Com a economia estagnada, governo britânico anuncia novos cortes de gastos

24 de abril 2012 - 15:55

O secretário do Tesouro do governo britânico, Danny Alexander, que implementa um dos programas de austeridade mais duros da União Europeia, assinalou nesta segunda-feira que o governo terá que fazer novos cortes de gastos equivalentes a 16 mil milhões de libras. Por Marcelo Justo.

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Manifestação contra os cortes orçamentais, março de 2012 - Foto de Coalition of Resistance

Com o euro ou a libra, a Europa continua metida num ajustamento que parece não ter fim. O secretário do Tesouro da coligação conservadora-liberal democrata, que implementa um dos programas de austeridade mais duros da União Europeia, assinalou nesta segunda-feira que o governo tem que identificar novos cortes de gastos equivalentes a 16 mil milhões de libras.

No seu discurso no Instituto de Estudos Fiscais, o secretário Danny Alexander assinalou que cada ministério terá que fazer cortes equivalentes a 5% de seu orçamento, porque ocorreram “factos imprevisíveis”. Esses cortes somar-se-ão ao draconiano ajustamento anunciado em outubro de 2010, poucos meses depois de David Cameron assumir o poder. Naquele momento, a coligação anunciou um plano de cortes de 80 mil milhões de libras para os seus cinco anos de governo a fim de ganhar a confiança dos mercados e evitar uma “crise à grega”.

Dezoito meses depois desse anúncio, a economia continua em queda livre e as contas do governo nunca fecham. Apesar de a projeção para o gasto fiscal em 2016 ser de 39% do Produto Interno Bruto (PIB) – quase 10% menos do que no início do atual governo – a previsão para esse mesmo ano é que a dívida cresça em mais de 500 mil milhões de libras. O governo está a pedir emprestado mais dinheiro do que havia calculado porque as promessas do ajustamento não se materializaram: em vez de crescimento, o Reino Unido está a atingir a sua segunda recessão em três anos, com um recorde de desemprego. Para que não haja novas surpresas, Alexander assinalou que os ministérios terão que informar os seus gastos mensais ao Tesouro. “No meio do atual clima económico, com a contínua instabilidade da eurozona, o défice do Reino Unido é uma vulnerabilidade muito grave”, disse Alexander.

Apesar desta manifesta vontade ortodoxa de ajustamento fiscal, em fevereiro e março duas das três agências de rating dos Estados Unidos, Moody's e Fitch, baixaram o polegar para a economia britânica. Ambas colocaram o Reino Unido em estado de observação, passo prévio para que, caso os dados económicos não melhorem, a classificação AAA seja retirada. O ministro da Economia George Osborne tem considerado essa nota, que potencialmente reduz o custo do financiamento do défice fiscal, como uma espécie de totem que guia todas as suas decisões económicas. Até aqui sem bons resultados.

O problema é o mesmo que, com muito ranger de dentes e com uma importante dose de esquizofrenia, começam a reconhecer o Fundo Monetário Internacional, as agências creditícias e os “mercados financeiros” a respeito da crise europeia em geral: se as economias não crescem, os programas de ajustamento não servem (apesar disso, todos continuam a pedir mais “esforços fiscais”). No ano passado, a economia britânica cresceu uns famélicos 0,8%; no último trimestre, o PIB registou uma queda de 0,3%. E, para além desses dados conjunturais, outros começam a perfilar tendências de longo prazo.

Segundo o Instituto de Estatísticas Nacionais, a renda média sofreu a pior queda em 25 anos no momento em que o ajustamento recém começa. Nos próximos três anos, calcula-se que centenas de milhares de funcionários públicos perderão os seus empregos com o que cairá a arrecadação e aumentará o gasto com o seguro desemprego.

Na quarta-feira, o Instituto de Estatísticas Nacionais anunciará se a economia teve crescimento negativo ou positivo no primeiro trimestre deste ano. Se os dados forem negativos, o Reino Unido terá entrado tecnicamente na sua segunda recessão. O resultado seria um duro golpe mediático para a coligação, por mais que a diferença entre o cenário otimista (crescimento de 0,3%) e o pessimista (queda para menos de 0%) esteja longe de ser tão drástico. Uma fração mais, uma fração menos, na prática a economia britânica começará o ano com o mesmo grau de estagnação com que fechou 2011 e com poucas perspetivas de melhora.

Artigo de Marcelo Justo, traduzido por Katarina Peixoto paraCarta Maior