Pela segunda vez em dois anos os chilenos foram às urnas para chumbar uma proposta de Constituição que substitua a que está em vigor há 43 anos, desde o tempo da ditadura de Pinochet. Na primeira, em 2022, o texto proposto pela maioria de esquerda eleita para o Conselho Constitucional não conseguiu convencer a população, que aproveitou também para usar o voto de protesto contra o Governo. O novo Conselho Constitucional foi eleito com uma maioria oposta, marcadamente à direita, mas a sua proposta teve este domingo o mesmo destino.
Na reação ao resultado, o Presidente Gabriel Boric deu por encerrado o processo constitucional, defendendo que "as urgências são outras". E a opinião parece não encontrar oposição em nenhum campo político, com a generalidade dos analistas a apontar o cansaço e indiferença dos cidadãos face ao evoluir de um processo despoletado pelas lutas populares contra o ex-presidente Sebastian Piñera. Outro ponto de concordância é que só o voto obrigatório terá evitado uma abstenção massiva este domingo.
"É hora de reconhecer o resultado alcançado por aqueles que levantaram a opção contra, mas sem esquecer que uma parte significativa dos que foram às urnas votou na opção a favor. Não podemos cometer o mesmo erro de plebiscitos anteriores. O país é feito por todos nós e aqueles que triunfam numa eleição não podem desprezar ou ignorar aqueles que são circunstancialmente derrotados. O nosso país continuará com a atual Constituição, porque depois de duas propostas constitucionais terem sido submetidas a um plebiscito, nenhuma delas conseguiu representar e unir o Chile na sua bela diversidade. O país ficou polarizado, dividido e, apesar deste resultado retumbante, o processo constitucional não conseguiu canalizar as esperanças de ter uma nova Constituição redigida para todos", disse Boric, citado pelo El Pais. Em vez de esperança, acrescentou o chefe de Estado chileno, este processo constitucional "gerou frustração e até enfado numa parte significativa da população, e não podemos ignorar isso".
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Na leitura presidencial sobre este processo, a conclusão tirada é que "a política ficou em dívida com o povo do Chile. E essa dívida paga-se conseguindo as soluções que os chilenos e chilenas precisam e nos exigem que alcancemos", prosseguiu Boric.
"O resultado deste referendo, mais do que uma celebração, é uma forte chamada de atenção", prosseguiu Gabriel Boric, recusando ver na derrota da proposta da direita um sinal de apoio ao Governo, que caso contrário somaria a terceira derrota consecutiva, após a recusa da primeira proposta e da eleição da maioria de direita para redigir a que agora foi recusada. Para mudar a página, Boric apelou à unidade das políticas para um novo pacto fiscal e de crescimento que combata a evasão fiscal e a corrupção e de um orçamento que permita aumentar as pensões.
A ex-presidente Michelle Bachelet, uma das vozes da campanha pelo voto Contra neste domingo, resumiu bem o sentimento à esquerda quando foi votar: "Prefiro algo mau a algo péssimo".
No campo presidencial, a noite foi mais de alívio do que de festa. Numa declaração conjunta das dez forças que apoiam Boric lida pela presidente do Partido Socialista, Paulina Vodanovic, afirma-se que "o triunfo do voto Contra transformou-se numa lufada de ar fresco para um tempo político que tem estado marcado pela discórdia e polarização. Compreendemos este sinal", afirmou a líder do PS chileno. Também a ministra indicada pelos comunistas chilenos, Camila Vallejo, já tinha afirmado ainda durante o ato eleitoral que "qualquer que seja o resultado, este processo constituinte acaba hoje".
Do lado dos derrotados, o principal protagonista era Jose António Kast, da extrema-direita do Partido Republicano, que tinha conseguido a maior bancada no Conselho Constitucional após perder as eleições presidenciais para Boric. "Reconhecemos a derrota com clareza e humildade", afirmou Kast, ao ver rejeitado um projeto que radicalizava ainda mais a liberalização contida na Constituição de 1980.