Cerca de 200.000 mil pessoas morreram de fome e doenças relacionadas nos quatro anos após o fim da Guerra Civil Espanhola. Várias investigações ligam estas mortes às escolhas políticas do regime franquista, indicando a existência de uma “fome política”, ligada ao isolacionismo do país, e que atingiu mais o sul do que o norte e mais o campo do que a cidade mas sobretudo os mais frágeis, os mais pobres e os republicanos que sobreviveram aos massacres.
O El Diário analisou o fenómeno que foi sendo apagado das memórias e falou com vários especialistas sobre ele. Um dos mais importantes é Miguel Ángel del Arco Blanco, professor de História Contemporânea na Universidade de Granada, que publicou já este ano La hambruna española no qual, para além de contar o que aconteceu na fome de 1939-42 e na de 1946, na qual morreram perto de 20.000 pessoas, desmonta também as habituais justificações do franquismo para o sucedido.
Para além de detalhar que as “vítimas principais foram as classes baixas”, o académico conta: “congelaram os salários”, milhares de famílias “não tinham dinheiro para comer e o racionamento não era suficiente para alimentar uma família”, prosperando o mercado negro e a especulação.
Muitos eram afetados por serem alvos explícitos como os trabalhadores à jorna da Andaluzia, muitos dos quais “se tinham identificado como favoráveis ao anarquismo e ao socialismo, pelo que diretamente ninguém os contratava pelo seu passado político”.
Outro exemplo são os prisioneiros republicanos, em prisões ou campos de trabalho. Para estes, “a fome era moeda comum” como forma de castigo que “pouco a pouco consumia os seus corpos, os fazia morrer de inanição, de doenças derivadas à desnutrição ou às péssimas condições higiénicas”.
Outro aspeto a ter em conta é que a única forma de ajuda alimentar era através do “Auxílio Social” e de organizações sociais”. A distribuição, sublinha, está condicionada assim ao “bom comportamento em linha com o novo regime”. E este controlo social passava igualmente pelas filas de racionamento.
Há ainda a ter em conta os surtos de doenças infecocontagiosas, como a difteria, o paludismo, o tifo e a tuberculose. O historiador reforça que “muitas mortas estiveram ligadas a doenças em pessoas que não tinham o que levar à boca, para além de que o seu tratamento estava ligado a uma classe social no que diz respeito à boa alimentação, à roupa e às condições de vida.
Há investigadores que se centram nas estratégias de sobrevivência adotadas nesses anos em que muitos tiveram de recorrer ao roubo de alimentos. David Conde e Lorenzo Mariano escreveram há dois anos Las recetas del hambre. La comida de los años de posguerra, livro no qual detalham como muitos foram obrigados a comer ervas, cascas de batata e laranja e banana e alguns “até comiam cães, gatos e lagartos, mas preparados em pratos que tentavam enganar o estômago. Era uma forma de resistência comer estes animais sem os nomear como tal”.
No quadro de dificuldades tremendas que vivia todo o continente europeu, a escolha do franquismo foi a “autarcia inspirada pelas economias do Eixo, a Alemanha nazi e a Itália fascista. A economia espanhola estava completamente subordinada a esta aliança, e nós sofremos as consequências”, vinca o especialista, apontando que a escolha de aliados resultou num bloqueio económico que agravou a fome.
A seguir à guerra, por outro lado, são os cereais baratos vindos da Argentina a trazer mais alimentos, o que leva Del Arco a concluir que “Perón salvou o regime de Franco e deu-lhe uma hipótese de respirar, pelo menos até 1951, quando a situação económica se tornou insustentável e tiveram de abandonar o sistema autárcico”.
Rosa Pardo, professora de História Contemporânea da UNED, autora de El hambre invisible. La FAO y la España del primer franquismo, capítulo do livro Pan o imperio. Franquismo, autarquía y relaciones internacionales en los años del hambre acrescenta que “por razões ideológicas e de conjuntura internacional, Espanha não recebeu nos anos 1940 o auxílio da Administração das Nações Unidas para o Socorro e a Reconstrução, da FAO, Organização para a Alimentação e Agricultura da ONU, nem da UNICEF, centrada na infância, nem do Plano Marshall”.
Só em 1950 o país começa a ser admitido na FAO. A motivação não foi, porém, a fome mas o desejo de reconhecimento internacional: “em nenhum caso se destacou a preocupação oficial pelo mau funcionamento do setor agrário, nem sobretudo pela situação de fome do país e o gravíssimo problema social que está por detrás dela”.
Para ela, “a ditadura não podia consentir que através desta organização se pudesse conhecer a ainda penosa realidade social de Espanha nos inícios dos anos 50, tão oposta às pretensões oficiais de progresso que o regime de Franco supostamente tinha promovido”.
Porém, foi mesmo a chegada da FAO que relacionou a questão da fome com a pobreza, apesar de que “nunca se chegou a abordar como um problema social real que tem que ver com a falta de políticas sociais do regime e o seu desastre de política económica”.
Das três razões da fome ao apagamento da história
A 1 de outubro de 1936, Francisco Franco dirigia-se a uma multidão reunida em Burgos para prometer “empenho para que não haja um lar sem lume nem um espanhol sem pão”.
Os primeiros tempos do seu governo foram, contudo, de fome como reconheceriam as próprias autoridades nas suas comunicações internas. Exemplo disso são uma comunicação enviada por um chefe da Falange de Rioja, em Almeria, em janeiro de 1940 na qual dizia que a população estava há mais de quatro meses sem azeite, pão ou batatas, destacando que “a fome e a miséria estão estendidas a todos os vizinhos” ou outra das autoridades de Peñarroya, em Córdoba, que assinalava haver “centenas de crianças, homens e velhos a passear a sua miséria e a implorar esmola (…) mais de 2.000 pessoas que se não roubam (…) morrem de fome, eles e as suas famílias”.
Para justificar a fome, três razões foram apontadas: os estragos da guerra e a “barbárie vermelha”, a “seca persistente” e finalmente o isolamento internacional.
Del Arco mostra que a primeira justificação cedo se esgotou e que “as destruições” causadas “não foram tão importantes” que destruíssem todo o tecido produtivo do país, que a segunda foi “pronunciada em 1945 mas não justifica todo o período” e que a terceira, como já foi apontado, foi tanto uma escolha política como uma reação de outros Esgotados às escolhas políticas do franquismo, tendo, por exemplo, o regime utilizado a exportação de matérias-primas para a Alemanha nazi como forma de pagar a dívida da sua ajuda ao golpistas que causaram uma guerra civil.
A aposta do franquismo na auto-suficiência, por estas alturas, afastou o país daqueles que eram os seus principais parceiros comerciais até então e teve outra consequência na agricultura: a falta de fertilizantes.
Depois do tempo das justificações, passada a conjuntura, o franquismo foi apagando a história da fome e substituindo-a por uma narrativa de sucesso económico. Esse apagamento durou décadas e até hoje em dia, como este historiador lembra ao El País numa outra entrevista, “apenas um manual menciona o termo [fome] no Ensino Secundário Oficial”.