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China: onda de suicídios na Foxconn

Dos doze trabalhadores, entre 18 e 24 anos, que tentaram suicidar-se, apenas dois sobreviveram. Empresa fabrica o Ipad e o Iphone. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net
Viúva do engenheiro de 28 anos que se suicidou na semana passada

O suicídio de vários trabalhadores na Foxconn ganhou o noticiário internacional. As mortes nunca foram um grande problema para os dirigentes chineses, mesmo Mao Zedong costumava afirmar que se milhões de chineses morressem numa guerra não seria um problema tão grave assim, dado o tamanho da população do país.

Mas o que tornou os suicídios na Foxconn assunto internacional foi o facto de lá se fabricarem produtos para empresas de ponta da tecnologia mundial. Como os iPhone, iPod e iPad da Apple, de Steve Jobs. Mas também fabrica para a Dell, HP, Sony, Microsoft, Nokia entre outras.

Nas últimas semanas, dos doze trabalhadores, entre 18 e 24 anos, que tentaram suicidar-se, apenas dois sobreviveram. Esses jovens trabalhadores, desesperados com a sua situação, pulam, dramaticamente, das janelas dos alojamentos da empresa.

Na semana passada, quando a empresa tentava abafar essa situação, mais um funcionário faleceu. Dessa vez foi um engenheiro de 28 anos que “morreu repentinamente”. A Foxconn afirma estar a investigar o assunto, mas alega que não há nada que prove que a morte esteja relacionada ao trabalho. O engenheiro , de 28 anos, que casara há apenas três meses, morreu, segundo os seus familiares, por excesso de trabalho. Antes de morrer, tinha trabalhado nada menos de trinta e quatro horas ininterruptas.

Métodos militares

A Foxconn, do empresário Terry Gou, de origem taiwanesa, emprega, só no conglomerado da cidade de Shenzen, onde ocorrem os suicídios, uma imensa mão-de-obra cujo numero é de 400.000 aproximadamente, mas possui um exército de 800.000 trabalhadores em várias unidades espalhadas pelo mundo.

Para obter o maior lucro das suas operações, a empresa optou, segundo observadores externos, por métodos militares no “manuseio” dos seus empregados. Obviamente a empresa nega tais procedimentos, o que não a impediu de processar dois jornalistas do China Business News que escreveram sobre as péssimas condições de trabalho na empresa. Numa entrevista, Steve Jobs afirmou que as condições de trabalho não são tão más assim, já que existem até piscinas e quadras desportivas dentro da fábrica. O que não estaria tão mal assim, tratando-se de uma fábrica, comentou. Isso pode ser até verdade, mas o que Jobs não diz é que os trabalhadores afirmam nunca terem visto nada disso e dizem que, se existem, são para o uso dos executivos da empresa. E mesmo que pudessem utilizá-las, com a longa jornada de trabalho a que estão submetidos, isso seria praticamente inviável.

A Foxconn, na tentativa de amenizar as suas responsabilidades, diz que os suicídios na empresa são estatisticamente menores do que em toda a China, onde aproximadamente ocorrem 14 suicídios para cada 100 mil pessoas. O que nos faz crer que, para a empresa, indo por esse raciocínio, até 56 suicídios não seria um numero tão alarmante, já que corresponderia à média nacional, na medida em que a empresa tem 400 mil trabalhadores.

Obviamente, as mortes provocaram todo o tipo de especulações sobre as causas. Mas parece não ser muito difícil de entender que o motivo é essencialmente económico, já que os trabalhadores entram na empresa na esperança de melhorar as suas condições de vida. Na sua maioria, jovens que tiveram de sair do campo em busca de uma vida melhor.

Multa por minuto de atraso

Alguns comentários são esclarecedores de como a empresa trata seus funcionários:

“(…) Se uma pessoa se atrasa, tem uma multa de 100 rmb por minuto. Se se recusar a fazer horas-extras, a pessoa pode ser retirada da sua linha. Nem pensar em ficar doente…(…) Conversar durante o trabalho é penalizado com 100 rmb. É proibido usar telemóveis dentro da empresa. O primeiro salário é retido como depósito de garantia para uniformes e outros itens. Eles alegam que vão devolver no final, mas ninguém consegue receber a quantia integral, sofrendo grandes descontos.(…) Temos que dividir o quarto com mais 12 pessoas de diferentes partes da China, que falam dialectos distintos, que não dá para entender.(…) Quando acaba a jornada de trabalho, é preciso correr para tomar banho, antes de a água quente ser desligada. O cansaço é tão grande que muitas vezes deixamos de fazer a refeição matinal para poder dormir mais um pouco.(…) Sofremos assédio sexual dos encarregados, se recusamos esses avanços, temos de sofrer as consequências durante o trabalho. O meu namorado foi agredido pelos seguranças da empresa e teve de ser levado ao hospital.”

A lista de problemas é interminável. Um dos trabalhadores que se suicidou no ano passado, Sun Danyong, de 25 anos, sofreu abusos físicos pela segurança da empresa por ter perdido um protótipo do iPhone. Essa situação fê-lo pular do alojamento onde morava.

A onda de suicídios Foxconn obrigou a empresa a dar um aumento de cerca de 60% que entrou em vigor até Outubro deste ano. Mas mesmo parecendo um numero fantástico, o montante não chega a dar 163 euros, já que anteriormente ganhavam o salário mínimo de cerca de 106 euros.

Apple procura amenizar

O motivo do aumento não foi a preocupação com os funcionários. A Apple decidiu dar 0.7% (menos de 1%!) dos lucros dos produtos fabricados pelos chineses para amenizar a situação. O objectivo dessa atitude é esconder dos consumidores que os artigos da mais alta tecnologia, como o iPad, são produzidos com a super-exploração que leva, inclusive, a uma onda de suicídios As grandes empresas não querem que os nomes das suas marcas sejam vinculadas a essas mortes.

Na semana passada, a Foxconn anunciou que não vai mais pagar as indemnizações às famílias de trabalhadores que se suicidarem. Por que um dos motivos que pode ter levado a vários suicídios seria o de que as famílias receberiam indemnização. Um valor, ainda que pequeno para o nível europeu, significativo para os padrões chineses, já que corresponderia a cerca de 10 anos de trabalho. Mas que do ponto de vista de quem se suicida seria uma maneira de encurtar, com a vida, o sofrimento de ter que passar toda a existência numa situação em que “a máquina passa a operar o homem”, aliviando, ao mesmo tempo, economicamente os familiares.

Os aumentos recebidos pelos trabalhadores da Foxconn ficaram conhecidos por toda a população chinesa. Assim como os aumentos recebidos pela luta dos trabalhadores das unidades da Honda que se mobilizaram nas últimas semanas. São esses dois acontecimentos que estão na origem da actual onda de greves que ocorre na China, já que serviram de exemplo, demonstrando que, sem luta, não há melhorias. E é também o motivo pelo qual o governo chinês tem censurado as notícias sobre as greves.

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