Faltam chineses na China. Este é o paradoxo da situação actual no mercado de trabalho chinês.
A China, que possui nada menos de 1,338 milhões de habitantes, é o pais mais populoso do planeta. Essa população corresponde a quase 20% da população mundial, estimada em 6,800 milhões de pessoas. É uma população que só não explode demograficamente devido à repressão social existente sob o regime do Partido Comunista. Na China, os casais são proibidos de ter mais de um filho, excepção feita aos camponeses, que podem ter outro, caso o primeiro filho seja do sexo feminino. O direito de procriar, que não é proibido nem aos animais, é vetado na China por imposição do Partido Comunista Chinês, que chegou ao poder sob a liderança de Mao Zedong em 1949.
Por ser a maior população do planeta, parecia que a China seria uma fonte inesgotável de mão-de-obra barata a ser super-explorada indefinidamente. Desde a década de 70, com o avanço da restauração capitalista na China, o capital estrangeiro passou a investir com fome voraz na província de Guangdong, onde está localizado o delta do Rio das Pérolas. Em 1991, 50% do investimento estrangeiro dirigiu-se à província de Guangdong, sendo 40% no delta do Rio das Pérolas. O Partido Comunista, além de todas as vantagens, oferecia uma – aparentemente – dócil mão-de-obra, mantida sob controlo com a repressão social imposta no país.
A super-exploração capitalista, desenvolvida, principalmente, por empresas americanas, japonesas e europeias, baseada no trabalho alienante e massacrante das rápidas linhas de produção nas fábricas, necessita de um tipo particular de mão-de-obra. Não basta ser chinesa e ser barata. É preciso que seja uma mão-de-obra jovem, com energia suficiente para suportar as longas jornadas de 12, 14, 16 ou mais horas de trabalho, seis dias por semana. Em condições de trabalho semelhantes à das prisões, como já foi denunciado, como é o caso das linhas da Foxconn, que emprega mais de 400mil trabalhadores e que levou a uma recente onda de suicídios nos últimos meses. Foi a utilização dessa jovem classe operária, oriunda, na sua maioria, do campo chinês e que possibilitou que essa região sozinha chegasse a produzir cerca de 5% do que é consumido no mundo.
A diferença fundamental este ano é que, após os trabalhadores voltarem ao campo para comemorar o início do ano lunar, milhões não retornaram aos seus postos de trabalho. Uma parte por já ter se desgastado nas linhas de produção durante os anos anteriores, e economizado para poder voltar ao campo; outra parte por ter encontrado alguma actividade no campo devido ao aquecimento provocado pelo pacote económico do governo.
E outra explicação é que o crescimento demográfico não é compatível com o crescimento dos postos de trabalho, resultado da politica de um único filho por casal. O que levou a, no final de Fevereiro, vários analistas afirmarem que a “época de ouro” da mão-de-obra barata havia terminado. Ou seja, faltam chineses para trabalhar.
A falta de mão-de-obra já tinha sido detectada desde o ano passado. Os trabalhadores deram-se conta dessa realidade, já que poderiam trocar de trabalho a qualquer momento. Não só faltam trabalhadores agora, como a tendência é de que a falta dessa mão-de-obra jovem se agudize nos próximos anos. A consequência é que, como em qualquer lugar onde se concentram os trabalhadores, estes são obrigados a lutar para melhorar as suas condições de trabalho e de vida.
E essa situação, percebida pela classe operária chinesa, é que tem sido um dos motores a impulsionar a poderosa onda de greves que a China vive neste período. É de se perguntar se a voracidade capitalista na China não produziu também a mais jovem, concentrada e poderosa classe operária do planeta, que recém desperta para a luta.