O vídeo é eloquente. Um jovem negro pergunta a um agente da PSP porque não o deixa entrar no Centro Comercial Vasco da Gama e este não lhe dá qualquer motivo, apenas que não pode passar por ali. Diante da insistência diz que se quiser dar a volta pode entrar pelo lado. No mesmo momento passa um casal de brancos que atravessa o cordão policial sem ser incomodado. O agente da PSP não tem a identificação regulamentar na lapela e recusa-se a identificar-se. O agente ao lado dele diz apenas que se chama sr. Gomes. “Sr. Gomes e óculos escuros”, resume o autor do vídeo, que já vai com mais de 4 mil partilhas no Facebook.
Um novo arrastão
“Tentou-se criar aqui um novo arrastão”, disse ao Esquerda.net o sociólogo João Teixeira Lopes. De facto, os acontecimentos de quarta-feira no centro comercial Vasco da Gama parecem copiar, quase passo a passo, a famosa inventona de Carcavelos ocorrida em 2005. Primeiras notícias sensacionalistas: uma multidão de jovens negros invadiu em massa o centro comercial Vasco da Gama (Gang tenta invadir centro comercial Vasco da Gama, dizia o Correio da Manhã); a polícia foi chamada e interveio (PSP trava invasão ao Vasco da Gama – de novo o Correio da Manhã), “limpando” o centro e formando cordões para impedir a entrada – mas só não podiam entrar jovens negros. Testemunhas ouvidas pelas TVs – mais uma vez, jovens negros e negras – denunciam que “a polícia veio atrás de nós, como gato e rato”. Oficialmente houve quatro prisões e um jovem foi hospitalizado, tendo um polícia ficado com uma mão fraturada.
A PSP emitiu um comunicado que dizia: “Repentinamente dezenas de jovens invadiram os corredores do centro comercial e começaram a correr desenfreadamente, entrando em algumas lojas. Durante a desordem, um menor de 15 anos foi agredido com uma chave de fendas, provocando-lhe uma perfuração na zona lombar.”
Desmentido da direção do Vasco da Gama
Mas esta versão foi desmentida pela própria direção do centro comercial: “as imagens de videovigilância não mostram jovens a invadir o espaço. Não houve nem vandalismo nem furtos”, disse o próprio diretor do Vasco da Gama, Pedro Bandeira Pinto, ao Público.
“As tensões e os preconceitos raciais nas situações de crise estão bem presentes e vêm imediatamente ao de cima”, diz João Teixeira Lopes
O diretor explicou que durante a tarde de quarta-feira vários jovens usaram o centro comercial, como costumam fazer, como corredor de passagem para chegar ao Parque das Nações, onde fora marcado um encontro, através das redes sociais.
Por volta das sete da tarde, “um grupo desentendeu-se em frente à linha de caixas do Continente”, prosseguiu o diretor. Seriam menos de 20. Um deles foi ferido nas costas por outro e os vigilantes do centro afastaram-no e chamaram o INEM. "Contactámos a PSP que decidiu que era importante que os jovens que estavam no centro comercial saíssem", receando, eventualmente, que houvesse mais incidentes, prosseguiu o diretor. “A PSP é que estava no exterior, pode ter-se apercebido de um potencial problema”, admite. Mas dentro do centro, sublinhou, não houve problemas.
“Polícia orientada pelo preconceito”
A reconstituição dos acontecimentos e os testemunhos indicam que durante um “meet”, encontro de jovens marcado pelas redes sociais para convívio, houve um desentendimento entre dois grupos, envolvendo talvez 20 entre os cerca de 600 jovens que participavam no convívio no Parque das Nações. Chamada, a polícia respondeu à bruta, varrendo todos os jovens e negros.
“A atuação da PSP mostra que, infelizmente, a nossa polícia é orientada pelo preconceito”, analisa o sociólogo João Teixeira Lopes, ouvido pelo Esquerda.net. Para o professor da Universidade do Porto, os acontecimentos de quarta-feira mostram que “as tensões e os preconceitos raciais nas situações de crise estão bem presentes e vêm imediatamente ao de cima”.
João Teixeira Lopes recorda os acontecimentos do falso arrastão da praia de Carcavelos, em 2005, e afirma que aquilo que esteve na base daqueles acontecimentos continua a manter-se: “preconceito e estereótipo por parte das autoridades e, ao mesmo tempo, desigualdades sociais de base étnica que são patentes.”
O sociólogo sublinha que não houve qualquer justificação para a polícia ter impedido os jovens de entrarem no centro comercial, até porque nada ocorreu ali; e chama a atenção para as características de espaço “apenas semipúblico” dos centros comerciais.