita, que considera estarem estes países, pretensamente trabalhadores e virtuosos, a financiar os do Sul, supostamente irresponsáveis e preguiçosos. Se o primeiro argumento é mais forte em França, o segundo colhe mais entre os povos anglo-saxónicos da região (alemães, austríacos, holandeses e flamengos).

Artigo de Jorge Martins

No próximo texto, continuaremos a análise dos resultados eleitorais e da composição do novo Parlamento Europeu por regiões geopolíticas da UE, com a análise da Europa Setentrional e Ilhas Britânicas.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
Termos relacionados Comunidade
(...)