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Columbia 1968: memórias pessoais, por I. Wallerstein

Uma semana antes de Paris, revolta global eclodiu em Columbia. Participante ativo, o grande sociólogo faz relato pessoal e frisa a decisiva participação dos negros.
Manifestação de estudantes da Universidade de Columbia - abril/maio de 1968
Manifestação de estudantes da Universidade de Columbia - abril/maio de 1968

O dia 23 de abril de 2018 marca o 50º aniversário do levantamento estudantil na Universidade Columbia, em 1968. Visto que me envolvi de várias maneiras nos acontecimentos, quero oferecer um testemunho sobre o que aconteceu e quais me parecem hoje as mais importantes lições a extrair.

Primeiro de maio é uma data famosa. Celebra a revolta de Haymarket em 1886 e abre o mês em que se comemoram os acontecimentos mundiais de 1968, que a maioria dos comentaristas argumenta terem começado na França. Na verdade, Columbia antecede Paris em uma semana, como costumo lembrar aos meus amigos franceses, e é uma data melhor para marcar as celebrações.

Uma lição notável de Columbia é a espontaneidade do levantamento. Sabemos agora que pouco antes dele começar os líderes do grupo Estudantes por uma Sociedade Democrática (SDS, na sigla em inglês) consideravam virtualmente impossível conseguir e manter o apoio estudantil aos seus objetivos.

Duas reivindicações eram cruciais: a primeira, que Columbia se desfiliasse do Instituto para Análises de Defesa, um dos pilares do envolvimento dos EUA no Vietname. A segunda, que Columbia interrompesse a construção de um novo ginásio em terreno considerado por direito da comunidade negra do Harlem

O SDS havia pontuado seis reivindicações. Duas eram cruciais: a primeira, que Columbia se desfiliasse do Instituto para Análises de Defesa, um dos pilares do envolvimento dos EUA no Vietname. A segunda, que Columbia interrompesse a construção de um novo ginásio no Parque Morningside, cujo terreno era considerado por direito da comunidade negra do Harlem, despejada pela Universidade Columbia.

O dia começou ao meio-dia num lugar tradicional de discursos públicos em Columbia. Houve discursos do SDS e da Sociedade de Estudantes Afro-Americanos (SAS, na sigla em inglês). Eles repetiram as seis reivindicações. A certa altura, o grupo decidiu marchar em direção ao prédio da Low Library, onde ficava a administração da universidade. Ao encontrá-lo fechado, algumas pessoas gritaram que todos deviam ir para o local do ginásio. Sequer sabemos quem gritou isso, mas toda a gente foi para o local do ginásio.

Ao encontrá-lo protegido pela polícia, o grupo decidiu ir para o Hamilton Hall, centro das atividades da Universidade Columbia. Tentaram entrar no escritório do reitor. Encontrando-o também fechado, o grupo simplesmente se sentou e pediu aos não-participantes para sair do edifício. Isso foi considerado pela administração como sequestro do reitor. Então começou o levantamento.

Seguiu-se uma reunião de professores da universidade. Eles discutiram o que fazer: chamar a polícia? Negociar? Os estudantes “soltaram” o reitor, mas mantiveram a ocupação. Havia indecisão em toda a parte. À noite, os estudantes da SAS pediram aos estudantes do SDS para deixar o Hamilton Hall e “ocupar” o seu próprio prédio, o que eles fizeram – quatro prédios, na verdade.

No dia 23 de abril de 1968 começou o levantamento estudantil na Universidade Columbia
No dia 23 de abril de 1968 começou o levantamento estudantil na Universidade Columbia

Alguém me ligou naquela noite e sugeriu que eu fosse imediatamente ao campus. Lá encontrei vários professores sem saber bem o que fazer. Decidimos por uma reunião no Philosophy Hall, que era espaçoso. O supervisor do Hall opôs-se, mas nada podia fazer. Na verdade, os professores haviam “tomado” o Philosophy Hall. Contudo, deixaram todo o mundo entrar. Os professores constituíram-se então como o Grupo da Faculdade Ad Hoc (AHFG, na sigla em inglês) e começaram a reunir-se continuamente. Foi escolhido um comité executivo de 17 pessoas, acho. Eu era um deles.

Isso me leva à segunda maior lição. A SAS expulsou o SDS do Hamilton Hall porque o SDS era indisciplinado. Rapaz, como estavam certos! A SAS, ao contrário, era incrivelmente disciplinada. Em retrospectiva, descobriu-se que foi muito mais importante na transformação da universidade e da situação dos EUA do que o SDS, embora ninguém parecesse ter essa compreensão na época.

Vários políticos do Harlem ofereceram-se como mediadores, mas a universidade ficou relutante. Ao mesmo tempo, o AHFG, dos professores, votou o envio de emissários para discutir as reivindicações com ambos, o SDS e a SAS. Fui convidado a ser um dos que discutiram com a SAS. Outros foram ver o SDS.

Fui ter com David Truman, o vice-presidente da universidade, e perguntei se ele aceitava esse meu papel. Ele ficou encantado, vendo isso como maneira de eliminar os políticos do Harlem. A SAS concordou que eu desempenhasse esse papel com a condição de que conversasse somente com um grupo de quatro pessoas constituído por eles.

Eu então entrei e saí várias vezes do Hamilton Hall, autorizado a falar apenas com o grupo de quatro pessoas. Falámos em linguagem indireta codificada. Não posso dizer que tenha podido relatar ao AHFG qualquer mudança de posição significativa. A SAS parecia querer manter o contacto, mas não passava disso. Ao menos me dei melhor do que os que foram ter com o SDS e reportaram um impasse total.

Depois de cerca de sete dias, a administração da Columbia decidiu chamar a polícia. David Truman veio à reunião do AHFG para nos dizer o que iam fazer. Ele simplesmente avisou, não discutiu a decisão. Os professores assumiram diferentes posições pessoais. Muitos decidiram cercar a entrada dos edifícios ocupados. A maioria cercou o Fayerweather, prédio ocupado pelos estudantes de pós-graduação. Um grupo menor, do qual eu participava, decidiu cercar o Hamilton Hall.

E isso me leva à última surpresa. Quando a polícia chegou onde eu estava, os polícias passaram delicadamente por nós. Já o grupo que cercava Fayerweather foi tratado de modo bem diferente. Foram espancados, alguns fortemente, assim como os estudantes que ocupavam o prédio. O que descobrimos depois é que o SAS fez um acordo com a polícia. Saíriam silenciosamente pela porta dos fundos e não seriam presos. Por isso é que nós, que cercávamos o Hamilton, fomos bem tratados.

Integrantes da SAS — a Sociedade Estudantil Afro-americana — protestam em maio de 1968, na Universidade Columbia. Segundo Wallerstein, eram claramente melhor organizados, disciplinados e ativos
Integrantes da SAS — a Sociedade Estudantil Afro-americana — protestam em maio de 1968, na Universidade Columbia. Segundo Wallerstein, eram claramente melhor organizados, disciplinados e ativos

A minha conclusão é que o verdadeiro vencedor dos acontecimentos da Columbia foi a SAS. A administração da universidade foi arrasada e David Truman nunca se tornou presidente, como se esperava antes disso. O SDS ruiu e foi destruído. Os políticos do Harlem perderam autoridade. E a SAS mostrou o poder da disciplina. A SAS foi a vencedora, é claro, mas somente como parte da longa guerra contra o racismo em curso nos Estados Unidos.

Quanto a 1968 como um todo, escrevi sobre isso muitas vezes e não tenho aqui espaço para repetir a argumentação. Em uma frase, o que aconteceu foi o fim do domínio geopolítico-cultural do liberalismo de centro e a reabertura da luta ideológica de três vértices entre a Esquerda e a Direita Global, com o liberalismo de centro lutando para manter algum apoio como alternativa real.

Artigo de Immanuel Wallerstein, disponível em iwallerstein.com. Tradução para português de Inês Castilho para outraspalavras.net. Revisão para português europeu de Carlos Santos para esquerda.net

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