Chilenos chumbam proposta de Constituição da direita

18 de dezembro 2023 - 11:13

No referendo de domingo, 55% dos eleitores do Chile votaram contra a proposta aprovada no Conselho Constitucional, com maioria de direita. Presidente Gabriel Boric declara o processo encerrado.

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Gabriel Boric no momento do voto este domingo
Gabriel Boric no momento do voto este domingo. Foto publicada na sua página Facebook

Pela segunda vez em dois anos os chilenos foram às urnas para chumbar uma proposta de Constituição que substitua a que está em vigor há 43 anos, desde o tempo da ditadura de Pinochet. Na primeira, em 2022, o texto proposto pela maioria de esquerda eleita para o Conselho Constitucional não conseguiu convencer a população, que aproveitou também para usar o voto de protesto contra o Governo. O novo Conselho Constitucional foi eleito com uma maioria oposta, marcadamente à direita, mas a sua proposta teve este domingo o mesmo destino.

Na reação ao resultado, o Presidente Gabriel Boric deu por encerrado o processo constitucional, defendendo que "as urgências são outras". E a opinião parece não encontrar oposição em nenhum campo político, com a generalidade dos analistas a apontar o cansaço e indiferença dos cidadãos face ao evoluir de um processo despoletado pelas lutas populares contra o ex-presidente Sebastian Piñera. Outro ponto de concordância é que só o voto obrigatório terá evitado uma abstenção massiva este domingo.

"É hora de reconhecer o resultado alcançado por aqueles que levantaram a opção contra, mas sem esquecer que uma parte significativa dos que foram às urnas votou na opção a favor. Não podemos cometer o mesmo erro de plebiscitos anteriores. O país é feito por todos nós e aqueles que triunfam numa eleição não podem desprezar ou ignorar aqueles que são circunstancialmente derrotados. O nosso país continuará com a atual Constituição, porque depois de duas propostas constitucionais terem sido submetidas a um plebiscito, nenhuma delas conseguiu representar e unir o Chile na sua bela diversidade. O país ficou polarizado, dividido e, apesar deste resultado retumbante, o processo constitucional não conseguiu canalizar as esperanças de ter uma nova Constituição redigida para todos", disse Boric, citado pelo El Pais. Em vez de esperança, acrescentou o chefe de Estado chileno, este processo constitucional "gerou frustração e até enfado numa parte significativa da população, e não podemos ignorar isso".

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Na leitura presidencial sobre este processo, a conclusão tirada é que "a política ficou em dívida com o povo do Chile. E essa dívida paga-se conseguindo as soluções que os chilenos e chilenas precisam e nos exigem que alcancemos", prosseguiu Boric.

"O resultado deste referendo, mais do que uma celebração, é uma forte chamada de atenção", prosseguiu Gabriel Boric, recusando ver na derrota da proposta da direita um sinal de apoio ao Governo, que caso contrário somaria a terceira derrota consecutiva, após a recusa da primeira proposta e da eleição da maioria de direita para redigir a que agora foi recusada. Para mudar a página, Boric apelou à unidade das políticas para um novo pacto fiscal e de crescimento que combata a evasão fiscal e a corrupção e de um orçamento que permita aumentar as pensões.

A ex-presidente Michelle Bachelet, uma das vozes da campanha pelo voto Contra neste domingo, resumiu bem o sentimento à esquerda quando foi votar: "Prefiro algo mau a algo péssimo".

No campo presidencial, a noite foi mais de alívio do que de festa. Numa declaração conjunta das dez forças que apoiam Boric lida pela presidente do Partido Socialista, Paulina Vodanovic, afirma-se que "o triunfo do voto Contra transformou-se numa lufada de ar fresco para um tempo político que tem estado marcado pela discórdia e polarização. Compreendemos este sinal", afirmou a líder do PS chileno. Também a ministra indicada pelos comunistas chilenos, Camila Vallejo, já tinha afirmado ainda durante o ato eleitoral que "qualquer que seja o resultado, este processo constituinte acaba hoje".

Do lado dos derrotados, o principal protagonista era Jose António Kast, da extrema-direita do Partido Republicano, que tinha conseguido a maior bancada no Conselho Constitucional após perder as eleições presidenciais para Boric. "Reconhecemos a derrota com clareza e humildade", afirmou Kast, ao ver rejeitado um projeto que radicalizava ainda mais a liberalização contida na Constituição de 1980.