Ciência e capitalismo em tempos de Covid

15 de novembro 2021 - 14:41

A solução política para esta pandemia e as que virão não pode ser depositada num otimismo tecnológico de curto prazo que veja nas vacinas a panaceia exclusiva, mas numa reflexão radical sobre as condições de vida e a ciência que se produz num mundo profundamente desigual e ecologicamente devastado. Por Laura Nuño de La Rosa.

PARTILHAR
Autosampler. Foto de Hey Paul/Flickr.
Autosampler. Foto de Hey Paul/Flickr.

A pandemia de Covid-19 pôs a descoberto a intrincada relação entre a natureza e a sociedade, assim como entre ciência, tecnologia e política. Este artigo não pretende oferecer uma reflexão em profundidade mas uma introdução, mais ou menos sistematizada, de algumas das muitas questões éticas, morais e políticas que, de forma acelerada e ampliada, a pandemia trouxe à baila. Apresentarei estas questões agrupadas em três grandes secções. Na primeira, refletirei sobre a natureza socialmente construida da pandemia no contexto da globalização capitalista e da destruição de habitats. Na segunda, analisarei como se configurou a relação entre ciência e capitalismo nas distintas fases de produção das ciências da Covid. Por último, esboçarei algumas considerações sobre a reação social à ciência da pandemia que incluíram tanto uma discussão sobre as fontes de autoridade científica no âmbito dos movimentos anti-ciência como uma reflexão sobre o modo como o conhecimento científico e a ação política se articulam e deveriam articular-se num horizonte emancipatório.

1. A natureza socialmente construida da pandemia

Em que sentido a pandemia pode ser, ao mesmo tempo, considerada uma realidade social e socialmente construida? Nesta secção abordaremos a necessidade de pensar criticamente a dimensão social da pandemia no que afeta tanto a sua génese e evolução como o modo através do qual a doença, atravessada pela desigualdade, se expressa nos corpos individuais (para uma análise mais profunda leia-se Nuño de la Rosa, 2021).

1.1. A origem social da pandemia

Hoje sabemos que plantas e animais se originaram a partir da fusão de diferentes espécies microbianas e que vírus e bactérias desempenham um papel essencial na regulação da saúde dos ecossistemas (leia-se a entrevista a Máximo Sandín em Lomeña, 2020). As epidemias, contudo, não são co-substanciais à espécie humana. O seu surgimento é um fenómeno relativamente recente na nossa história evolutiva, associado ao crescimento e concentração das populações humanas que acompanhou a sedentarização das primeiras sociedades agrícolas e pecuárias no Neolítico. De facto, a disciplina da epidemiologia só surge no século XIX, quando se desencadeia a guerra contra os micróbios que está, por sua vez, inextricavelmente ligada às condições de sobrelotação que acompanharam a industrialização (Latour, 1984). A pandemia de Covid-19 é, no mesmo sentido, produto de uma época, a nossa, caracterizada pela globalização acelerada das relações sociais e económicas e da destruição do planeta derivada da lógica produtivista do capitalismo. Sem a destruição das fronteiras dos habitats selvagens, sem as dimensões ingentes das concentrações humanas em espaços de ócio e transação económica, sem a frequência acelerada das viagens trans-oceânicas…, a génese da pandemia não teria sido explosiva nem a sua propagação global e exponencial.

Nas últimas décadas tinha-se presumido que o progresso tecnocientífico tinha gerado “transições epidemiológicas” que tinham libertado as sociedades desenvolvidas da ameaça das doenças infecciosas (Etxeberría, 2021). Consideradas males produzidos pelas condições de insalubridade dos países pobres, a indústria farmacêutica há já muito tempo que tinha deixado de investir no desenvolvimento de vacinas para concentrar-se nas doenças intrínsecas associadas ao aumento da esperança de vida, como o cancro, as doenças cardiovasculares ou o Alzheimer.

A pandemia da Covid-19 desmascarou a ilusória pretensão de circunscrever geopoliticamente as doenças, revelando-se como o sintoma mais palpável do Antropoceno, a primeira época geológica definida pelo efeito estrutural das atividades de uma única espécie, a nossa. Como há muito é denunciado pelo ecossocialismo, a pandemia de Covid mostrou de forma dramática a falsidade da dicotomia entre natureza e sociedade, uma questão que, longe de ser meramente ontológica, revela dimensões práticas imediatas, e que é o facto de sermos produtores da natureza, assinalando também as vítimas e responsáveis dessas ações.

1.2. A vulnerabilidade diferencial face à pandemia: género, raça e classe

Como sucede com todas as doenças, o modo como nos afeta a Covid em cada um das suas etapas (a saber, a própria probabilidade de adoecer, desta evoluir com gravidade e de ter acesso a cuidados de qualidade) também depende do contexto social (Barea, 2021). Esta questão não é alheia à própria epidemiologia, na qual existe um grande debate sobre isto. Desde a década dos anos oitenta, a chamada epidemiologia dos fatores de risco, centrada nos fatores biológicos e comportamentais que explicam a doença, veio sendo questionada a partir de pontos de vista críticos que tratam de compreender a saúde tendo em conta o contexto social, económico, cultural, histórico e político das populações (Arrizabalaga, 2021).

Explorar as múltiplas dimensões nas quais cada uma das fases da Covid-19 e sua propagação foi afetada por estes contextos exigiria vários artigos. Limitar-nos-emos aqui a explorar de forma muito sucinta como a vulnerabilidade diferencial face à doença depende não apenas de fatores supostamente naturais como a idade ou o sexo, mas também de como se constroem socialmente essas diferenças. É que, apesar do mantra repetido até à exaustão sobre a natureza democrática e não discriminatória do vírus, a variabilidade da incidência e as taxas de letalidade da Covid por países, cidades e distritos, e até a fuga de grandes fortunas para regiões despovoadas em jets privados (Helmore, 2020), mostrou a intrincada relação entre saúde e classe social, tecnologia e política. O modo como a saúde e a doença traduzem as posições múltiplas e entre-cruzadas de subordinação social revelou-se com particular dramatismo no caso da raça e do sexo/género. Como a agência de saúde pública norte-americana documentou), a raça, entendida como uma realidade socialmente construída que, contudo, tem efeitos materiais nos hábitos, comorbilidades e aceso aos sistemas de saúde, teve um efeito devastador na vulnerabilidade diferencial face ao risco de infeção e morte por Covid. Do mesmo modo, a amplitude da variação geográfica e temporal nos índices de mortalidade por sexo indica que esta disparidade não pode ser compreendida como o resultado predeterminado da dotação cromossómica ou genital de homens e mulheres, mas que há que ter em conta as diferentes ocupações laborais, estilos de vida e comorbilidades associadas a taos hábitos (Richardson y Shattuck-Heidorn, 2020).

2. Ciência e capitalismo em tempos de pandemia

Se a pandemia é global e se manifesta de um modo diferencial que traduz as desigualdades sociais, a ciência que se encarrega dela reproduz também as relações económicas do capitalismo atual. No século passado, a ciência consolidou-se como empresa global que transcende as fronteiras dos laboratórios e dos próprios Estados, dando lugar a redes científicas transnacionais que, através de um projeto comum, relacionam um grande número de investigadores de diferentes especialidades. O projeto Manhattan, destinado ao desenvolvimento de armas nucleares durante a II Guerra Mundial, ou o mais recente Projeto Genoma Humano, ambos liderados pelos EUA, são os grandes exemplos dos projetos big science que caracterizaram a ciência do século XX. Neste sentido, já há décadas que a imagem ilustrada da ciência como um trabalho desinteressado, praticado por mentes incorpóreas que submetem à prova as suas hipóteses aplicando o método científico, foi abandonada. As comunidades científicas são concebidas mais como redes extensas que transbordam os confins dos laboratórios e incluem também agentes políticos e empresariais (Latour, 2005). As ciências da pandemia, e em particular o empreendimento internacional que colocou em marcha o desenvolvimento das vacinas contra a Covid, desenham uma nova configuração de ciência trans-estatal governada já não por governos, mas por oligopólios empresariais e face aos quais os acordos supra-nacionais como o Covax se demonstraram incapazes (Phillips, 2021a).

Nos últimos anos, a crescente dependência da ciência, não apenas de agências de investigação, mas, sobretudo, de empresas e fundações privadas, desencadeou a reflexão crítica sobre a suposta independência do conhecimento científico (Longino, 2019). E os interesses privados não apenas condicionam a própria escolha dos factos que se investigam. Quando a investigação científica se orienta para a comercialização dos seus produtos, a própria maquinaria de produção do conhecimento científico (em particular a precarização da mão de obra que investiga) vê-se profundamente afetada (Caro Maldonado, 2021). Por outro lado, nas últimas décadas o conhecimento científico foi objeto de um crescente processo de privatização, tanto da sua própria expressão na forma de artigos académicos como da sua aplicação em produtos tecnocientíficos. A indústria editorial lucra com a administração da publicação e o acesso aos resultados de uma ciência financiada maioritariamente com fundos públicos, do mesmo modo que a indústria farmacêutica governa o desenvolvimento e a distribuição de vacinas e medicamentos. No caso das vacinas, apesar de o código ético estar bem estabelecido para a fase de desenvolvimento no que toca aos ensaios clínicos, existe um total vazio em relação à sua distribuição, como tivemos ocasião de comprovar ao presenciar a guerra das vacinas desencadeada pela competição entre os países ricos pela sua aquisição antecipada. O acelerado processo de apropriação do conhecimento científico traduz-se na crescente patentização dos produtos da ciência em todos os processos que se utilizam para o seu desenvolvimento (sobre a apropriação intelectual da própria vida por parte das empresas da chamada Biologia Sintética, veja-se Nuño de la Rosa, 2013). A evolução da legislação internacional sobre patentes, como a do mercado editorial, deu lugar a um cenário de preços exorbitantes, oligopólio empresarial e acesso violentamente desigual (Díaz y Arador, 2020).

3. A reação social à ciência da pandemia

Outra das questões que acelerou a crise da Covid tem que ver com a transformação das fontes de autoridade científica que tradicionalmente emanavam de mecanismos e instituições como a revisão por pares ou os reconhecimentos outorgados por academias científicas. Por um lado, o esvaziamento de autoridade destes mecanismos e instituições está a produzir-se como resultado da tendência crescente, interna à própria ciência, a acudir diretamente ao público para promover diversos programas de investigação para conseguir financiamento (Daston, 2021: 85). Por sua vez, a acessibilidade aos resultados da ciência, somada à crise dos mecanismos de legitimação tradicionais, ampliaram as fontes consideradas legítimas ao somar novos atores geradores de opinião científica nas redes sociais. Por outro lado, a legitimidade do conhecimento valorizada pelos mecanismos de autoridade tradicionais vacila também devido aos ataques externos por parte do movimento anti-ciência, que assumiu uma nova reencarnação as teorias conspiranóicas e negacionistas da pandemia. O movimento anti-ciência condensa a dimensão socio-política da ciência em agentes políticos ou empresariais concretos (Bill Gates, a tecnologia 5G), quando mais ninguém parece querer denunciar publicamente os efeitos devastadores da mercantilização da ciência e da tecnologia.

Neste cenário, a direita conseguiu impor uma narrativa, para a qual também contribuiu a esquerda institucional, na qual economia e saúde se opõem como polos de uma disjunção na qual o termo saúde está vinculado à saúde pública e às medidas de restrição social, enquanto a economia é associada à abertura. A ciência aparece aqui como fonte neutral, reguladora das medidas destinadas a proteger a saúde pública, e a política como o árbitro que decide entre os conselhos da ciência e as exigências da economia. Na nossa perspetiva, é urgente construir uma narrativa distinta da articulação entre economia e saúde, ciência e política, que escape ao relativismo conspiranóico ao mesmo tempo que abandone o endeusamento da ciência como fonte neutral explicativa e legitimadora de medidas de ação política. A necessidade de sublinhar os componentes políticos das decisões públicas sobre a saúde pública não é apenas, portanto, uma questão de transparência mas exige também una reflexão crítica sobre a própria natureza, a ciência e os seus produtos. Por um lado, face à crise ambiental e política da qual esta pandemia parece apenas um sintoma precoce, a luta social e ambiental apenas podem ser concebidas como inseparáveis. Como demonstra o modo como a vulnerabilidade diferencial face à doença está atravessada pela vulnerabilidade social em todos os seus eixos, tal como a responsabilidade ecológica do ser humano na origem e os efeitos da pandemia, a complexa natureza da pandemia revela que não existem especialistas totais para os problemas transcientíficos e que a entrega da política nas mãos de comités de especialistas é simplesmente uma falácia. Por outro lado, dado o modo como os interesses industriais afetam o empreendimento científico em todas as suas fases de produção e distribuição, o controlo público da ciência e dos seus produtos impõe-se-nos como a única alternativa.

Na era pré-Covid poucos imaginavam que uma crise sanitária poderia levar à paralisação quase total da maquinaria produtiva do capitalismo global; sobretudo, se a comparamos com ausência prática de ação política que tem acompanhado a ameaça, amplamente documentada, das alterações climáticas. A explicação mais óbvia deste paradoxo diz respeito à escala transgeracional das alterações climáticas em contraposição com a pandemia, mas a mais interessante politicamente aponta para que as mudanças necessárias para combater as alterações climáticas são de natureza estrutural “de uma tal escala, alcance e duração que é normal que se encontre uma resistência muito poderosa e bem financiada” (Daston, 2021: 91). E, contudo, poderia ter acontecido, e é desde já muito plausível em futuros cenários pandémicos, que não se tivesse desenvolvido, ou pelo menos que não tivesse acontecido neste tempo recorde, uma vacina eficaz contra o coronavírus. Mais: continua ainda o cenário de surgimento de variantes resistentes, um cenário favorecido pela ganância dos países ricos que preferem usar as vacinas acumuladas em doses de reforço em vez de doá-las aos países pobres (Phillips, 2021b). A solução política para esta pandemia e as que virão não pode ser depositada num otimismo tecnológico de curto prazo que veja nas vacinas a panaceia exclusiva mas numa reflexão radical sobre as condições de vida e a ciência que se produz num mundo profundamente desigual e ecologicamente devastado.


Laura Nuño de la Rosa é professora de Filosofia da Ciência na Universidade Complutense de Madrid.

Texto publicado originalmente na revista Viento Sur. Tradução de Carlos Carujo para o Esquerda.net.


Referências

Arrizabalaga, Jon (2021) “Cómo entendemos históricamente las epidemias”. Em Del Llano, Juan y Camprubí, Lino (Eds.) Sociedad entre pandemias. Madrid: Fundación Gaspar Casal.

Barea, Jesús (2021) “Razones por las que esta pandemia nunca fue una batalla”. Em Del Llano, Juan y Camprubí, Lino (Eds.), op. cit.

Caro Maldonado, Alfredo (2021) “No es ciencia todo lo que reluce. Análisis crítico del sistema tecnocientífico”, Dosieres ecosociales.Madrid: FUHEM.

Daston, Lorraine (2021) “Covid desde la epistemología histórica”. En Del Llano, Juan y Camprubí, Lino (Eds.) Sociedad entre pandemias. Madrid: Fundación Gaspar Casal.

Díaz, Jorge Luis y Arador, Álvaro (2020) “La propiedad intelectual farmacéutica y su amenaza para la salud pública”, viento sur.

Etxeberria, Ander (2021). “Covid y otras relaciones entre virus y humanos”. Revista de la Sociedad de Lógica, Metodología y Filosofía de la Ciencia en España, número especial: Corredor Lanas, Cristina y Pérez Chico, David (Eds.) “Filosofía en tiempos de pandemia”, pp. 22-29.

Latour, Bruno (1984) Les Microbes: guerre et paix suivi de Irréductions, Paris: Métaillé.

(2005) Reassembling the social: an introduction to actor network-theory. Oxford New York: Oxford University Press.

Lomeña, Andrés (2020) “Somos virus y bacterias. Una entrevista con el biólogo Máximo Sandín”. Huffington Post. 07/04/2020.

Nuño de la Rosa, Laura (2021) “La construcción de la pandemia”, Revista de la Sociedad de Lógica, Metodología y Filosofía de la Ciencia en España, número especial, pp. 8-12.

(2013) “¿Puede ser la vida objeto de ingeniería?” viento sur, 131, 42-51.

Phillips, Leigh (2021a) “Agradecer al socialismo por la vacuna. Culpar al capitalismo por su distribución”, viento sur, 6/01/2021.

(2021b) “Desigualdades: ¿A quién beneficia que el virus mute? Contra el apartheid de las vacunas”. Viento sur, 16/08/2021.

Richardson, Sara S. y Shattuck-Heidorn, Heaher (2020) “Introducing the GenderSci Lab COVID Project” GenderSci Blog, 24/06/2020.

Termos relacionados: Política