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Comentário sobre “O Futuro já não é o que nunca foi”

O livro fala de futuro. É verdade. Mas fala sobretudo de presente. Não de um presente estático ou de uma coleção de instantes que, em instantes, já pertencem ao passado, mas de um presente que projeta e que cria e que, por isso mesmo, deve ser (re)pensado. Por Sofia José Santos
Livro “O Futuro já não é o que nunca foi” de Francisco Louçã
Livro “O Futuro já não é o que nunca foi” de Francisco Louçã

Quando olhei, pela primeira vez, para o livro “O Futuro já não é o que nunca foi. Uma teoria do Presente” - num exercício de adivinhação – antecipei que o que me esperava era um livro sobre o futuro. Teria, com certeza, traços de presente. Mas seria, em grande medida, um olhar sobre o futuro. Um livro que colocaria a nú o esboroar das promessas que nos fizeram desde que começou o nosso presente e que, perante isso, montaria e desmontaria a nossa necessidade (sem grande escolha) de ajustar, transformar ou inventar, de forma mais ou menos criativa, um novo futuro para onde caminhar. O livro fala de futuro. É verdade. Mas fala sobretudo de presente. Não de um presente estático ou de uma coleção de instantes que, em instantes, já pertencem ao passado, mas de um presente que projeta e que cria e que, por isso mesmo, deve ser (re)pensado (p. 14).

Há, na verdade, duas ideias de presente alinhadas neste livro. Por um lado, a ideia de que o presente de hoje não é diferente do presente de ontem. Por outro, a ideia de que, não sendo diferente, não deixa de ser um tempo de escolha. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, por um lado, o que temos hoje não é inteiramente distinto do que sempre existiu, do que sempre se viu e que o presente de hoje padece do mal de todos os outros presentes: vive numa simbiose entre a nostalgia de um passado que acarinha e o medo e a fantasia que só o desconhecimento do futuro possibilita. Um passado que se encontra também repleto de fantasmas e remorsos, mas que é branqueado e justificado por uma perspetiva simultaneamente sofisticada e míope, que apenas um olhar a posteriori permite. Um futuro que, para além da dúvida e da incerteza, motiva a criatividade e revela a possibilidade. Uma certa retrotopia, como diria Bauman. Trata-se, pois, de um presente que olha para o passado através de um exercício mais de fantasia do que de memória e que olha para o futuro com a dubiez e a angústia do desconhecido.

Porém, se os vários presentes bebem dos mesmos estados de alma, das mesmas lutas de poder, das mesmas lógicas de dominação e emancipação, também é verdade que os presentes são “incomparáveis”, e que, como diz o autor, a “história não se reencena” porque cada presente faz o seu destino. E é esta certeza que nos leva à outra dimensão do presente neste livro. O presente como consequente, como “o tempo que decidimos com efeitos práticos”, o tempo da escolha perante as bifurcações. Ou seja, o presente como “vontade" (p. 14-15).

Estas duas ideias ou dimensões do presente estão cosidas no livro – tanto no argumento, como na escrita. Ao ler, saltamos entre tempos: do nosso tempo e de todos os tempos. Saltamos entre ideias e histórias, entre argumentos e exemplos, ironias e curiosidades. Como se a leitura do próprio livro refletisse as continuidades entre presentes, mas sem esquecer que cada presente contém em si apontamentos singulares, tanto grandiosos, como cómicos ou mesmo trágicos.

O presente de hoje, no livro, começa a ser contado na atual pandemia. A realidade para a qual nos abre os olhos já estava, porém, instalada. Aliás, o livro é muito claro na identificação da genealogia que desemboca nos nossos dias. Já estávamos, há muito, a chegar aqui. Possivelmente de uma forma não chamativa ou excêntrica, mas a fazer caminho. Ou muito do que se conta sobre este nosso presente não decorresse, em grande medida, da viragem da Google para a exploração de dados, há quase duas décadas (p.16).

No nosso presente, o livro identifica algumas figuras centrais, como o medo, o bufão, o ‘bufonear’, o ‘bufanismo’, o ‘ubuesco’, o ‘burlesco’. Não vou explicar o que cada um é porque essa descrição pormenorizada e irónica de cada uma destas peças e, sobretudo, da ligação que têm entre si e de todas e cada uma delas com figuras e dinâmicas do passado e do presente é uma das partes que eu achei mais deliciosas do livro. Não explicando, devo dizer que todas estas figuras convergem para a descrição e síntese da lógica narcisista, extravagante, caricatural, de poder, de comunicar e de fazer política de líderes como Bolsonaro ou Trump.

Figuras que não só chegam ao poder como inspiram sucessores políticos (como uma viralidade talvez equiparável ao ice bucket challenge – mas desta feita trágica) e promovem a incivilidade no debate político ou a formação e mobilização de movimentos de manosphere, de extrema-direita ou do QAnon.

Como diz o autor, estas figuras são “um carnaval, uma extravagância, uma explosão de narcisismo, uma caricatura (…) mas também de alguma forma “um regime” e “uma regra” (p. 55). São “uma estratégia (…) [que] atua e se nutre da modernidade líquida, do instantaneísmo, da hipercomunicação, do que flui e não do que permanece” (p. 67). É semelhante a carnaval, mas não nos podemos enganar: não é apenas representação, ou performatividade. Antes, estas figuras sintetizam uma visão política.

Elas não são uma novidade: Bolsonaro é presente, Nero é passado. Trump é presente, Napoleão será também, possivelmente, futuro. Nada disto é novo. Tudo já existiu.

Mas se a repetição dos presentes não anula a singularidade do nosso, então, o que há de novo no nosso presente? Quais são as nossas bifurcações? Onde as encontramos?

É neste mapa ou encruzilhada que o livro acontece.

Em resposta ao que há de novo do nosso presente, o livro aponta para as questões da “datificação” e da sociabilidade virtual e “maquinal” que mostram como economia, política, cultura e sociedade não só não são dissociáveis, como o motor principal da bifurcação presente é económica. E tem um nome: “capitalismo de vigilância”.

O capitalismo de vigilância, e cito, “cresce como um vírus, canibalizando o trabalho, a razão, as emoções e a vida”, algoritmizando decisões e bom senso e tornando a democracia “uma excepção, uma aberração [ou cerimónia] tolerada pelas circunstâncias da luta pela legitimidade, [circunstâncias essas] que obrigaram o poder de classe a um discurso inclusivo e que são restringidas pelas tendências autoritárias”. (p. 176)

Neste mapa de encruzilhadas, há, para mim, dois destaques – as redes sociais e os algoritmos. As redes sociais, denominadas, sabiamente, por “tecnologia da infoxicação” e integrantes do “ministério da verdade” têm um trabalho comunicacional, sendo ao mesmo tempo um negócio. Tanto num caso como no outro “o virtual canibaliza o real” (p. 130).

As dietas informativas nas redes sociais são cada vez mais referenciadas por crenças pessoais, sobrevivência e retórica identitária excludente e emoções através das quais a realidade é lida. Estas referências privilegiam não raras vezes processos de conotação que articulam as preocupações de hoje com a preservação de determinadas “comunidades imaginadas” passadas.

Nas redes sociais, o valor da informação disseminada não é determinado pelo valor da publicação em si, mas sim pelas interações que gera. Uma grande quantidade de interação pode gerar "viralidade". E a viralidade é ambicionada. E mais conseguida com conteúdos chocantes que geram e movimentam sensações de ameaça, medo, e segurança e insegurança, potencialmente criando “pânico moral”, promovendo dicotomias populistas e segregação ideológica.

A lógica algorítmica da web e o poder organizativo e modelador dos algoritmos são igualmente importantes. Fora das redes, com toda a certeza. Mas também dentro das redes e da internet, no geral. Aqui a estrutura tecnológica determina o conteúdo que circula, estipulando: o que importa, quem importa e porque importa. Contrariamente às regras constitutivas ou reguladoras das sociedades, as opções dos algoritmos são tendencialmente invisibilizadas e, consequentemente, não sujeitas a debate. Porém, elas detêm o poder político de curadoria na definição da agenda e na forma como se escolhe apresentar (e, por isso, debater) questões, grupos, temáticas ou acontecimentos. Ao decidir a informação a que temos acesso, bem como a sua hierarquia (compondo, por exemplo, o nosso feed das redes sociais), os algoritmos acabam por condicionar fortemente o debate público e político nas sociedades atuais: visibilizam e invisibilizam determinadas vozes, agendas e narrativas. Também há que mencionar que a internet é virtualmente acessível por todas e por todos, mas o nosso acesso é individualizado. Há uma comunidade, mas ao mesmo tempo uma atomização. E nesse acesso individualizado, feito à medida, deixamos muitas vezes de conseguir discernir o que é real e o que é manipulado. Alguns serviços na internet são tão hegemónicos que, em alguns casos, se podem mesmo confundir com a internet em si. Ou seja, navegar na internet pode significar aceder à promessa de informação sem barreiras, mas apenas navegar no algoritmo individualmente personalizado criado pelo Facebook. A esfera pública passa a ser, assim, condicionada por limites definidos em privado e orientados para o lucro. Falamos e interagimos com quem quisermos, mas quase sempre nas regras das redes sociais. Temos acesso a informação que pensamos ininterrupta e sem barreiras, mas que se nos apresenta por ter sido selecionada com base em algoritmos de pesquisa produzidos por empresas, alegando dar-nos os resultados que queremos e procuramos. O livro fala de tudo isto.

Que desafios traz a sua leitura? O que angustia face ao presente e que angústias são essas que o passado não ensina a contornar ou a reinventar?

Se nada é novo, também é verdade que temos a “certeza de que ainda não vimos tudo” (p. 67). Esta incompletude do horizonte prende-se muito com uma lógica de escala que não tem só a ver com progressão, como nos diz John Brodie Donald. Quando as coisas são mais pequenas ou eventualmente maiores, os princípios fundamentais que as apoiam ou que elas próprias criam e sustentam são, na sua essência, os mesmos. Ou seja, a diferença é apenas uma questão de escala. No entanto, quando há uma progressão de tamanho, não é apenas a escala que muda. As especificidades resultantes da escala tornam o sujeito ou o objeto (dependendo do que estivermos a considerar) fundamentalmente diferente de outros seus semelhantes mais pequenos ou maiores.

Nesta linha, podemos dizer que a datificação, a sociabilidade virtual e a algoritmização aprofundam apenas a escala de dinâmicas já existentes. Porém, ao fazê-lo com tal velocidade e tal imaginação tecnológica, tornam-nos muitas vezes incapazes de identificar e antecipar as implicações e consequências distributivas para as quais nos empurram. As transformações são tantas, tão profundas, tão rápidas e surpreendentes que me sinto, por vezes, como a formiga, numa das célebres analogias do Neil deGrasse Tyson, presa na sua bidimensionalidade. Fechada nessa sua condição, a formiga não consegue conceber a verticalidade. Mas não é por isso que é imune à sua existência. Aliás, pelo contrário, a existência desta terceira dimensão tem impactos diretos na sua vida e mesmo na sobrevivência. A formiga pode não conseguir ver um pé que cai dos seus céus, mas não é por nunca o conseguir ver ou materializar que a formiga está a salvo.

Este livro contribui precisamente para a compreensão do que podemos considerar um novo turbilhão ou uma nova dimensão das nossas vidas que o termo ‘virada digital’ tenta sintetizar, mas que nunca conseguimos descrever na totalidade. Fâ-lo problematizando os três poderosos movimentos de fundo que geraram a bifurcação em que estamos hoje: a “potenciação do capitalismo de vigilância”, a “multiplicação de instrumentos de tecnologia de conformação e tribalização” e a “redução da democracia a espaços de representação cerimonial polarizando a política através da bufonaria” (p.16-17). Este gancho, identificando a força motriz, pode-nos elevar e emancipar da bidimensionalidade da formiga, pôr em cima dos ombros dos gigantes, dar uma visão para o presente e futuro e, pelo caminho, dar alguma esperança à formiga.

Intervençao de Sofia José Santos, em sessão de apresentação em Coimbra do livro “O Futuro já não é o que nunca foi” de Francisco Louçã, julho de 2021, Bertrand Editora

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